Há quem diga que a economia é uma ciência exacta, mas em Macau parece mais um jogo de probabilidades, dessas que se praticam sob luzes néon e carpetes de padrões tão agressivos que fariam desmaiar um decorador vienense. O FMI, sempre tão comedido na arte de anunciar desgraças, decidiu presentear a RAEM com uma previsão que, não sendo propriamente um epitáfio, é pelo menos um aviso de que o banquete está a perder travo e que crescimento de 3,3% em 2026, é uma marcha lenta que, para os padrões locais, equivale a um bocejo colectivo. A culpa, dizem os peritos, reside nas “receitas mais tímidas dos casinos” e nas taxas de juro elevadas, dois factores que, juntos, produzem um cocktail menos festivo do que o habitual.
Segundo a DSEC, o PIB de Macau cresceu 4,7% em 2025, atingindo 417,28 mil milhões de patacas. Um número respeitável, sem dúvida, mas que, como todos os números, tem a elegância fria das coisas que não explicam nada por si mesmas. O FMI, no seu comunicado anual ao abrigo do Artigo IV, lembra que este vigor é enganador e que a médio prazo, o crescimento deverá abrandar para 3%, alinhando-se com a desaceleração da China continental e da RAE de Hong Kong. É sempre reconfortante saber que, mesmo quando Macau abranda, fá-lo em boa companhia.
A inflação, essa velha senhora que aparece sempre quando menos se espera, deverá subir gradualmente em 2026, empurrada pelos preços da energia, estabilizando depois em 2,2%. No relatório de Abril, o FMI previa 1,8% mas previsões económicas são como promessas eleitorais que mudam com o vento, e o vento, neste caso, sopra de Pequim, de Washington e de qualquer sala VIP onde se decide o destino das taxas de juro globais.
O relatório anual preliminar acrescenta que o abrandamento será “parcialmente compensado” por uma recuperação do investimento, sobretudo aquele que as seis concessionárias do jogo se comprometeram a realizar em sectores não relacionados com o jogo. É comovente observar esta súbita vocação para a diversificação, quase como se os casinos tivessem descoberto que existe vida para além das mesas de baccarat. A história económica ensina, porém, que diversificar por obrigação raramente produz milagres. Como escreveu John Kenneth Galbraith, “a economia é extremamente útil como forma de emprego para economistas” e, no caso de Macau, também para consultores que redigem relatórios sobre diversificação que nunca chega verdadeiramente a acontecer.
A taxa de inflação anual de 2025 fixou-se em 0,33%, o valor mais baixo em quatro anos. Um número tão modesto que quase parece pedir desculpa por existir. O FMI, sempre atento, sublinha que a economia da RAEM se tem mantido resiliente, apoiada pela recuperação do jogo e do turismo. Resiliente, sim, mas ainda abaixo do nível pré-pandémico, como um atleta que regressa às pistas mas continua a coxear discretamente.
O relatório repete diagnósticos antigos como o envelhecimento da população, baixo crescimento demográfico, dificuldades das PME e estagnação imobiliária. Macau, apesar de toda a sua exuberância nocturna, sofre dos mesmos males que afectam economias maduras com a diferença de que aqui a maturidade convive com uma dependência quase infantil do sector do jogo. Como diria Amartya Sen, “o desenvolvimento é liberdade”, mas a RAEM continua presa a uma monocultura económica que limita qualquer voo mais ambicioso.
No meio deste cenário, surge uma nota de entusiasmo financeiro pois o Governo da Província de Guangdong vai emitir em Macau títulos de dívida “offshore” no valor de 2,5 mil milhões de renminbi, com prazos de dois, três e cinco anos. A AMCM, sempre pronta a celebrar boas novas, saudou a emissão, lembrando que é a sexta consecutiva desde 2021. Obrigações verdes, azuis e temáticas de Hengqin uma paleta cromática que faria inveja a qualquer pintor simbolista.
A emissão demonstra o apoio contínuo do Governo Central e da Província de Guangdong a Macau, e contribui para acelerar o mercado obrigacionista local. É um gesto político, claro, mas também um lembrete de que a RAEM continua a ser uma peça útil no tabuleiro financeiro da Grande Baía. Os títulos de dívida, esses instrumentos que os governos usam para pagar dívidas e captar financiamento, tornam-se aqui símbolos de uma integração económica que avança, mesmo quando o crescimento abranda.
O FMI observa que a economia de Macau continua a recuperar, apesar dos ventos contrários do Médio Oriente. As posições externa e orçamental permanecem sólidas, apoiadas pela recuperação das receitas do jogo e pela execução conservadora das despesas. Conservadora, sim que, segundo o relatório, as despesas públicas têm ficado aquém do previsto, enquanto as receitas, tanto do jogo como não relacionadas com o jogo, deverão exceder as estimativas.
Se este padrão persistir, a política orçamental de 2026 será menos favorável do que o inicialmente previsto, com o aumento das receitas a traduzir-se numa maior acumulação de reservas. É sempre curioso observar como, em Macau, a prudência orçamental convive com uma economia que depende de actividades intrinsecamente arriscadas. Como escreveu Paul Krugman, “a economia não é uma ciência exacta, mas é uma ciência com regras” e uma dessas regras é que acumular reservas não substitui a necessidade de investir em sectores que garantam futuro.
O FMI recomenda maior esforço na execução das despesas planeadas, especialmente em programas de assistência social relacionados com o envelhecimento e no investimento de capital. Sugere ainda considerar o aumento das despesas orçamentais, caso as receitas continuem a superar expectativas. É uma recomendação sensata, mas que, como tantas recomendações, corre o risco de ser arquivada numa gaveta onde repousam outras sugestões igualmente sensatas.
O mercado imobiliário continua pressionado, com preços residenciais e comerciais em queda. A confiança dos investidores permanece moderada, e as condições de crédito restritivas travam a procura interna e o investimento privado. As PME, essas eternas vítimas das grandes narrativas económicas, enfrentam dificuldades persistentes em que o aumento das chegadas de turistas não se traduziu em procura generalizada, e o crescimento potencial continua limitado.
Macau, apesar da sua riqueza aparente, vive uma contradição estrutural de uma economia que depende de fluxos externos, mas que não consegue transformar esses fluxos em dinamismo interno. Como escreveu Joseph Stiglitz, “os mercados por si só não conduzem ao desenvolvimento” e, no caso da RAEM, conduzem sobretudo ao reforço de sectores dominantes.
O FMI conclui que “continuar a salvaguardar a estabilidade financeira e acelerar a diversificação económica será importante para reforçar a resiliência”. É uma frase que poderia figurar em qualquer relatório de qualquer país, mas que, aplicada a Macau, ganha um tom quase irónico pois diversificar é uma palavra repetida há décadas, mas cuja concretização continua tão tímida quanto as receitas dos casinos em 2026.
A economia da RAEM não está em crise, mas está em marcha lenta. E, numa cidade habituada ao brilho, ao movimento e ao excesso, a marcha lenta é, por si só, um aviso. O futuro dependerá da capacidade de transformar recomendações em políticas, políticas em acções e acções em resultados uma cadeia que, historicamente, tem sido mais frágil do que robusta.
Como escreveu Keynes, “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar às antigas”. Macau, em 2026, continua a tentar escapar mas fá-lo com a lentidão de quem ainda não decidiu se quer realmente abandonar o conforto das velhas fórmulas.
Bibliografia DSEC. (2026). Contas Nacionais de Macau 2025. Direcção dos Serviços de Estatística e Censos.
FMI. (2026). Macau SAR: Article IV Consultation Report. International Monetary Fund.
Galbraith, J. K. (1999). The Affluent Society. Houghton Mifflin.
Krugman, P. (2009). The Return of Depression Economics. W. W. Norton.
Sen, A. (1999). Development as Freedom. Oxford University Press.
Stiglitz, J. (2002). Globalization and Its Discontents. W. W. Norton.
Jorge Rodrigues Simão 2026

