Durante muito tempo acreditou-se que o principal desafio das democracias ocidentais seria a redução progressiva do papel do Estado. Políticos, economistas e comentadores passaram décadas a anunciar a inevitável vitória dos mercados sobre as instituições públicas, como se a história caminhasse inevitavelmente para uma ordem em que as fronteiras nacionais perderiam importância e a economia global acabaria por substituir grande parte das funções tradicionais dos governos. Contudo, o que está a acontecer no século XXI é bastante mais complexo do que essa velha narrativa permitia imaginar.

O Estado não desapareceu. Continua a cobrar impostos, a legislar, a regular sectores económicos, a manter forças armadas e a gerir burocracias gigantescas. O que mudou foi a sua capacidade para definir objectivos estratégicos e mobilizar a sociedade em torno deles. Em vez de dirigir o poder económico, muitas vezes parece adaptar-se a ele. Em vez de enquadrar interesses privados num projecto colectivo, vê-se frequentemente obrigado a negociar com actores económicos cuja influência rivaliza com a de muitos governos.

O problema não é a privatização do Estado no sentido clássico da expressão. O que se verifica é algo potencialmente mais profundo. As instituições públicas continuam formalmente intactas, mas os centros de decisão encontram-se cada vez mais dispersos entre empresas tecnológicas, grupos financeiros, plataformas digitais, conglomerados de informação e estruturas económicas transnacionais que actuam numa escala superior à dos próprios Estados. O resultado é uma situação paradoxal em que existe poder em abundância, mas escasseia coordenação política.

O sociólogo Max Weber, na sua monumental obra “Economy and Society”, definia o Estado moderno através da centralização da autoridade e da sua capacidade de organizar racionalmente a sociedade. Durante grande parte do século XX, essa definição parecia corresponder à realidade. Os governos planeavam infra-estruturas, promoviam estratégias industriais, venciam guerras mundiais, investiam em investigação científica e definiam prioridades nacionais relativamente claras. Havia divergências políticas, mas existia também uma percepção relativamente consensual sobre o interesse colectivo.

Actualmente, essa clareza tornou-se mais difícil de encontrar. As grandes empresas tecnológicas controlam plataformas utilizadas diariamente por milhares de milhões de pessoas. Empresas privadas desempenham papéis fundamentais na exploração espacial, na inteligência artificial, na segurança digital e na recolha de informação estratégica. Instituições financeiras movimentam recursos de dimensão global. Em muitos sectores, os governos dependem da colaboração de actores privados para manter capacidades consideradas essenciais à segurança nacional.

A questão torna-se particularmente evidente nos Estados Unidos. Durante décadas, a liderança americana assentou numa combinação relativamente estável de poder político, capacidade industrial, supremacia tecnológica e influência financeira. Essa fórmula permitiu ao país afirmar-se como potência dominante após a II Guerra Mundial. No entanto, os pilares que sustentavam essa arquitectura já não parecem tão sólidos quanto outrora.

Segundo análises recentes associadas aos trabalhos de Tanner Greer, uma parte significativa da ascensão americana esteve ligada à existência de uma elite nacional que associava o seu sucesso económico ao sucesso do país. O chamado “Eastern Establishment” integrava empresários, políticos, banqueiros e administradores que partilhavam uma visão relativamente comum do interesse nacional.

Hoje, esse consenso parece fragmentado. As actuais elites económicas operam frequentemente à escala global. Os seus investimentos distribuem-se por múltiplos continentes. As suas cadeias de produção atravessam dezenas de países. Os seus mercados são planetários. A lógica que orienta as suas decisões é frequentemente diferente da lógica que orienta os responsáveis políticos nacionais.

Não se trata necessariamente de falta de patriotismo. Trata-se de uma mudança estrutural. Para muitas organizações contemporâneas, a referência principal deixou de ser uma comunidade política concreta e passou a ser um sistema económico globalizado. É neste contexto que surge o fenómeno político representado por Donald Trump.

Independentemente das preferências ideológicas de cada observador, Trump tornou-se uma figura fundamental para compreender as transformações actuais do poder. A sua importância não resulta apenas das políticas implementadas ou dos discursos proferidos. Resulta também da forma como simboliza a crescente fusão entre redes económicas privadas e exercício do poder político.

Ao contrário da trajectória típica de muitos líderes políticos tradicionais, Trump chegou ao topo da hierarquia estatal transportando consigo uma cultura empresarial baseada na negociação, na influência económica e na construção de alianças estratégicas. O seu percurso sugere que as fronteiras entre os mundos da política e dos negócios se tornaram progressivamente mais permeáveis.

Ao mesmo tempo, cresce nos Estados Unidos um movimento intelectual e político favorável à reconstrução da capacidade produtiva nacional. Depois de décadas de globalização e deslocalização industrial, diversos sectores defendem uma estratégia de reindustrialização e reforço da soberania económica. A lógica é compreensível.

Durante os anos de 1990 e início deste século, acreditou-se que a expansão dos mercados internacionais produziria prosperidade generalizada e integração política. Muitos decisores assumiram que a crescente interdependência económica reduziria conflitos geopolíticos e incentivaria a convergência entre sistemas políticos. A realidade revelou-se mais complexa.

A globalização gerou crescimento, inovação tecnológica e expansão do comércio internacional. Mas também produziu desequilíbrios, desigualdades regionais e dependências estratégicas inesperadas. Sectores industriais desapareceram de certas regiões. Comunidades inteiras perderam relevância económica. Ao mesmo tempo, novas potências económicas adquiriram recursos e capacidades que alteraram significativamente o equilíbrio internacional.

Neste contexto, alguns autores defendem aquilo que designam por “capitalismo nacional”, uma estratégia orientada para a recuperação da capacidade produtiva e industrial do país. Conforme assinalado em análises recentes sobre os trabalhos de Tanner Greer, existe actualmente um debate crescente em torno da necessidade de reconciliar dinamismo económico com objectivos estratégicos nacionais.

Contudo, existe um obstáculo fundamental. Os governos podem incentivar investimentos, estabelecer tarifas, criar programas industriais e promover inovação. O que não conseguem fazer facilmente é alterar os interesses estruturais das elites económicas. Empresas globais continuam a responder aos incentivos dos mercados globais. Investidores continuam a privilegiar rentabilidade. Instituições financeiras continuam a procurar eficiência de capital. A política pode influenciar estas dinâmicas. Controlá-las completamente é outra questão.

A situação torna-se ainda mais delicada no domínio tecnológico. Actualmente, capacidades consideradas cruciais para a segurança nacional encontram-se fortemente dependentes de empresas privadas. Tecnologias de inteligência artificial, análise de dados, sistemas espaciais e infra-estruturas digitais são frequentemente desenvolvidas fora do aparelho estatal.

No livro “The Technological Republic”, Alexander Karp e Nicholas Zamiska defendem a necessidade de reconstruir a cooperação estratégica entre governos e sector tecnológico, argumentando que o afastamento entre ambos enfraquece a capacidade competitiva do Ocidente. A observação merece atenção porque revela uma das grandes tensões do nosso tempo. Os Estados precisam das empresas tecnológicas. As empresas tecnológicas precisam dos Estados. Mas ambos possuem prioridades que nem sempre coincidem. Consequentemente, a governação transforma-se num processo permanente de negociação.

Quem exerce realmente influência? Quem determina as prioridades estratégicas? Quem define os limites entre interesse público e interesse privado? Estas perguntas tornaram-se cada vez mais difíceis de responder. Ao mesmo tempo, observa-se uma crescente polarização entre diferentes segmentos das elites contemporâneas. Algumas continuam a defender o modelo globalizado das últimas décadas. Outras promovem formas de nacionalismo económico. Outras procuram adaptar-se pragmaticamente às circunstâncias sem comprometer interesses adquiridos.

O resultado é uma crescente dificuldade para formular projectos nacionais coerentes. As instituições continuam a funcionar. Os parlamentos continuam a legislar. Os tribunais continuam a julgar. As eleições continuam a realizar-se. Mas a capacidade de produzir consensos duradouros parece cada vez mais limitada.

O politólogo Francis Fukuyama, em obras como “The Origins of Political Order e Political Order and Political Decay, argumenta que a estabilidade política depende não apenas de recursos materiais, mas também da qualidade institucional e da capacidade de coordenação colectiva. Quando essa coordenação enfraquece, multiplicam-se conflitos internos e dificuldades de governação. É precisamente essa dificuldade que parece caracterizar o momento actual.

O desafio não reside na falta de riqueza, de tecnologia ou de poder. Pelo contrário. Poucas épocas da história concentraram tantos recursos económicos, conhecimento científico e capacidades tecnológicas. O problema reside na crescente fragmentação dos centros de decisão. As democracias contemporâneas enfrentam uma situação inédita. Possuem Estados formalmente poderosos, mas frequentemente incapazes de mobilizar consensos estratégicos. Possuem elites altamente qualificadas, mas nem sempre comprometidas com os mesmos objectivos. Possuem capacidades tecnológicas extraordinárias, mas distribuídas por actores que seguem lógicas distintas.

Consequentemente, a política transforma-se numa gestão permanente de equilíbrios instáveis. Não estamos perante o desaparecimento do Estado. Também não estamos perante a vitória total do mercado. Estamos perante uma nova configuração histórica em que os poderes públicos e privados coexistem numa relação simultaneamente cooperativa e competitiva.

O verdadeiro desafio do século XXI poderá consistir precisamente em encontrar uma nova síntese entre ambos. Porque quando as instituições deixam de produzir objectivos colectivos claros, quando as elites deixam de partilhar horizontes comuns e quando a definição do interesse nacional se torna objecto de disputa permanente, o problema deixa de ser simplesmente quem possui poder. A questão passa a ser quem consegue dar sentido ao seu exercício.

Bibliografia

Economy and Society: An Outline of Interpretive Sociology, Max Weber, University of California Press.

The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West, Alexander C. Karp e Nicholas W. Zamiska, 2025.

The Origins of Political Order, Francis Fukuyama, Farrar, Straus and Giroux.

Political Order and Political Decay, Francis Fukuyama, Farrar, Straus and Giroux.

Artigos e ensaios de Tanner Greer sobre elites tecnológicas e cultura política norte-americana.

Diplomacy, Henry Kissinger, Simon & Schuster.

Jorge Rodrigues Simão 2026

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