A História possui um talento notável para desiludir os ingénuos. Sempre que um governante cai, surge uma multidão de observadores apressados convencidos de que a liberdade está ao virar da esquina, como se a simples remoção de um rosto bastasse para desmontar uma máquina construída ao longo de décadas. A Venezuela oferece hoje mais uma demonstração dessa verdade inconveniente. A saída de Nicolás Maduro foi celebrada por amplos sectores da sociedade venezuelana, mas aquilo que muitos interpretaram como o início de uma restauração democrática revelou-se rapidamente algo mais ambíguo, complexo e, sobretudo, irónico.

Os Estados Unidos surgiram como actores decisivos neste processo. Contudo, a influência não gera necessariamente admiração. A confusão entre poder e legitimidade é um dos erros mais antigos da política internacional. Como observou Henry Kissinger em “Diplomacy” (1994), a estabilidade de qualquer ordem política depende não apenas da força, mas também da percepção de legitimidade pelos governados. Aparentemente, alguns responsáveis em Washington esqueceram-se desse detalhe elementar.

Nos primeiros momentos após a queda de Maduro, uma parte significativa dos venezuelanos mostrou-se receptiva à intervenção americana. Afinal, para muitos cidadãos, qualquer força capaz de remover um regime associado à degradação económica, à repressão política e ao colapso institucional parecia merecer, pelo menos, um benefício da dúvida. Porém, a gratidão política é um recurso extraordinariamente perecível. Gasta-se depressa, sobretudo quando é tratada com arrogância.

As declarações de Donald Trump sobre a Venezuela, incluindo referências que sugeriam uma espécie de tutela política permanente, foram recebidas por muitos venezuelanos como uma demonstração de condescendência. Existe uma diferença considerável entre ajudar um povo e agir como se esse povo tivesse perdido o direito de determinar o próprio destino. O problema é que os impérios, antigos ou modernos, raramente conseguem perceber essa diferença.

Alexis de Tocqueville escreveu em “A Democracia na América” (1835-1840) que os povos podem aceitar a autoridade, mas dificilmente toleram a humilhação. A observação mantém toda a actualidade. Quanto mais Washington parecer interessado em administrar a Venezuela em vez de devolver aos venezuelanos a capacidade de governarem o seu próprio país, mais rapidamente verá a sua influência corroída pela suspeita. O poder aumentou depressa. A legitimidade ficou para trás.

Entretanto, um erro frequente de muitos analistas consiste em acreditar que a prisão de um líder corresponde à destruição do regime que liderava. Tal ideia talvez funcione nos romances, onde os vilões desaparecem na última página. Na vida real, os sistemas políticos sobrevivem frequentemente aos homens que os criaram.

O chavismo não era apenas Maduro. Nunca foi. Era uma vasta coligação de dirigentes partidários, oficiais militares, serviços de informações, burocratas e empresários ligados ao aparelho estatal. Todos possuíam interesses específicos. Todos tinham algo a perder num processo de ruptura completa. A substituição de Maduro não eliminou essas estruturas. Apenas alterou a distribuição interna do poder.

Neste contexto, a ascensão de Delcy Rodríguez tornou-se menos surpreendente do que parece à primeira vista. O seu principal mérito político não foi apresentar uma nova visão para o país. Foi evitar uma guerra interna entre facções que poderiam ter mergulhado a Venezuela numa crise ainda mais profunda. A sua autoridade assenta mais na utilidade do que no carisma.

Max Weber, em “Economia e Sociedade” (1922), distinguiu a autoridade carismática da autoridade burocrática. Chávez representava a primeira categoria de forma quase exemplar. A sua capacidade para estabelecer uma ligação emocional com os apoiantes era extraordinária. Maduro herdou apenas uma parte desse capital simbólico, mas possuía uma habilidade própria para transformar a política em espectáculo. Os vídeos informais, as intervenções nas redes sociais, o tom aparentemente descontraído e a encenação constante permitiram-lhe preservar uma base de apoio mesmo durante os períodos mais difíceis.

Rodríguez não dispõe dessas características. Não possui a teatralidade de Chávez nem o instinto comunicacional de Maduro. Em termos de magnetismo popular, é uma figura significativamente mais limitada. Contudo, para as elites do regime, isso pode até constituir uma vantagem. Os sistemas políticos marcados pela instabilidade tendem a preferir gestores previsíveis a líderes carismáticos.

A questão central reside no facto de a nova liderança depender da manutenção de uma coligação complexa. Como observou Gaetano Mosca em “A Classe Política” (1896), qualquer regime é sustentado por uma minoria organizada. Na Venezuela, essa minoria permanece activa, influente e armada. Nada ilustra melhor esta realidade do que o papel das forças armadas. Durante anos, muitos opositores imaginaram que uma transformação democrática exigiria uma purga ampla do aparelho militar. Tal ideia possui um apelo emocional evidente. O problema é que a política raramente recompensa soluções emocionalmente satisfatórias.

Os militares controlam os instrumentos fundamentais da coerção do Estado. Possuem armas, logística, capacidade operacional e cadeias de comando. Sem eles, qualquer transição arrisca transformar-se num exercício de ficção constitucional. Aparentemente, Washington compreendeu essa realidade antes de muitos defensores da democratização imediata.

Em “Da Guerra” (1832), Carl von Clausewitz recordava que a força organizada continua a ser um factor decisivo na preservação das ordens políticas. A preservação da estrutura militar venezuelana reflecte precisamente esse cálculo pragmático. Em vez de destruir a instituição, optou-se por integrá-la no novo equilíbrio de poder. A remoção de figuras influentes e a reorganização dos comandos superiores representam uma tentativa cuidadosa de renovação selectiva. O objectivo não é desmilitarizar o sistema político. É garantir que a instituição militar permanece funcional enquanto muda gradualmente os seus centros de lealdade.

Aqui encontramos mais uma das grandes ironias da política contemporânea. Durante décadas, inúmeros discursos denunciaram a excessiva presença dos militares na vida pública venezuelana. Agora, muitos dos mesmos actores reconhecem, ainda que discretamente, que a estabilidade da transição depende exactamente dessa presença. O mesmo raciocínio aplica-se às redes paralelas de poder construídas ao longo do período chavista. A redução da visibilidade dos colectivos armados não significa necessariamente o desaparecimento dessas estruturas. Significa apenas que deixaram de ser tão úteis na conjuntura actual.

Thomas Hobbes advertia em “Leviatã” (1651) para o facto de a autoridade política depender do monopólio efectivo da força. O caso venezuelano demonstra algo ligeiramente diferente de que certos regimes conseguem conservar esse monopólio precisamente através da fragmentação controlada da violência. O Estado não abdica do poder coercivo. Limita-se a distribuí-lo por actores cuja actuação pode ser oficialmente negada quando conveniente.

A abertura política observada nos últimos meses deve ser interpretada à luz desta realidade. A libertação de alguns presos políticos, o regresso de exilados e a ampliação do espaço de actuação da oposição constituem desenvolvimentos relevantes. Contudo, seria uma imprudência confundi-los com uma democratização consolidada. Os mecanismos institucionais da repressão continuam a existir. As estruturas que prenderam opositores não desapareceram. Apenas estão momentaneamente menos activas. A diferença é importante.

Samuel Huntington observou em “A Terceira Vaga” (1991) que as transições democráticas raramente seguem uma linha recta. Avançam, recuam, estagnam e transformam-se. A Venezuela parece encontrar-se precisamente nesse terreno intermédio, onde coexistem sinais de abertura e instrumentos de controlo.

O problema adicional é a profunda falta de confiança acumulada ao longo dos anos. Muitos sectores da oposição encaram cada concessão do regime com compreensível cepticismo. Já testemunharam promessas, negociações, adiamentos e recuos suficientes para desenvolver uma imunidade quase absoluta ao optimismo político.

Ao mesmo tempo, o próprio chavismo procura reinterpretar os acontecimentos sem admitir uma derrota estratégica. Trata-se de um comportamento clássico dos sistemas políticos resilientes. Adaptam-se para sobreviver. Recuam para preservar posições essenciais. Transformam derrotas em pausas tácticas.

Nicolau Maquiavel escreveu em “O Príncipe” (1532) que os governantes prudentes aprendem a adaptar-se às circunstâncias. Poucos movimentos políticos latino-americanos demonstraram uma capacidade de adaptação tão persistente como o chavismo. A sobrevivência continua a ser o seu principal objectivo estratégico.

Por isso, a questão decisiva não é saber se Maduro caiu. A verdadeira questão consiste em determinar quem controla efectivamente o poder depois da sua queda. Até ao momento, a resposta permanece desconfortavelmente ambígua. A população venezuelana aspirava a uma transformação que lhe devolvesse soberania política. Esperava eleições genuinamente competitivas, instituições credíveis e capacidade real de escolher os seus governantes. Em suma, esperava algo simultaneamente simples e revolucionário como o direito de decidir.

Contudo, a História raramente concede recompensas imediatas. A remoção de um líder autoritário não apaga instantaneamente as redes de interesses, os equilíbrios institucionais e as dependências que sustentavam o sistema. Os rostos mudam com uma rapidez surpreendente. As estruturas mudam muito mais devagar. A Venezuela encontra-se hoje exactamente nesse ponto delicado. O antigo árbitro desapareceu, mas o campo de jogo continua ocupado pelos mesmos actores fundamentais. Os militares permanecem centrais. As elites políticas conservam influência. Os serviços de informações mantêm relevância. Os interesses económicos continuam presentes.

Talvez a maior lição seja precisamente a de que derrubar um governante é um acontecimento; reconstruir uma democracia é um processo. Confundir uma coisa com a outra constitui uma das ilusões mais persistentes da política contemporânea. E a História, sempre impaciente com os ingénuos, continua a tratar essa confusão com a crueldade habitual.

Bibliografia

  • Clausewitz, Carl von. Da Guerra. Lisboa: Edições 70.
  • Huntington, Samuel P. A Terceira Vaga: A Democratização no Final do Século XX. Gradiva.
  • Kissinger, Henry. Diplomacy. Simon & Schuster, 1994.
  • Maquiavel, Nicolau. O Príncipe. Diversas edições portuguesas.
  • Mosca, Gaetano. A Classe Política. Transaction Publishers.
  • Tocqueville, Alexis de. A Democracia na América. Relógio d’Água.
  • Weber, Max. Economia e Sociedade. Fundação Calouste Gulbenkian.
  • Corrales, Javier; Penfold, Michael. Dragon in the Tropics: Hugo Chávez and the Political Economy of Revolution in Venezuela. Brookings Institution Press, 2015.
  • Jones, Bart. Hugo! The Hugo Chávez Story from Mud Hut to Perpetual Revolution. Steerforth Press, 2007.
  • Trinkunas, Harold. Crafting Civilian Control of the Military in Venezuela: A Comparative Perspective. University of North Carolina Press, 2005.

Jorge Rodrigues Simão, 2026