Há impérios que caem de joelhos, outros que colapsam de forma espectacular e ainda outros que passam décadas a convencer-se de que continuam invencíveis enquanto acumulam sinais evidentes de desgaste. A terceira hipótese é geralmente a mais perigosa. Não apenas para o império em questão, mas para todos os que vivem na sua órbita. Enquanto o Médio Oriente continua a arder com a regularidade de um incêndio que ninguém tenta apagar, torna-se inevitável retirar algumas conclusões provisórias sobre o estado da principal potência mundial. Provisórias porque a História raramente fecha dossiers enquanto os protagonistas ainda respiram, mas suficientemente sólidas para permitir uma reflexão séria.
A primeira dessas conclusões é tão desconfortável quanto evidente pois a crescente militarização da política externa americana não constitui um sinal de força. Constitui um sintoma de fragilidade. Esta afirmação parece herética numa época em que muitos confundem a quantidade de bombas lançadas com a quantidade de influência exercida. Contudo, a realidade insiste em ser menos impressionável do que os discursos políticos. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos utilizaram o seu poder militar como complemento de uma estratégia mais ampla que combinava influência económica, atracção cultural, capacidade tecnológica e liderança política. O arsenal era uma ferramenta. Não era a política. Hoje, a situação parece frequentemente invertida. Quando a diplomacia falha, surgem bombardeamentos. Quando os bombardeamentos falham, surgem mais bombardeamentos. Quando estes também não produzem os resultados prometidos, cria-se uma comissão de estudo para explicar porque razão a realidade se recusou a colaborar.
Andrew Bacevich, num dos mais incisivos estudos sobre o tema, “The New American Militarism” (2005), observou que os Estados Unidos desenvolveram uma confiança quase religiosa na utilização do poder militar como instrumento preferencial para resolver problemas internacionais. O fenómeno não ficou circunscrito a uma administração, a um partido ou a uma corrente ideológica. Tornou-se estrutural, quase cultural, como aquelas tradições familiares cuja utilidade ninguém consegue justificar mas que ninguém ousa abandonar.
Os factos são difíceis de ignorar. Desde o final da Guerra Fria, Washington participou directa ou indirectamente em intervenções militares que atravessaram continentes, oceanos e sistemas políticos. Algumas foram apresentadas como missões humanitárias, outras como operações antiterroristas, outras ainda como cruzadas pela democracia. A designação variava. A lógica mantinha-se. Todas prometiam estabilidade. Poucas a entregaram.
O Afeganistão constitui talvez o exemplo mais eloquente. Apresentada inicialmente como resposta necessária aos atentados de 11 de Setembro, a operação começou como uma campanha que parecia reunir consenso quase universal. Terminou vinte anos depois, com milhares de mortos, centenas de milhares de milhões de dólares gastos e uma retirada que dificilmente figurará entre os momentos mais gloriosos da estratégia ocidental. A ironia é amarga. A guerra mais longa da história americana terminou praticamente com o regresso ao poder daqueles que se pretendia derrotar.
Também o Iraque continua a assombrar a memória estratégica do Ocidente. Em 2003, Donald Rumsfeld falava numa campanha rápida. Paul Wolfowitz assegurava que as receitas petrolíferas financiariam a reconstrução. As previsões foram tão rigorosas quanto um horóscopo escrito por um contabilista bêbedo. Em vez de estabilidade, surgiram anos de insurgência, violência sectária, fragmentação institucional e consequências geopolíticas que ainda hoje moldam a região.
Christopher Coker, em “The Future of War” (2015), recorda que os conflitos contemporâneos tendem a produzir efeitos imprevisíveis porque os sistemas políticos e sociais são demasiado complexos para obedecer aos modelos simplificados dos planeadores. A observação parece óbvia. Contudo, continua a surpreender governantes que acreditam ser possível reorganizar sociedades inteiras através de ataques cirúrgicos e conferências internacionais cuidadosamente encenadas para as câmaras de televisão.
O resultado desta lógica é um círculo vicioso quase perfeito. A instabilidade gera intervenção. A intervenção produz resistência. A resistência justifica nova intervenção. A nova intervenção produz mais instabilidade. O processo repete-se indefinidamente, como uma máquina burocrática que se alimenta dos próprios fracassos.
Entretanto, o orçamento militar continua a crescer. Pouco importa quem ocupa a Casa Branca. Conservadores prometem força. Liberais prometem responsabilidade. Populistas prometem acabar com guerras intermináveis. No fim, o Pentágono recebe sempre mais dinheiro. Talvez porque seja politicamente mais simples aprovar novos sistemas de armamento do que reconhecer limites estratégicos.
A segunda conclusão decorre naturalmente da primeira. A dissuasão americana encontra-se num processo gradual de erosão. Durante décadas, a simples possibilidade de uma resposta americana bastava para influenciar comportamentos, alterar cálculos estratégicos e desencorajar adversários. A força era tão temida que raramente precisava de ser utilizada. Thomas Schelling explicava em “Arms and Influence” (1966) que a essência da dissuasão reside precisamente nesta capacidade de moldar decisões sem recorrer ao uso efectivo da violência. O poder mais eficaz é aquele que não necessita de ser constantemente exibido.
Quando um Estado sente necessidade de demonstrar repetidamente a sua força, surge inevitavelmente uma pergunta incómoda: estará realmente tão seguro de si como afirma? A situação actual sugere que não. A proliferação de intervenções parece revelar uma necessidade crescente de reafirmação. Como um aristocrata arruinado que continua a organizar bailes sumptuosos para convencer a vizinhança de que a fortuna permanece intacta.
Paul Kennedy identificou este fenómeno em “The Rise and Fall of the Great Powers” (1987). As grandes potências tendem a acumular compromissos externos precisamente quando os recursos necessários para os sustentar começam a mostrar sinais de desgaste. O poder continua a existir, mas torna-se mais caro, mais difícil de projectar e menos eficaz na produção de resultados políticos duradouros.
O mesmo fenómeno observa-se na guerra financeira. Durante décadas, a posição dominante do dólar permitiu aos Estados Unidos exercer uma influência extraordinária sobre o sistema económico internacional. As sanções tornaram-se uma arma de alcance planetário. Governos, empresas e indivíduos podiam ser excluídos de circuitos financeiros fundamentais sem que fosse necessário disparar um único tiro. Parecia uma solução perfeita. Mas a História raramente acredita em soluções perfeitas.
Henry Kissinger observava em “Diplomacy” (1994) que qualquer instrumento de poder perde eficácia quando é utilizado de forma excessiva. A excepção impressiona. A rotina banaliza. Quanto mais extensivamente são utilizadas as sanções, maior se torna o incentivo para desenvolver alternativas. O que começou como expressão de força transforma-se lentamente num estímulo à diversificação monetária e financeira.
A Rússia adaptou parte significativa do seu comércio a novas formas de pagamento. A China investe na internacionalização da sua moeda. Diversos actores regionais procuram reduzir dependências. Nada disto anuncia o desaparecimento iminente do dólar. Mas sugere algo igualmente relevante de que até os instrumentos mais poderosos se desgastam quando utilizados como substitutos de uma estratégia coerente.
A terceira conclusão diz respeito à Aliança Atlântica. Durante décadas, a NATO foi apresentada como símbolo máximo de solidariedade estratégica. Consultas permanentes, coordenação política e unidade de acção eram descritas como pilares inquestionáveis da segurança ocidental. A realidade contemporânea parece menos romântica. As grandes decisões continuam a ser tomadas segundo prioridades nacionais específicas. Os aliados são frequentemente informados. Nem sempre são consultados. E, por vezes, descobrem decisões relevantes quando estas já pertencem ao domínio dos factos consumados.
A diplomacia converte-se então numa elegante formalidade administrativa. Recebe-se a notificação. Expressa-se preocupação. Publica-se um comunicado. Convoca-se uma reunião extraordinária. Reafirma-se a unidade. E todos regressam a casa convencidos de que participaram activamente no processo. Raymond Aron advertia em “Paix et Guerre entre les Nations” (1962) que as alianças não eliminam divergências fundamentais de interesses. Apenas as administram durante períodos limitados. A sua observação mantém uma actualidade impressionante. O problema não está na existência dessas divergências. Está na crescente dificuldade em conciliá-las numa ordem internacional cuja estabilidade se encontra progressivamente enfraquecida.
O paradoxo fundamental do nosso tempo talvez seja este. A potência militar mais poderosa da História parece simultaneamente omnipresente e menos capaz de moldar os acontecimentos segundo a sua vontade. Intervém mais, controla menos. Gasta mais, influencia menos. Actua mais frequentemente, convence com maior dificuldade. Há aqui uma lição que ultrapassa largamente o caso americano. Os impérios raramente entram em declínio por falta de recursos materiais. Entram em declínio quando começam a utilizar respostas erradas para problemas que compreendem cada vez menos. A força continua indispensável. Mas a força nunca foi uma estratégia.
Quando os bombardeamentos substituem a visão política, quando a demonstração de músculo substitui a autoridade e quando a reacção ocupa o lugar do planeamento, aquilo que parece poder transforma-se frequentemente no seu contrário. A História está repleta de impérios que confundiram actividade com eficácia. Nenhum deles acreditava estar a perder influência. Todos julgavam apenas estar a demonstrar força. E todos descobriram demasiado tarde que uma coisa nem sempre implica a outra.
Mas a erosão do poder raramente se manifesta apenas nos campos de batalha. Os impérios começam geralmente por perder algo mais subtil e mais importante: a capacidade de convencer. Durante grande parte do século XX, os Estados Unidos não dominaram apenas porque possuíam porta-aviões, mísseis ou divisões blindadas. Dominaram porque o seu modelo económico, tecnológico e cultural exercia uma atracção extraordinária. O conceito de soft power, desenvolvido por Joseph Nye em “Bound to Lead” (1990) e aprofundado em “Soft Power” (2004), descreve precisamente essa capacidade de obter resultados através da influência e da persuasão, sem recorrer à coerção.
Esse capital político e cultural foi durante décadas um activo inestimável. Universidades, empresas tecnológicas, instituições financeiras, centros de investigação e uma economia dinâmica contribuíam para reforçar a imagem de uma sociedade simultaneamente poderosa e inovadora. Contudo, até os activos mais robustos podem ser desgastados por uma utilização imprudente. A imagem de um país que durante décadas se apresentou como guardião de uma ordem internacional baseada em regras sofre inevitavelmente quando essas regras parecem ser aplicadas de forma selectiva ou circunstancial.
A incoerência é um imposto que todas as potências acabam por pagar. Quando um Estado proclama princípios universais mas adopta excepções frequentes para si próprio ou para os seus aliados, a credibilidade começa a deteriorar-se. Lentamente no início. Depois de forma acelerada. O fenómeno não é novo. Edward Gibbon observou em “The History of the Decline and Fall of the Roman Empire” que a autoridade dos grandes impérios depende tanto da percepção da sua legitimidade quanto da sua força material. Quando essa legitimidade deixa de ser incontestada, a força sozinha raramente basta.
Actualmente, a ascensão da China, a resistência da Rússia às previsões de colapso que muitos formularam e o crescente protagonismo de potências regionais demonstram uma realidade simples de que o mundo tornou-se mais distribuído. Não necessariamente mais equilibrado. Certamente mais complexo.
É precisamente essa complexidade que parece escapar a muitos estrategas contemporâneos. Durante os anos de 1990, difundiu-se em certos círculos intelectuais a convicção de que a História caminhava numa única direcção. Francis Fukuyama, em “The End of History and the Last Man” (1992), interpretou o colapso soviético como a vitória definitiva da democracia liberal e da economia de mercado. Independentemente dos méritos do argumento original, a sua vulgarização política produziu efeitos curiosos. Muitos passaram a acreditar que a expansão da ordem liderada por Washington era inevitável.
A História, essa senhora com sentido de humor mordaz, decidiu desmenti-los. O século XXI revelou-se menos dócil do que o esperado. Em vez de convergência, surgiram divergências. Em vez de uma ordem internacional estável, multiplicaram-se centros de poder. Em vez de consenso, regressou a competição estratégica. E, para agravar a situação, essa competição desenrola-se numa época de dívida crescente, polarização política, revolução tecnológica e desconfiança institucional.
Os Estados Unidos vivem hoje contradições que seriam difíceis de imaginar na fase triunfal imediatamente posterior ao colapso da União Soviética. A polarização interna atingiu níveis preocupantes. O debate público tornou-se cada vez mais tribal. A confiança nas instituições diminuiu. O Congresso bloqueia frequentemente decisões fundamentais. As eleições transformaram-se em batalhas existenciais travadas num clima de suspeição permanente.
Fareed Zakaria, em “The Post-American World” (2008), não argumentava que os Estados Unidos estavam condenados ao declínio irreversível. Defendia antes que outras potências estavam a adquirir maior capacidade de influência. A distinção é importante. O problema não é necessariamente o enfraquecimento absoluto da América. É a redução da distância que a separava dos restantes concorrentes.
Ora, quando a vantagem relativa diminui, cresce a tentação de compensar essa perda através da demonstração de força. É exactamente aqui que reside um dos maiores perigos estratégicos da actualidade. Uma potência verdadeiramente segura de si não precisa de recordar diariamente ao mundo a sua superioridade. O agricultor que possui mil hectares não anda pela aldeia a mostrar continuamente a escritura das suas terras. Apenas aquele que receia perder a propriedade sente necessidade de exibir documentos a cada esquina.
Na política internacional acontece frequentemente o mesmo. Quanto mais se insiste na invencibilidade, mais evidente se torna a ansiedade. Quanto mais se proclama liderança incontestável, mais perceptível se torna a contestação. Quanto mais se multiplica a intervenção, mais evidente parece a dificuldade em produzir resultados duradouros. Os aliados compreendem-no. Os adversários também.
É por isso que a questão central não consiste em saber se os Estados Unidos continuam poderosos. Continuam. Nenhum país se aproxima sequer da sua projecção militar global. Nenhum dispõe simultaneamente da mesma capacidade financeira, tecnológica, industrial e militar. A questão relevante é outra: conseguem transformar esse poder em ordem política estável? A resposta é muito menos clara.
Henry Kissinger advertia frequentemente que a estabilidade internacional depende menos da supremacia de uma potência do que da aceitação das regras por parte dos principais actores. Uma ordem sustentável exige previsibilidade. Requer compreensão dos limites. Necessita de equilíbrio entre força e legitimidade. Sem esse equilíbrio, a hegemonia transforma-se progressivamente num exercício de gestão de crises.
Uma crise sucede a outra. Uma operação sucede à anterior. Uma escalada substitui a precedente. Os comunicados mudam. Os problemas permanecem. Entretanto, a Europa observa o fenómeno numa posição desconfortável. Dependente da estabilidade das rotas comerciais, vulnerável às oscilações energéticas e politicamente dividida, vê-se frequentemente reduzida ao papel de espectadora preocupada. Reage. Condena. Aplaude. Critica. Mas raramente determina o rumo dos acontecimentos. A situação seria quase cómica se as consequências não fossem tão sérias. Discute-se autonomia estratégica em conferências luxuosas, enquanto as grandes decisões continuam a ser tomadas noutros centros de poder.
Divulgam-se ambiciosos documentos de visão geopolítica, enquanto crises sucessivas expõem limitações militares e dependências estruturais. Proclamam-se valores universais, enquanto a realidade internacional se torna cada vez mais transaccional. No final, permanece uma verdade elementar que a História repete com exasperante regularidade. Os impérios não entram em crise porque deixam de vencer. Entram em crise porque deixam de compreender a diferença entre vencer uma batalha e alcançar um objectivo político.
A força pode destruir um exército.Não pode, por si só, reconstruir uma ordem. Pode derrubar um regime. Não pode garantir a legitimidade do que o substitui. Pode impor silêncio. Não pode criar consenso. Clausewitz, tantas vezes citado e tão raramente compreendido, lembrava que a guerra é a continuação da política por outros meios. O drama contemporâneo parece ser o inverso de que a política transformou-se, demasiadas vezes, na continuação da guerra por outros meios.
Quando uma potência chega a esse ponto, corre o risco de confundir movimento com progresso, activismo com estratégia e poder com autoridade. A História sugere que essa confusão nunca termina bem. E a História, ao contrário dos governantes, nunca precisa de ser reeleita.
Bibliografia
ARON, Raymond. Paix et Guerre entre les Nations. Paris: Calmann-Lévy, 1962.
BACEVICH, Andrew J. The New American Militarism: How Americans Are Seduced by War. Oxford University Press, 2005.
COKER, Christopher. The Future of War. Wiley, 2015.
KENNEDY, Paul. The Rise and Fall of the Great Powers. Random House, 1987.
KISSINGER, Henry. Diplomacy. Simon & Schuster, 1994.
MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. W. W. Norton & Company, 2001.
SCHELLING, Thomas C. Arms and Influence. Yale University Press, 1966.
WALT, Stephen M. The Hell of Good Intentions: America’s Foreign Policy Elite and the Decline of U.S. Primacy. Farrar, Straus and Giroux, 2018.
