Há dias em que o mundo parece acordar com o entusiasmo de um piromaníaco munido de fósforos novos. Quinta‑feira foi um desses dias. O Médio Oriente, essa eterna oficina de desassossego, voltou a estremecer como se tivesse sido construído sobre uma mesa de bilhar mal equilibrada. O Irão e os Estados Unidos decidiram trocar cortesias explosivas durante a madrugada, enquanto a Arábia Saudita, sempre tão pudica na sua diplomacia, resolveu admitir que também anda a brincar ao fogo. E, como se não bastasse, o Egipto acordou com um drone não identificado a fazer estragos no porto de Damietta, lembrando ao mundo que o Suez, essa artéria vital do comércio global, é tão vulnerável como um castelo de cartas à beira-mar.
A história, porém, não começou ontem. A história nunca começa ontem. Como escreveu Hannah Arendt, “a violência pode destruir o poder; é totalmente incapaz de o criar” (On Violence, 1970). E, no entanto, os Estados continuam a insistir na mesma receita, como cozinheiros teimosos que acreditam que o prato sairá diferente se apenas aumentarem o lume.
O porto de Damietta, normalmente dedicado à nobre tarefa de receber navios e exportar mercadorias, viu-se transformado num palco improvisado de guerra. Dois navios arderam, um deles propriedade de interesses americanos, e o governo egípcio, com a serenidade burocrática que caracteriza os regimes habituados a lidar com o inesperado, anunciou que o incidente “parece ter sido causado por um drone”. Parece. Sempre parece. No Médio Oriente, tudo parece até deixar de parecer, e quando deixa de parecer ninguém quer assumir que pareceu.
O ataque, ainda sem autor declarado, foi suficiente para relembrar ao mundo que o Suez por onde passa cerca de 12% do comércio global é um corredor tão estreito quanto a paciência dos mercados financeiros. Basta um susto, uma explosão, um drone mal-humorado, e os seguros marítimos sobem como se fossem acções de uma empresa de tecnologia em plena bolha especulativa.
Depois de meses a participar discretamente, a Arábia Saudita decidiu assumir que também anda a disparar. Fê-lo em parceria com os Estados Unidos, atacando milícias apoiadas pelo Irão no Iraque. A diplomacia saudita, que tantas vezes se veste de neutralidade, tirou finalmente o véu, revelando que a guerra não é apenas um incómodo regional mas um negócio familiar.
O problema é que o negócio não está a correr bem. A economia saudita contraiu quase 5% no segundo trimestre, o pior desempenho desde a pandemia. O petróleo, essa vaca sagrada do reino, está a ser exportado por rotas cada vez mais longas, contornando bloqueios, ameaças e estreitos que não são estreitos, mas gargalos.
Como diria Adam Smith, “a riqueza das nações depende do comércio” (The Wealth of Nations, 1776). E quando o comércio depende de rotas que se transformam em campos de batalha, a riqueza evapora-se como água no deserto.
O ataque em Damietta não interrompeu o tráfego para o Suez, mas deixou claro que o canal é um alvo fácil. A Arábia Saudita, receosa dos Houthis e das suas ameaças de bloquear o Mar Vermelho, desviou metade das suas exportações de crude para rotas mais longas, passando pelo Mediterrâneo, Gibraltar e o Cabo da Boa Esperança. Uma viagem que deveria durar semanas passa a durar meses, como se o petróleo tivesse decidido fazer turismo.
O Bab el‑Mandeb, esse estreito que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico, viu o tráfego cair 20%. Os navios, assustados, preferem navegar mais devagar, longe e caro. Os seguros marítimos, sempre atentos ao cheiro do lucro, expandiram as zonas de risco, cobrando prémios que fariam corar um agiota.
A globalização, tão celebrada nos anos 1990, descobre agora que depende de drones, milícias e estreitos que podem fechar como portas de taberna. A economia mundial, essa senhora nervosa, treme ao menor ruído.
Durante a madrugada, os Estados Unidos lançaram novos ataques contra posições iranianas. O Irão respondeu com a mesma elegância habitual e atacou a base Ali Al Salem, no Kuwait, destruindo hangares e depósitos de combustível. No mesmo dia, um trabalhador foi morto num ataque iraniano a um edifício de uma empresa chinesa no norte do Kuwait.
O Irão também afirmou que dois petroleiros tentaram usar uma “rota insegura” no Estreito de Hormuz, tendo um deles sofrido um incêndio. Não explicou a causa. No Médio Oriente, explicar causas é uma actividade perigosa.
A Jordânia, sempre vigilante, anunciou que derrubou cinco mísseis iranianos. Sem vítimas. Apenas mais um episódio na novela interminável da região. Como escreveu George Orwell, “cada guerra é uma guerra civil, porque todos os homens são irmãos” (The Collected Essays, 1946). No Médio Oriente, porém, a fraternidade é um conceito teórico, raramente aplicado.
A guerra não afecta apenas os países envolvidos. Os Estados Unidos viram o seu crescimento cair para 1,5%, com cadeias de abastecimento perturbadas e preços a subir. A inflação, essa velha inimiga, continua a corroer salários e paciência.
A Arábia Saudita sofre. O Egipto sofre. O Kuwait sofre. O comércio global sofre. E, como sempre, quem mais sofre é quem menos tem culpa que são os trabalhadores, os consumidores, os pequenos negócios e os países dependentes de importações.
O mundo descobre, mais uma vez, que a guerra é uma máquina que consome recursos, vidas e futuro. Como escreveu John Maynard Keynes, “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar às antigas” (The General Theory, 1936). E as antigas ideias com guerra, poder, retaliação continuam a comandar o destino das nações.
O Paquistão, sempre disposto a desempenhar o papel de mediador, anunciou que as negociações continuam. É uma frase que poderia ser repetida em qualquer década desde 1948. As negociações continuam. A esperança continua. A guerra continua.
O Médio Oriente permanece suspenso entre o passado e o futuro, entre a diplomacia e a pólvora, entre o comércio e o caos. O ataque em Damietta foi apenas mais um lembrete de que o mundo vive numa corda bamba, e que qualquer drone, míssil ou milícia pode abalar o equilíbrio global.
A guerra, como sempre, avança. E o mundo, como sempre, observa, comenta, lamenta e segue em frente até ao próximo ataque, ao próximo estreito bloqueado e ao próximo navio incendiado.
Bibliografia
Arendt, H. (1970). On Violence. Harcourt.
Keynes, J. M. (1936). The General Theory of Employment, Interest and Money. Macmillan.
Orwell, G. (1946). The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell. Secker & Warburg.
Smith, A. (1776). The Wealth of Nations. W. Strahan and T. Cadell.

