Portugal tem uma relação peculiar com a ordem internacional pois observa o colapso global com a serenidade de quem vê a maré subir enquanto insiste que o barco “ainda aguenta mais um bocadinho”. O país, sempre fiel à sua tradição de resistência passiva, assiste ao desmoronamento da arquitectura mundial com uma mistura de fatalismo, ironia e uma surpreendente capacidade de auto-ilusão. A ordem internacional está a ruir, mas Portugal comporta-se como aquele convidado que continua a comer canapés numa festa que foi evacuada.

A primeira razão para este desmoronamento, vista a partir de Lisboa, é a erosão das instituições multilaterais que Portugal sempre tratou como tábua de salvação. A União Europeia, a ONU, a NATO e todas atravessam crises profundas, mas Portugal continua a tratá-las como entidades quase místicas, capazes de resolver qualquer problema desde que se redija um comunicado suficientemente pomposo. A fé portuguesa no multilateralismo é tão inabalável quanto ingénua pois acredita-se que, se todos se sentarem à mesa, a realidade acabará por ceder. Infelizmente, o mundo não funciona como uma reunião de ministros europeus onde tudo se resolve com uma madrugada de negociações e um pequeno-almoço tardio.

A segunda razão é a ascensão de potências que não têm qualquer interesse em preservar a ordem liberal que Portugal abraçou com entusiasmo após 1986. A China, a Índia, a Rússia e vários actores regionais emergem com agendas próprias, e Portugal, que sempre viveu confortavelmente sob a asa de alianças maiores, descobre agora que o mundo não está particularmente interessado na sua moderação diplomática. O país tenta manter boas relações com todos, como um aluno aplicado que quer agradar ao professor, ao colega rebelde e ao funcionário da secretaria ao mesmo tempo. O problema é que, num mundo em competição aberta, a ambiguidade deixa de ser virtude e passa a ser irrelevância.

A terceira razão é a incapacidade global de lidar com problemas transnacionais e Portugal, claro, sofre as consequências sem ter qualquer capacidade para influenciar as causas. Mudanças climáticas, fluxos migratórios, crises energéticas, pandemias, tudo chega a Portugal como uma onda que o país tenta gerir com discursos, planos estratégicos e grupos de trabalho. A ordem internacional desmorona-se porque ninguém quer ceder soberania, mas Portugal, que cedeu quase toda, continua a acreditar que a integração europeia resolverá tudo. É uma fé quase religiosa, mas com menos milagres.

A quarta razão é o regresso da força como instrumento de política externa. Portugal, que desde o fim do império decidiu que a força era coisa do passado, observa perplexo o regresso da geopolítica dura. O país habituou-se a viver num mundo onde bastava ser simpático, previsível e cumpridor para garantir segurança. Agora, descobre que o mundo voltou a ser um lugar onde tanques, drones e projecções de poder contam mais do que declarações de boas intenções. E Portugal, que não tem império, marinha de guerra relevante ou peso estratégico, limita-se a repetir que “o diálogo é fundamental”, como se isso bastasse para travar quem não está interessado em dialogar.

A quinta razão é a transformação da informação em arma. Portugal, com a sua tradição de imprensa livre e debate público relativamente civilizado, vê-se subitamente mergulhado num ambiente global onde a verdade é opcional e a manipulação é regra. A ordem internacional desmorona-se porque a confiança desapareceu, e Portugal, que sempre acreditou na boa-fé dos parceiros, descobre que a ingenuidade é um luxo perigoso. A desinformação circula com a mesma velocidade com que se partilha uma fotografia de pastéis de nata, e o país tenta responder com campanhas de literacia mediática que ninguém lê.

A sexta razão é a crise das democracias liberais e aqui Portugal não é excepção. A polarização cresce, a confiança nas instituições diminui, e a política transforma-se num teatro onde cada partido representa a sua versão da realidade. A ordem internacional desmorona-se porque os seus principais defensores estão ocupados a gerir crises internas, e Portugal, sempre atento às tendências europeias, segue o mesmo caminho com um atraso de cinco anos. O país continua a proclamar-se exemplo de estabilidade, mas a estabilidade portuguesa é muitas vezes apenas a incapacidade de mudar.

A sétima razão é o ressurgimento dos nacionalismos. Portugal, que durante décadas se orgulhou de ser um país aberto, tolerante e europeísta, vê agora crescer discursos que tratam a cooperação internacional como ameaça. A ordem internacional desfaz-se porque cada Estado se fecha sobre si próprio, e Portugal, apesar de pequeno, não é imune a esta tentação. O problema é que, ao contrário de outras nações, Portugal não tem massa crítica para sobreviver isolado. Mas isso não impede alguns de sonharem com um regresso imaginário a uma soberania que não existe.

A oitava razão é a economia global, simultaneamente interdependente e desigual. Portugal, que apostou tudo na integração económica europeia, descobre que a globalização não distribui benefícios de forma equitativa. A ordem económica internacional está a fragmentar-se, e Portugal, com a sua dependência estrutural de fundos europeus, turismo e investimento externo, sente cada abalo como um terramoto. O país continua a falar de “resiliência”, mas a resiliência portuguesa é muitas vezes apenas a capacidade de suportar dificuldades sem protestar demasiado.

A nona razão é a ausência de liderança global. Portugal, que sempre se posicionou como aliado leal de quem lidera, encontra-se agora num mundo sem líderes claros. Os Estados Unidos estão divididos, a Europa está fragmentada, e as potências emergentes não querem assumir responsabilidades. Portugal, habituado a seguir, não sabe o que fazer quando não há ninguém para seguir. O país tenta manter a pose, mas a verdade é que navega à vista num oceano cada vez mais turbulento.

A décima razão é o cinismo generalizado. A ordem internacional desmorona-se porque já ninguém acredita verdadeiramente nos princípios que a sustentavam. Portugal, que sempre acreditou na força do direito internacional, descobre que o direito só vale quando convém aos poderosos. E, no entanto, continua a repetir que “as regras são fundamentais”, como se a repetição pudesse substituir a realidade.

No meio deste colapso global, Portugal mantém a sua postura característica de discreto, educado, moderado, quase invisível. O país finge que tudo está bem porque admitir o contrário implicaria reconhecer que depende de uma ordem internacional que não existe. Portugal continua a participar em cimeiras, a emitir comunicados, a defender o multilateralismo como se o mundo ainda funcionasse segundo o manual de 1995.

A verdade é simples; a ordem internacional está a desmoronar-se, e Portugal, apesar de pequeno, será profundamente afectado. Mas, fiel à sua tradição, o país continuará a fingir que não vê o colapso, esperando que alguém, algures, resolva o problema. Talvez seja optimismo. Talvez seja resignação. Talvez seja apenas a velha arte portuguesa de sobreviver às tempestades fingindo que são apenas chuviscos.

Bibliografia

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