HOJEMACAU – O UMBRAL DA DESORDEM (III) 1 PARTE – JORGE RODRIGUES SIMÃO – 09.07.2026
Portugal tem uma fé quase religiosa na ideia de que políticas públicas bem escritas podem compensar a sua pequenez geopolítica. É uma crença enternecedora de que o mundo desaba, mas nós respondemos com planos estratégicos, comissões interministeriais e relatórios que prometem resolver o caos global com a mesma solenidade com que se inaugura uma rotunda. A política pública portuguesa tornou-se um acto de fé como se o documento for suficientemente extenso, talvez o mundo se recomponha por respeito ao esforço.
Na política externa, o país continua a defender o multilateralismo como se ainda estivéssemos em 1998. Acredita que a União Europeia é um escudo inquebrável e que a ONU tem poder para impor ordem. A realidade é menos simpática pois a UE está fragmentada, a NATO vive tensões internas e a ONU tornou-se um palco de discursos coreografados. Mas Portugal insiste em “reforçar o diálogo”, como se repetir a palavra fosse suficiente para conter potências revisionistas. É a versão diplomática do “vai correr tudo bem”.
Na defesa, o contraste é quase cómico. Produzimos documentos estratégicos impecáveis, mas com orçamentos que mal mantêm aviões a voar e navios a navegar. O mundo regressa à lógica da força, e Portugal responde com seminários sobre interoperabilidade. É um monumento à boa vontade que reconhece o perigo, mas recusa-se a agir como se ele fosse real.
Na economia, o país continua preso à dependência da União Europeia e ao turismo, como se o mundo fosse eterno e estável. Fala-se de “diversificação”, mas a prática revela uma economia frágil, dependente de fundos e serviços de baixo valor. É uma estratégia que funciona enquanto o mundo não desaba o que não é o caso.
Na energia, Portugal gosta de se ver como pioneiro das renováveis, mas continua vulnerável a importações e choques externos. A transição energética é tratada como inevitável, nunca como urgente. Num planeta que disputa recursos críticos, o país prefere acreditar que a sua periferia o protegerá. É uma ilusão confortável.
Na migração, Portugal precisa desesperadamente de imigrantes para sustentar o sistema, mas vive num mundo que fecha fronteiras. As políticas públicas promovem abertura, mas sem meios para gerir fluxos complexos. É uma política entre a necessidade e a ingenuidade.
Na cibersegurança, o país encara o digital como um tema técnico, não estratégico. Fala-se de “capacitação”, mas ignora-se que um ataque pode paralisar sectores inteiros. A digitalização avança, a protecção rasteja. É o “logo se vê” aplicado à tecnologia.
Na ciência e inovação, Portugal escreve estratégias ambiciosas, mas perde talento para quem oferece melhores condições. Celebra a “economia do conhecimento”, mas exporta cérebros e importa precariedade. Difícil competir quando se investe mais em discursos do que em laboratórios.
Na política social, o país tenta remendar desigualdades internas sem enfrentar causas externas. A vulnerabilidade económica e energética torna-o sensível a qualquer choque global. As políticas reagem, mas raramente antecipam. É uma política que apaga incêndios, mas não constrói muros.
Na política europeia, Portugal continua a acreditar que a integração resolve tudo, ignorando que a própria UE atravessa uma crise existencial. Alinha-se com Bruxelas por reflexo, não por estratégia. Assume que a Europa continuará previsível, precisamente o que deixou de ser.
E, finalmente, no planeamento estratégico, Portugal brilha na produção de documentos densos e bem redigidos, mas que raramente se traduzem em acção. Planeia como se o mundo fosse estático. Confunde diagnóstico com movimento.
No fundo, as políticas públicas portuguesas revelam um país que tenta enfrentar o colapso global com ferramentas desenhadas para tempos de paz. Portugal continua a navegar entre tempestades com a serenidade burocrática de quem acredita que tudo se resolve com um plano. Mas o mundo muda depressa demais e o país arrisca-se a descobrir que a sua estratégia de sobrevivência, discreta e europeísta não chega.
Portugal precisa de políticas que reconheçam o óbvio; de que o mundo está a desmoronar-se, e fingir que não é uma estratégia confortável, mas suicida. O país terá de escolher entre continuar a escrever planos que ninguém lê ou finalmente agir como se o futuro importasse.
Bibliografia
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