Há quem diga que a História se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Karl Marx, que não era propriamente um humorista, mas que sabia reconhecer o ridículo quando este se apresentava com pompa e circunstância, deixou-nos essa máxima para que pudéssemos, séculos depois, observar com deleite as piruetas diplomáticas da União Europeia perante a China. E, se o velho Marx pudesse hoje contemplar o espectáculo, talvez acrescentasse uma terceira fase de que a pantomima tecnocrática, onde todos fingem que acreditam no que dizem, desde que ninguém tenha de levantar a voz mais do que o estritamente necessário.

A cena, digna de um palco oitocentista, decorre com eurodeputados de semblante grave, citados pela agência EFE, proclamando que a União Europeia “quer esgotar todas as possibilidades de negociação antes de adoptar medidas de retaliação”. O espanhol Nicolás Pascual de la Parte, com a solenidade de quem anuncia a chegada de uma nova era, declara que “Não queremos uma guerra comercial, queremos evitá-la.” A frase, tão límpida quanto um cristal de Boémia, poderia ser inscrita num manual de boas maneiras diplomáticas, desses que se folheiam nos salões onde se serve chá morno e se discute o destino do mundo com a mesma leveza com que se comenta a meteorologia.

O também espanhol Javi López, mais pragmático, adverte que “qualquer medida unilateral no domínio comercial desencadeará uma medida equivalente da outra parte”. É uma verdade tão antiga quanto o comércio de especiarias de quem bate à porta do vizinho com um pau, arrisca-se a que o vizinho responda com um porrete. López, com a candura de quem viu demasiadas reuniões em Bruxelas, acrescenta que a China “tem uma grande capacidade de resistência e sofre menos pressão da opinião pública na tomada de decisões”. Eis uma observação que, embora apresentada com a suavidade de um bordado, contém a dureza de um diagnóstico clinic de que a Europa debate-se com a opinião pública; a China debate-se com a opinião do Partido.

Pequim, segundo Pascual de la Parte, rejeita todas as críticas. “Eles consideram que o desequilíbrio não resulta de práticas proteccionistas chinesas, mas da dinâmica dos mercados.” É encantador observar como a China, que regula a economia com a precisão de um relojoeiro imperial, invoca a “dinâmica dos mercados” como se fosse uma entidade metafísica, uma espécie de divindade liberal que preside aos destinos do comércio global. Adam Smith, se ressuscitasse, teria um ataque de riso.

O eurodeputado López relata ainda que as autoridades chinesas desafiaram Bruxelas a recorrer aos mecanismos da Organização Mundial do Comércio (OMC). É uma ousadia digna de um romance de aventuras pois o aluno que domina a sala desafia o professor a consultar o regulamento. A Europa, que outrora ditava normas ao mundo, vê-se agora convidada a preencher formulários.

Mas o momento mais delicioso surge quando Pascual de la Parte afirma que Wang Yi acusou Bruxelas de “politizar” as divergências comerciais. A ironia é tão espessa que se poderia cortar com uma faca de sobremesa. A China, que politiza tudo desde a cor das embalagens até ao destino das nuvens acusa a Europa de politização. É como se um pirómano acusasse os bombeiros de gostarem demasiado de água.

Pequim, segundo o eurodeputado, está particularmente incomodada com a classificação de “rival sistémico”. Não se vê como rival, mas como parceiro. Um parceiro que, no fundo, pretende “afastar os Estados Unidos da Europa e aproximar a Europa da China”. A estratégia é tão antiga quanto Sun Tzu: dividir para conquistar. E a Europa, sempre pronta a acreditar na boa vontade dos outros, parece disposta a discutir o assunto com a mesma candura com que um aristocrata discutiria o preço das rendas.

A multa de 500 milhões de euros aplicada à plataforma AliExpress é apresentada como prova de que “a Europa leva as questões comerciais a sério”. É comovente ver a União Europeia, que tantas vezes hesita, finalmente erguer a voz ainda que apenas até ao ponto em que a garganta não doa. A reciprocidade, esse conceito que a Europa invoca como quem recita um salmo, é agora o novo mantra pois “A partir de agora, as relações comerciais, económicas e políticas assentarão na transparência e na reciprocidade.” A frase é tão bela que merecia ser gravada em mármore, ainda que a sua aplicação prática seja tão incerta quanto a previsão do tempo em Abril.

O desenvolvimento tecnológico chinês, diz o eurodeputado, beneficiou da transferência maciça de tecnologia ocidental. É uma verdade que todos conhecem, mas que poucos ousam dizer em voz alta. A China, com a habilidade de um artesão imperial, recebeu tecnologia ocidental, aperfeiçoou-a e agora vende produtos mais baratos aos antigos fornecedores. É o triunfo da engenharia inversa, elevado à categoria de arte nacional.

A acusação de manipulação cambial, feita por França, Alemanha e Estados Unidos, é tratada com a mesma diplomacia com que se trataria um escândalo familiar poistodos sabem que existe, mas ninguém quer discutir o assunto à mesa. López estima que a desvalorização artificial ronde entre 20% e 30%. Pascual de la Parte, mais prudente, afirma que Pequim percebe que “esse modelo chegou aos seus limites”. É uma frase que poderia ter sido escrita por Tocqueville, se este tivesse vivido para ver a globalização.

A pandemia e a invasão russa da Ucrânia, diz o eurodeputado, alteraram a lógica das cadeias de abastecimento. A segurança passou a prevalecer sobre os ganhos económicos imediatos. É uma revelação tardia, mas necessária em que a Europa descobriu que depender de terceiros para tudo  desde máscaras até semicondutores é tão sensato quanto confiar a chave da casa ao vizinho que nunca se viu.

“A Europa tem de encontrar o seu lugar num mundo em mudança, hostil e incómodo”, conclui Pascual de la Parte. A frase, que poderia figurar num tratado de filosofia política, resume a perplexidade europeia de um continente que outrora ditava regras ao mundo, agora procura desesperadamente um lugar à mesa, desde que a cadeira não seja demasiado desconfortável.

E assim, até que a voz doa, a Europa continuará a negociar, a dialogar, a emitir comunicados e a acreditar que a diplomacia pode resolver tudo. Talvez um dia descubra que, para evitar uma guerra comercial, não basta falar é preciso agir. Mas, até lá, continuará a recitar o seu catecismo de reciprocidade e transparência, enquanto Pequim, com a serenidade de quem conhece o jogo, observa, calcula e avança.

Bibliografia

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European Commission. (2019). EU-China – A Strategic Outlook. Bruxelas: Comissão Europeia.

Meunier, S., & Nicolaïdis, K. (2019). The European Union as a Trade Power. Oxford University Press.

Organisation for Economic Co-operation and Development. (2023). OECD Economic Outlook. Paris: OECD Publishing.

World Trade Organization. (2022). World Trade Report 2022. Genebra: WTO.

Jorge Rodrigues Simão 2026