Há fenómenos políticos que, pela sua exuberância coreografada, merecem ser observados com atenção não para aprender, mas para não ser enganado. Hong Kong decidiu oferecer ao mundo o seu primeiro Plano Quinquenal, apresentado com a solenidade de quem anuncia a invenção da roda, embora a roda, como sabemos, já tenha sido inventada há algum tempo e, ao contrário de certos projectos governativos, costuma funcionar.
John Lee, Chefe do Executivo da região, surgiu perante o público com a gravidade de um homem que acredita piamente que cinco anos são suficientes para resolver problemas que, segundo o sociólogo Manuel Castells em “A Sociedade em Rede” (1996), se tornaram estruturais nas metrópoles contemporâneas como desigualdade, pressão imobiliária e fragmentação social. Castells não falava de Hong Kong, mas poderia ter falado, porque a cidade encaixa no diagnóstico como uma luva apertada, de preferência, para que não se perca a sensação de desconforto.
O documento, divulgado após consulta pública, promete emprego, habitação e uma qualidade de vida que, se fosse tão fácil de garantir como de anunciar, já teria sido alcançada há várias décadas. Mas a política, como escreveu Hannah Arendt em “A Condição Humana” (1958), vive do “milagre da acção”, esse impulso quase místico que faz acreditar que basta proclamar para transformar. E John Lee proclamou com entusiasmo de 196 mil casas públicas em cinco anos, destinadas a dar tecto a 2,5 milhões de pessoas. É uma promessa tão generosa que quase faz esquecer que, em Hong Kong, o preço de um apartamento médio rivaliza com o custo de um pequeno país e não daqueles baratos.
A Reuters, sempre diligente, registou cada palavra, como se estivesse perante um novo capítulo da história urbana mundial. “Um novo horizonte”, disse o governante, expressão que, por ser tão vaga, poderia significar tudo ou nada. A literatura está cheia de horizontes que nunca chegaram a existir. Fernando Pessoa, no “Livro do Desassossego”, lembrava que “o horizonte é apenas uma linha imaginária que o olhar inventa”. Talvez o Plano Quinquenal seja uma linha imaginária que o Executivo inventa para que os cidadãos tenham algo em que acreditar enquanto esperam por uma casa que não chega.
O plano inclui a famosa “escada habitacional”, conceito que parece saído de um manual de autoajuda urbana. A ideia é permitir que os jovens comprem casa própria, como se o problema fosse apenas falta de motivação e não salários que, segundo estudos recentes da Universidade de Hong Kong, estagnaram enquanto o mercado imobiliário se comporta como um adolescente hiperactivo alimentado a bebidas energéticas. A ironia é que, para muitos jovens, a única escada realista continua a ser a do metro e mesmo essa, por vezes, está avariada.
A Northern Metropolis, com os seus 30 mil hectares, surge como o novo eldorado tecnológico e económico. O plano descreve-a como uma zona destinada a reforçar ligações com o continente, criar empregos e oferecer habitação. É curioso como todos os governos do mundo acreditam que basta juntar as palavras “tecnologia”, “inovação” e “metrópole” para que o futuro floresça automaticamente. Nicholas Carr, em “The Shallows” (2010), avisou que a tecnologia não resolve tudo; por vezes, apenas distrai. Mas o entusiasmo governativo raramente lê bibliografia crítica.
John Lee garantiu que o território será um centro global de negócios offshore em renminbis, de gestão de activos, de riscos, de tudo o que possa ser gerido. A ambição é tão vasta que quase se confunde com poesia. Aliás, o plano quinquenal tem algo de épico, como se fosse uma versão burocrática da “Odisseia”. Falta apenas um Homero que a escreva com talento, porque o texto oficial, apesar de extenso, não chega a ser literature; é mais um catálogo de intenções embalado em linguagem tecnocrática.
A Autoridade de Renovação Urbana planeia gastar 40 mil milhões de dólares de Hong Kong em cinco anos. É um número tão grande que se torna abstracto, como aqueles valores que aparecem nos relatórios do Banco Mundial e que ninguém sabe exactamente como se traduzem na vida real. Jane Jacobs, em “The Death and Life of Great American Cities” (1961), avisou que a renovação urbana feita de cima para baixo tende a falhar porque ignora a vida quotidiana das pessoas. Mas os governos continuam a acreditar que o betão resolve tudo.
O plano também promete transformar Hong Kong num “superconector” entre regiões. A palavra é tão futurista que parece saída de um romance de Neal Stephenson. A cooperação com a Grande Baía inclui saúde, inteligência artificial, robótica, microelectrónica e outras áreas que fazem qualquer político parecer moderno. A modernidade, porém, não se decretal; constrói-se. E, como diria Zygmunt Bauman em “Modernidade Líquida” (2000), vivemos num tempo em que tudo é tão fluido que até os planos mais sólidos se dissolvem ao primeiro contacto com a realidade.
A educação superior também entra na equação, com a criação da marca “Study in Hong Kong”. É uma estratégia global comum de transformar cidades em produtos. Naomi Klein, em “No Logo” (1999), explicou como as marcas se tornaram mais importantes do que os próprios bens. Agora, até as cidades querem ser marcas. O problema é que, para atrair estudantes, não basta ter campus novos; é preciso ter condições de vida que não obriguem os alunos a viver em quartos do tamanho de um armário.
O plano de inovação e tecnologia inclui parques, institutos, conselhos e centros de investigação. É uma constelação institucional tão vasta que faz lembrar o universo de “Fundação”, de Isaac Asimov, onde tudo depende de estruturas complexas e previsões matemáticas. A diferença é que, na ficção, as previsões funcionam. Na política, nem sempre.
O Executivo promete criar 650 mil empregos. É uma promessa que soa bem, mas que exige uma pergunta simples: empregos onde, para quem e com que salários? Thomas Piketty, em “O Capital no Século XXI” (2013), demonstrou que o crescimento económico não garante distribuição justa. Sem políticas claras, criar empregos pode significar apenas multiplicar trabalhos precários.
Na saúde, o plano prevê aumentar camas hospitalares para 35 mil até 2031. É uma meta concreta, finalmente. Mas, como lembrava Atul Gawande em “The Checklist Manifesto” (2009), melhorar sistemas de saúde exige mais do que números; exige processos, formação, cultura organizacional. E isso não cabe num plano quinquenal.
A baixa natalidade preocupa o governo, que oferece incentivos financeiros para quem tenha filhos. É uma estratégia comum em vários países, mas que raramente resolve o problema. Como escreveu Anne Allison em “Precarious Japan” (2013), as pessoas não deixam de ter filhos por falta de dinheiro, mas por falta de tempo, estabilidade e confiança no futuro. E isso não se compra com subsídios.
Na educação não superior, aposta-se na integração da inteligência artificial na aprendizagem. É uma ironia deliciosa pois enquanto o governo tenta convencer os jovens a ter filhos, prepara escolas onde os alunos serão ensinados por algoritmos. Marshall McLuhan, em “Understanding Media” (1964), avisou que o meio é a mensagem. Talvez a mensagem seja que o futuro será digital, mesmo que o presente ainda não esteja resolvido.
O Plano Quinquenal de Hong Kong é, no fundo, um exercício de fé. Fé na tecnologia, na cooperação regional e na capacidade do governo de transformar intenções em realidade. É uma fé respeitável, mas que merece ser observada com o cepticismo saudável que George Orwell recomendava em “Politics and the English Language” (1946) de desconfiar sempre das frases demasiado polidas, dos números demasiado redondos e das promessas demasiado perfeitas.
Se o plano será cumprido, ninguém sabe. Mas, como diria Miguel Torga, “o futuro é uma invenção”. E Hong Kong, com o seu Plano Quinquenal, acaba de inventar mais um.
Bibliografia
- Arendt, Hannah – The Human Condition (1958)
- Asimov, Isaac – Foundation (1951)
- Allison, Anne – Precarious Japan (2013)
- Bauman, Zygmunt – Liquid Modernity (2000)
- Carr, Nicholas – The Shallows (2010)
- Castells, Manuel – The Rise of the Network Society (1996)
- Gawande, Atul – The Checklist Manifesto (2009)
- Jacobs, Jane – The Death and Life of Great American Cities (1961)
- Klein, Naomi – No Logo (1999)
- McLuhan, Marshall – Understanding Media (1964)
- Orwell, George – Politics and the English Language (1946)
- Pessoa, Fernando – Livro do Desassossego (1982)
- Piketty, Thomas – Le Capital au XXIe Siècle (2013)
Jorge Rodrigues Simão 2026
