HOJEMACAU – O UMBRAL DA DESORDEM MUNDIAL (II) – JORGE RODRIGUES SIMAO -02.07.2026

Num mundo em acelerado colapso geopolítico, onde a ordem internacional se fragmenta, as alianças tradicionais tornam-se voláteis e a competição estratégica regressa com intensidade, Portugal não pode permitir‑se a ilusão confortável de que estas dinâmicas globais não o afectam. A instabilidade deixou de ser episódica e tornou‑se estrutural. Neste contexto, o país precisa de abandonar a postura reactiva e adoptar uma estratégia nacional robusta, pragmática e orientada para a redução de vulnerabilidades. As propostas que se seguem constituem um conjunto coerente de políticas públicas exequíveis, pensadas para reforçar a resiliência portuguesa num ambiente internacional cada vez mais hostil.

A política externa deve evoluir de um alinhamento automático para uma diplomacia baseada em interesses nacionais claros. O tradicional papel de “bom aluno europeu” garantiu previsibilidade, mas não influência. Portugal precisa de uma diplomacia económica estratégica, com missões permanentes dedicadas a sectores críticos como energia, tecnologia, saúde e oceanos. A diversificação de alianças é igualmente essencial com o reforço das relações com países africanos lusófonos, Índia, Japão e o Sudeste Asiático ampliaria o espaço de manobra diplomático e económico. Esta mudança exige também uma reforma profunda da acção externa, integrando de forma operacional a diplomacia, a economia e a defesa, para que o país actue de forma coordenada e eficaz.

No domínio da defesa, Portugal deve abandonar a cultura declaratória e assumir uma postura de capacidade real. A deterioração da segurança internacional torna insustentável a dependência quase exclusiva de aliados. O investimento em defesa deve ser orientado para metas operacionais concretas, e não apenas para percentagens orçamentais. A modernização naval e aérea com foco na vigilância marítima, na ciberdefesa e na utilização de drones é indispensável para proteger o território e o extenso espaço marítimo nacional. A criação de uma força de resposta rápida lusófona, em cooperação com os PALOP, permitiria missões humanitárias e de estabilização, reforçando simultaneamente a presença estratégica de Portugal.

A economia portuguesa precisa de uma reestruturação profunda para reduzir dependências externas que a tornam vulnerável a choques globais. A excessiva dependência do turismo, dos fundos europeus e do investimento estrangeiro volátil é um risco sistémico. A construção de uma indústria tecnológica nacional, apoiada por incentivos fiscais e clusters especializados em semicondutores, biotecnologia e inteligência artificial, é crucial para garantir autonomia estratégica. A reindustrialização verde, centrada na produção de baterias, hidrogénio verde e materiais críticos, pode posicionar Portugal nas cadeias de valor emergentes. A autonomia alimentar deve ser tratada como prioridade estratégica, com a modernização da agricultura e a redução da dependência de importações num contexto de crescente instabilidade das cadeias de abastecimento.

A política energética deve ser robusta e orientada para a segurança. A transição energética não pode ser apenas estética ou simbólica. Portugal necessita de reservas estratégicas de gás, hidrogénio e combustíveis críticos para enfrentar interrupções externas. O país deve aproveitar plenamente as suas vantagens geográficas através de uma aposta séria na energia oceânica. A descentralização da produção energética, com redes inteligentes e microgeração, reduzirá vulnerabilidades e aumentará a resiliência nacional.

A política migratória deve ser inteligente, sustentável e estrategicamente orientada. Portugal precisa de imigração, mas precisa sobretudo de gestão estratégica da imigração. Um sistema de pontos para imigração qualificada, inspirado nos modelos canadiano e australiano, permitiria alinhar fluxos migratórios com necessidades reais do mercado de trabalho. O reconhecimento automático de qualificações em sectores críticos aceleraria a integração e aumentaria a produtividade. Acordos bilaterais com países lusófonos poderiam criar vias reguladas de mobilidade e programas de formação conjunta, reforçando laços históricos e respondendo ao desafio demográfico.

A cibersegurança deve ser tratada como prioridade nacional. Num mundo digitalizado, a vulnerabilidade é uma ameaça existencial. A criação de uma Agência Nacional de Ciberdefesa, articulando Estado, empresas e academia, garantiria coordenação e capacidade de resposta. A protecção das infra-estruturas críticas como energia, água, saúde, finanças, telecomunicações é indispensável para a segurança nacional. Programas massivos de formação digital preparariam a população para um futuro onde a literacia tecnológica é tão essencial como a literacia tradicional.

No campo da ciência e inovação, Portugal precisa de reter talento em vez de continuar a exportá‑lo. Carreiras científicas estáveis, com contratos plurianuais e financiamento competitivo, fortaleceriam o sistema científico nacional. Centros de excelência internacionais, criados em parceria com universidades de topo, atrairiam investigadores e investimento. Incentivos ao regresso de emigrantes qualificados incluindo fiscalidade diferenciada e programas de reintegração ajudariam a inverter décadas de perda de capital humano.

A política social deve estar preparada para choques globais. A instabilidade internacional amplifica desigualdades internas e exige mecanismos de resposta automática. Um rendimento mínimo adaptado a crises, activado em momentos de choque económico ou geopolítico, protegeria os mais vulneráveis. A habitação deve ser tratada como infra‑estrutura estratégica, com construção pública e regulação inteligente para garantir acesso e estabilidade. Um sistema de saúde resiliente, digitalizado, preventivo e com capacidade de resposta rápida, é essencial num mundo onde pandemias e crises sistémicas se tornam mais frequentes.

No contexto europeu, Portugal deve deixar de ser apenas participante e tornar‑se modelador. Alianças temáticas dentro da UE como nos oceanos, energia, migrações e digital permitiriam ao país influenciar agendas estratégicas. A participação activa em fundos europeus de defesa, tecnologia e infra-estruturas reforçaria a capacidade de investimento. A diplomacia de bastidores, discreta mas eficaz, pode aumentar a influência portuguesa em momentos decisivos.

Por fim, Portugal precisa de planeamento estratégico realista. A cultura do “plano que fica na gaveta” deve ser abandonada. Uma Unidade de Prospectiva Estratégica dedicada à análise de riscos globais e cenários futuros permitiria antecipar ameaças. A avaliação independente de políticas públicas, com métricas claras, auditorias e transparência, garantiria responsabilização. A execução vinculativa, com metas obrigatórias e consequências políticas, transformaria planos em acção.

Num mundo em colapso, sobrevivem e prosperam os países que se preparam, se adaptam e actuam. Portugal tem história, recursos e posição estratégica para enfrentar esta era de turbulência mas apenas se escolher o realismo, a coragem e a execução.

Bibliografia

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