Durante décadas, a Europa habituou-se a viver numa confortável ilusão estratégica. Não era uma ilusão absoluta, mas era suficientemente conveniente para permitir que sucessivas gerações de dirigentes políticos acreditassem que as grandes ameaças militares pertenciam definitivamente aos livros de História, aos documentários sobre a Guerra Fria e aos discursos de antigos estrategas que insistiam em recordar cenários que pareciam tão distantes quanto as guerras napoleónicas. Enquanto os Estados Unidos mantinham o seu vasto guarda-chuva nuclear sobre o continente europeu, muitos governos dedicavam-se a discutir metas climáticas, regulamentações digitais, classificações energéticas de edifícios, reciclagem, protecção de dados e outras prioridades legítimas de sociedades que tiveram o raro privilégio de considerar a segurança militar como um problema resolvido.
A História, porém, raramente aprecia triunfos prematuros. O regresso da guerra à Europa através da invasão da Ucrânia, a deterioração constante das relações entre Moscovo e as capitais ocidentais, a crescente instabilidade internacional e, sobretudo, as dúvidas em torno da continuidade do compromisso estratégico americano fizeram ressurgir uma pergunta que durante anos parecia pertencer ao domínio da ficção política de que poderá a Europa defender-se sozinha?
A questão não é apenas militar. É filosófica, política e psicológica. Durante décadas, a Europa construiu uma identidade baseada na ideia de que o poder económico, a integração institucional e o comércio internacional seriam suficientes para garantir estabilidade duradoura. Muitos acreditaram que a interdependência económica transformaria a guerra numa irracionalidade impossível. Foi uma crença elegante e perigosamente optimista.
Norman Angell escreveu em “The Great Illusion” que a interdependência económica tornava a guerra um absurdo financeiro. Poucos anos depois, a Europa mergulhava na I Guerra Mundial. A racionalidade económica nunca conseguiu eliminar completamente os impulsos geopolíticos. O comércio pode aproximar Estados. Não impede necessariamente que estes entrem em conflito quando percebem ameaças aos seus interesses estratégicos.
O debate actual sobre a dissuasão nuclear europeia demonstra precisamente essa realidade. O continente apercebeu-se subitamente de que segurança e prosperidade não são conceitos independentes. Pelo contrário, estão intimamente ligados. Sem segurança não existe estabilidade, investimento e crescimento sustentável. E sem crescimento sustentável as grandes promessas políticas tornam-se progressivamente mais difíceis de financiar.
Foi neste contexto que a discussão sobre uma eventual dimensão europeia da força nuclear francesa começou a ganhar relevância. Durante décadas, a França construiu a sua estratégia atómica em torno do princípio da autonomia nacional. Desde os tempos de Charles de Gaulle, a posse de armas nucleares foi encarada como um símbolo máximo de soberania. Paris queria garantir que nenhuma decisão existencial dependesse exclusivamente da boa vontade de terceiros.
Hoje essa lógica continua presente, mas começa a assumir contornos diferentes. À medida que aumentam as dúvidas sobre a previsibilidade da política externa americana, cresce também o interesse de vários países europeus em compreender de que forma a capacidade nuclear francesa poderá contribuir para uma protecção mais ampla do continente. Esta discussão teria sido considerada quase excêntrica há dez ou quinze anos. Actualmente é objecto de análises sérias por parte de governos, académicos, militares e centros de investigação estratégica.
A mudança não aconteceu por acaso. Donald Trump desempenhou um papel importante neste processo. Não porque tenha retirado os Estados Unidos da NATO ou abandonado a Europa, mas porque introduziu uma dúvida estratégica que anteriormente não existia com a mesma intensidade. Quando um presidente americano questiona publicamente os custos da defesa dos aliados e exige maior responsabilidade por parte dos parceiros europeus, a mensagem produz inevitavelmente consequências.
Na estratégia nuclear, a credibilidade vale tanto quanto a capacidade. Thomas Schelling explicou em “Arms and Influence” que a dissuasão depende menos do número de armas disponíveis do que da convicção dos potenciais adversários de que elas serão efectivamente usadas se necessário. É aqui que surge o verdadeiro dilema europeu. Os Estados Unidos continuam a possuir a capacidade militar mais poderosa do planeta. Mas será que estarão sempre dispostos a assumir riscos existenciais para defender todos os aliados europeus em qualquer circunstância?
A simples existência desta dúvida altera profundamente o cálculo estratégico. A situação torna-se ainda mais complexa porque a Europa enfrenta uma contradição que raramente é discutida com total honestidade. Durante décadas, muitos governos beneficiaram da protecção americana enquanto direccionavam recursos para políticas sociais, infra-estruturas, saúde, educação e outras áreas prioritárias. Foi uma escolha compreensível. Mas agora descobrem que a autonomia estratégica tem um custo extremamente elevado.
A soberania é uma ideia magnífica. Até chegar a factura. Construir capacidade militar credível exige investimento permanente. Requer indústria de defesa robusta, investigação tecnológica, infra-estruturas, treino operacional e compromisso político de longo prazo. Não se trata de inaugurar um programa. Trata-se de sustentar uma estratégia durante décadas.
É precisamente neste ponto que a discussão sobre as armas nucleares revela a sua verdadeira dimensão. Muitos observadores analisam a questão apenas em termos militares. Na realidade, o problema é muito mais amplo. A capacidade de dissuasão depende da confiança que os aliados depositam uns nos outros.
E a confiança é um recurso extraordinariamente escasso. Os defensores de uma maior integração estratégica argumentam que a França e o Reino Unido já possuem arsenais capazes de contribuir para uma defesa europeia mais autónoma. Os críticos lembram que esses arsenais são substancialmente menores do que o americano e que a capacidade de projecção continua limitada em comparação com a dos Estados Unidos. Ambos os argumentos possuem fundamento. Mas talvez estejam a discutir a questão errada.
A verdadeira questão não é saber se a França pode substituir completamente os Estados Unidos. A verdadeira questão é saber se a Europa pode continuar eternamente dependente de uma garantia externa sem desenvolver capacidades próprias suficientemente credíveis. Raymond Aron observava em “Peace and War” que as relações internacionais são dominadas pelo conflito permanente entre a procura de segurança e o receio da vulnerabilidade. Quanto maior a sensação de insegurança, maior a pressão para aumentar capacidades de defesa. Mas quanto maiores essas capacidades, maiores tendem a ser as preocupações dos outros Estados.
É um paradoxo antigo. E continua vivo. O mais irónico é que este debate ocorre precisamente numa Europa que durante muitos anos acreditou ter superado a lógica clássica da geopolítica. A União Europeia foi construída em grande medida sobre a convicção de que a cooperação económica poderia reduzir progressivamente a relevância dos conflitos tradicionais de poder. Essa visão produziu resultados extraordinários em muitos domínios. Mas também criou a impressão de que as velhas realidades estratégicas tinham desaparecido. Não desapareceram. Apenas permaneceram temporariamente fora do centro das atenções.
O regresso das discussões sobre dissuasão nuclear demonstra isso de forma inequívoca. A Europa começa a perceber que continua inserida num sistema internacional onde o poder militar mantém relevância decisiva. Pode não ser o único factor importante. Não é sequer o principal em muitas circunstâncias. Mas continua presente. Existe ainda uma dificuldade adicional frequentemente ignorada. As democracias, os governos, os eleitores e as prioridades mudam. Uma estratégia baseada na confiança absoluta numa determinada liderança pode tornar-se vulnerável quando essa liderança desaparece.
Este problema não se aplica apenas aos Estados Unidos mas também à Europa. Hoje um governo pode defender a integração estratégica. Amanhã poderá surgir outro com uma visão completamente diferente. A credibilidade nuclear depende da estabilidade política. E a estabilidade política nunca é garantida.
Kenneth Waltz argumentava em “Theory of International Politics” que os Estados procuram sobreviver num sistema internacional anárquico onde nenhuma autoridade superior garante completamente a sua segurança. Esta observação continua actual. Os Estados podem criar alianças, construir instituições e assinar tratados. Mas, em última análise, continuam preocupados com a própria sobrevivência.
A Europa está simplesmente a redescobrir essa realidade. Talvez o aspecto mais revelador de todo este debate seja o seu significado simbólico. Durante décadas, o continente europeu acreditou que os seus maiores desafios seriam climáticos, económicos, tecnológicos ou sociais. Hoje descobre que as questões de segurança continuam presentes. Não substituem os outros desafios. Somam-se a eles.
O resultado é uma mudança de mentalidade. As sociedades europeias começam a compreender que a paz não é um estado permanente da natureza. É uma construção política, diplomática e estratégica que exige manutenção constante. A prosperidade sem segurança torna-se vulnerável. A segurança sem credibilidade torna-se ilusória. E a credibilidade sem capacidade transforma-se numa simples declaração de intenções.
No final, a questão nuclear europeia não é apenas uma discussão sobre submarinos, mísseis ou ogivas. É uma discussão sobre maturidade estratégica. É o reconhecimento de que o mundo continua a ser menos previsível do que muitos gostariam de acreditar. Talvez a verdadeira novidade não seja o regresso do debate nuclear. Talvez a verdadeira novidade seja o fim da ilusão de que esse debate nunca mais seria necessário.
Bibliografia
- Aron, Raymond. Peace and War: A Theory of International Relations.
- Schelling, Thomas. Arms and Influence.
- Kissinger, Henry. Nuclear Weapons and Foreign Policy.
- Freedman, Lawrence. The Evolution of Nuclear Strategy.
- Waltz, Kenneth. Theory of International Politics.
- Mearsheimer, John. The Tragedy of Great Power Politics.
- Gray, Colin S. The Second Nuclear Age.
- Kagan, Robert. Of Paradise and Power.
- Angell, Norman. The Great Illusion.
- Fukuyama, Francis. The End of History and the Last Man.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
