Há acontecimentos que pertencem à história. E há outros que pertencem à memória. Os primeiros estudam-se. Os segundos vivem-se. O 11 de Setembro de 2001 pertence a esta última categoria. Um quarto de século passou desde que dois aviões transformaram as Torres Gémeas de Nova Iorque num símbolo da vulnerabilidade do mundo moderno, mas a verdade é que o planeta continua a circular em órbita desse dia. Mudaram os governos, as tecnologias, as guerras e até as gerações. Contudo, o impacto político, psicológico e cultural daquele ataque permanece profundamente inscrito no século XXI.

Vinte e cinco anos depois, uma parte significativa da população já não se recorda de ter assistido aos acontecimentos. Muitos nem sequer eram nascidos quando os aviões atingiram o World Trade Center. Ainda assim, a dimensão traumática do ataque continua viva na memória daqueles que o testemunharam. Um estudo recente do Pew Research Center concluiu que 83 por cento dos americanos nascidos antes de 2001 afirmam recordar exactamente onde estavam quando ouviram pela primeira vez a notícia dos atentados. Entre aqueles que tinham dez ou mais anos de idade na altura, essa percentagem sobe para 93 por cento. O mesmo estudo indica que 10 por cento dos adultos actuais nasceram depois de 2001 e conhecem os acontecimentos apenas através da escola, dos meios de comunicação social ou dos testemunhos familiares.

É fácil compreender esta persistência da memória. As imagens daquele dia foram tão extraordinárias que desafiaram a própria capacidade humana de interpretar a realidade. Durante largos minutos, milhões de pessoas acreditaram estar perante um acidente. Quando o segundo avião embateu na torre sul, perante câmaras que transmitiam em directo para todo o planeta, desapareceu qualquer dúvida. Não era um acidente. Não era uma falha técnica. Não era um incêndio. Era um ataque deliberado ao coração financeiro e simbólico da maior potência mundial.

A ironia da situação continua impressionante. Durante décadas, os Estados Unidos tinham preparado os seus sistemas de defesa para enfrentar mísseis nucleares, frotas inimigas, submarinos soviéticos e exércitos mecanizados. Investiram biliões em armamento sofisticado, satélites e sistemas de vigilância global. No entanto, acabaram por ser atingidos por um punhado de homens armados com facas de corte industrial e uma estratégia tão simples quanto devastadora.

Naquele instante, terminou uma época. O filósofo Jean Baudrillard, em “The Spirit of Terrorism”, observou que os ataques tiveram uma dimensão simbólica sem precedentes, precisamente porque atingiram o centro da autoconfiança ocidental. O mundo apercebeu-se de que a superioridade militar não significava invulnerabilidade. A tecnologia não garantia segurança absoluta. E a globalização, tão celebrada durante os anos noventa, também transportava consigo vulnerabilidades globais.

As consequências não demoraram a surgir. O terrorismo passou imediatamente a ocupar o lugar que a Guerra Fria tinha deixado vazio. O novo inimigo era invisível, descentralizado e imprevisível. Não possuía um território claramente identificável nem uma bandeira nacional unívoca. Era uma ideologia, uma rede, uma forma de combatente adaptada ao mundo interligado da globalização.

A resposta americana foi rápida e musculada. O Afeganistão tornou-se o primeiro palco da chamada Guerra Global contra o Terrorismo. Pouco depois seguir-se-ia o Iraque. O problema é que, em política internacional, existe uma regra frequentemente ignorada pelos mais poderosos que é relativamente fácil iniciar uma guerra; é muito mais difícil controlar as suas consequências.

O historiador John Lewis Gaddis, em “Surprise, Security and the American Experience”, analisou a forma como os Estados Unidos passaram a adoptar uma lógica de prevenção permanente após os ataques. Em vez de responder apenas a ameaças concretas, passou a dominar a ideia de neutralizar perigos futuros antes de estes se materializarem. Na teoria, o raciocínio parecia prudente. Na prática, abriu caminho a intervenções militares cuja utilidade continua a ser discutida duas décadas depois.

O exemplo mais paradigmático foi a invasão do Iraque em 2003. Justificada pela alegada existência de armas de destruição maciça, a operação transformou-se rapidamente num dos episódios mais controversos da política internacional contemporânea. As armas nunca apareceram. Mas apareceram instabilidade, radicalização, violência sectária e uma profunda erosão da credibilidade ocidental.

É aqui que a história se torna particularmente sarcástica. O objectivo declarado era aumentar a segurança global. O resultado foi, em muitos casos, exactamente o inverso. Como acontece frequentemente quando os governos decidem resolver problemas complexos com soluções simplistas, os efeitos secundários revelaram-se mais duradouros do que a própria estratégia.

Enquanto Washington concentrava recursos humanos, financeiros e militares no Médio Oriente, outra transformação decorria silenciosamente do outro lado do planeta. A China crescia a um ritmo impressionante. Construía infra-estruturas, atraía investimento, desenvolvia tecnologia e consolidava a sua posição económica global.

O analista português Pedro Ponte e Sousa tem salientado precisamente esta realidade de que a concentração americana na guerra ao terrorismo coincidiu historicamente com o período em que Pequim consolidou a sua ascensão económica, tecnológica e estratégica. Aquela que pretendia ser uma demonstração de força acabou por criar condições favoráveis à emergência de um novo concorrente global.

Existe uma crueldade quase matemática neste resultado. A potência que procurava garantir a sua primazia internacional desviou a atenção para conflitos dispendiosos justamente no momento em que o principal rival reforçava silenciosamente a sua posição.

Ao mesmo tempo, os efeitos do 11 de Setembro infiltravam-se na vida quotidiana de milhões de pessoas. Viajar deixou de ser a mesma experiência. Os aeroportos transformaram-se em templos da segurança preventiva. As bagagens passaram a ser inspeccionadas de forma obsessiva. Os passageiros começaram a retirar sapatos, cintos e computadores portáteis perante funcionários tão desconfiados quanto meticulosos.

O mais curioso é a rapidez com que tudo isso foi normalizado. Uma geração inteira cresceu acreditando que atravessar detectores, scanners corporais e múltiplos controlos é um fenómeno natural. Não é. Trata-se de uma consequência histórica muito específica.

O filósofo Giorgio Agamben, na obra “State of Exception, alertava para a forma como situações de emergência tendem a expandir os poderes do Estado para além dos limites inicialmente previstos. A lógica é simples e extremamente eficaz. Primeiro surge o medo. Depois surge a promessa de segurança. Finalmente surge a aceitação de medidas que, em períodos normais, provocariam enorme resistência.

Foi precisamente isso que aconteceu ao longo dos últimos vinte e cinco anos. A vigilância electrónica expandiu-se de forma extraordinária. As transacções financeiras passaram a ser escrutinadas com intensidade crescente. A recolha de dados tornou-se uma actividade permanente. Em nome da segurança, os governos adquiriram capacidades de observação e monitorização que teriam parecido excessivas no final do século XX.

Posteriormente, as revelações de Edward Snowden permitiram perceber a dimensão desse fenómeno. Aquilo que inicialmente parecia uma resposta transitória ao terrorismo revelou-se uma transformação estrutural na relação entre segurança, privacidade e poder. Agora surge uma nova etapa desta evolução que é a inteligência artificial.

Se o medo do terrorismo justificou a expansão dos sistemas de vigilância tradicionais, a IA oferece possibilidades incomparavelmente mais sofisticadas. Algoritmos capazes de reconhecer rostos, interpretar padrões comportamentais, monitorizar comunicações e analisar enormes volumes de informação estão a transformar profundamente a gestão da segurança.

Mais uma vez, a ironia reaparece. Os mesmos instrumentos que prometem proteger os cidadãos podem igualmente aumentar o poder de monitorização das instituições. A questão não reside apenas na tecnologia. Reside no uso político que dela é feito.

O maior equívoco dos últimos vinte e cinco anos talvez tenha sido acreditar que o terrorismo podia ser derrotado exclusivamente através da força militar. A Al-Qaeda foi enfraquecida. Osama bin Laden foi morto. O autoproclamado Estado Islâmico perdeu grande parte do território que controlava. Contudo, a radicalização não desapareceu. Adaptou-se.

Hoje, muitos processos de radicalização decorrem online. Não exigem campos de treino remotos. Não exigem estruturas hierárquicas tradicionais. Bastam ligações digitais, comunidades virtuais e uma mistura explosiva de ressentimento, propaganda e isolamento social.

Como observou o historiador Niall Ferguson em “Colossus, as grandes potências tendem frequentemente a sobrevalorizar a eficácia da força e a subestimar a complexidade das realidades humanas que procuram transformar. O período pós-11 de Setembro oferece uma demonstração quase pedagógica dessa tendência.

Vinte e cinco anos depois, talvez a principal lição seja desconfortavelmente simples. Não se derrota uma ideologia apenas com bombas. Não se constrói estabilidade apenas com tropas. Não se elimina a violência apenas através da repressão. Quando fenómenos políticos, sociais e culturais são reduzidos exclusivamente a problemas militares, criam-se frequentemente novas formas de instabilidade.

As Torres Gémeas desapareceram há muito da paisagem de Nova Iorque. Os escombros foram removidos. Os edifícios foram substituídos. As cidades reconstruíram-se. Mas os efeitos do 11 de Setembro continuam presentes na política internacional, nas guerras contemporâneas, na vigilância digital, nas leis de segurança, nas relações entre liberdade e controlo e até nos gestos banais de quem embarca num avião.

Um quarto de século depois, percebe-se que as torres não foram as únicas estruturas a cair naquela manhã. Ruíram também certezas, ilusões e convicções que tinham definido o optimismo geopolítico do final do século XX. E talvez seja por isso que o 11 de Setembro continua tão presente. Porque algumas quedas terminam quando atingem o chão. Outras continuam durante décadas.

Bibliografia

  • Jean Baudrillard, The Spirit of Terrorism. Verso Books, 2002.
  • Don DeLillo, Falling Man. Scribner, 2007.
  • John Lewis Gaddis, Surprise, Security and the American Experience. Harvard University Press, 2004.
  • Francis Fukuyama, America at the Crossroads. Yale University Press, 2006.
  • Ulrich Beck, Risk Society: Towards a New Modernity. Sage Publications, 1992.
  • Giorgio Agamben, State of Exception. University of Chicago Press, 2005.
  • Niall Ferguson, Colossus: The Rise and Fall of the American Empire. Penguin Books, 2004.
  • Pew Research Center, estudo sobre a memória dos atentados de 11 de Setembro publicado em Setembro de 2026.

Jorge Rodrigues Simão 2026