O Silêncio Sobre Mao e a Longa Sombra do Fundador da República Popular
A 9 de Setembro de 1976 morreu Mao Zedong, fundador da República Popular da China e uma das figuras mais influentes, controversas e determinantes do século XX. Meio século depois, a efeméride passou quase despercebida nos principais órgãos de comunicação estatais chineses. Não houve grandes cerimónias públicas, nem campanhas oficiais de homenagem à escala nacional. Contudo, qualquer observador atento percebe rapidamente que o silêncio não significa esquecimento. Pelo contrário, poucas figuras históricas permanecem tão presentes na vida quotidiana de um país como Mao continua a estar na China contemporânea.
O contraste é revelador. Enquanto o aniversário da morte do antigo líder foi praticamente ignorado pelas principais manchetes, a agência estatal Xinhua dedicou ampla cobertura ao nonagésimo aniversário da Longa Marcha, um dos episódios fundadores da legitimidade revolucionária do Partido Comunista Chinês. A mesma agência destacou ainda os investimentos turísticos e culturais associados aos locais históricos da revolução, transformados em espaços de visitação, memória e pedagogia política. Esta opção mediática não parece casual. Celebrar a Longa Marcha significa homenagear as origens revolucionárias do regime sem abrir um debate incómodo sobre os aspectos mais controversos da herança de Mao. O Partido Comunista Chinês continua, assim, a privilegiar os momentos unificadores da sua história, evitando questões que possam gerar divisões ideológicas ou interpretações contraditórias.
Apesar da ausência de comemorações oficiais de grande visibilidade, o fundador da República Popular permanece omnipresente. O seu retrato continua pendurado sobre a Porta da Paz Celestial, dominando a Praça Tiananmen. A sua imagem surge em todas as notas de renminbi. O chamado “Pensamento Mao Zedong” mantém-se integrado na arquitectura ideológica oficial do Partido Comunista Chinês. O próprio mausoléu de Mao, situado no centro de Pequim, continua a atrair milhares de visitantes, demonstrando que a curiosidade histórica, a admiração política ou simplesmente o respeito simbólico pelo fundador da China moderna continuam profundamente enraizados.
Essa presença constante revela uma das maiores peculiaridades da história chinesa contemporânea. O Partido Comunista condenou oficialmente alguns dos erros mais graves cometidos durante a era maoista, especialmente os excessos da Revolução Cultural. No entanto, nunca repudiou Mao de forma absoluta. Tal decisão não resulta apenas de prudência política. Resulta da consciência de que a legitimidade histórica do regime está intimamente ligada à figura do líder revolucionário que unificou o país após décadas de guerra civil, ocupação estrangeira e fragmentação interna.
Esta ambiguidade tem sido objecto de análise por numerosos académicos. O historiador Maurice Meisner, na sua obra “Mao’s China and After”, argumentava que o legado de Mao não poderia ser reduzido nem aos fracassos nem aos sucessos. Para Meisner, a China moderna é produto simultâneo das transformações revolucionárias conduzidas pelo líder e das reformas posteriores que procuraram corrigir muitas das suas consequências. De modo semelhante, o sinólogo Jonathan Spence, autor de “The Search for Modern China”, sustentava que compreender a China contemporânea exige compreender as tensões entre revolução, tradição e modernização que marcaram o século XX chinês.
Nenhum episódio ilustra melhor essas tensões do que a Revolução Cultural. Lançada em 1966 e prolongada até à morte de Mao, em 1976, foi apresentada como uma campanha destinada a aprofundar a luta ideológica e a impedir a restauração de tendências consideradas burguesas ou revisionistas. Na prática, mergulhou a China numa década de perseguições políticas, campanhas de denúncia pública, humilhações colectivas, prisões arbitrárias e violência generalizada.
Milhões de jovens aderiram aos Guardas Vermelhos, acreditando participar numa missão histórica destinada a purificar a revolução. Escolas encerraram. Universidades interromperam actividades. Intelectuais foram perseguidos. Professores foram humilhados publicamente. Funcionários partidários experientes foram afastados. Famílias dividiram-se. A lógica política transformou-se frequentemente numa dinâmica de suspeição permanente.
Numerosos estudos procuraram compreender as razões que levaram tantos jovens a aderir com entusiasmo a esse movimento. A historiadora Jung Chang, na obra “Wild Swans”, descreve de forma particularmente vívida a força da mobilização ideológica da época. Para muitos adolescentes, Mao não era simplesmente um dirigente político. Era uma figura quase transcendental, cuja autoridade moral parecia indiscutível. A ideia de desobedecer ou questionar as suas orientações era, para muitos, praticamente impensável.
Contudo, a análise da Revolução Cultural continua a suscitar profundo debate dentro da própria China. Alguns sectores da esquerda maoista defendem que o período representou uma tentativa legítima de combater privilégios burocráticos e desigualdades sociais. Os seus apoiantes destacam conquistas em áreas como a educação básica, a saúde pública e a integração social das populações rurais. Outros consideram, pelo contrário, que os custos humanos, económicos e culturais foram demasiado elevados para qualquer balanço positivo.
É precisamente esta dualidade que torna Mao uma figura tão difícil de enquadrar. Foi simultaneamente libertador nacional e líder autoritário. Foi arquitecto da unificação política da China moderna e protagonista de campanhas que provocaram sofrimento em larga escala. Foi símbolo de emancipação para milhões de chineses e responsável por algumas das experiências políticas mais traumáticas da história contemporânea.
Quando Mao morreu em 1976, a China encontrava-se exausta. Dois anos mais tarde iniciou-se uma nova etapa histórica. Embora Hua Guofeng tenha assumido inicialmente posições de liderança, foi Deng Xiaoping quem gradualmente se transformou na figura dominante da política chinesa.
A importância de Deng para a história contemporânea dificilmente pode ser exagerada. Se Mao fundou a República Popular, Deng redesenhou a sua trajectória económica. Sob a sua liderança, a China iniciou o processo conhecido como “Reforma e Abertura”, que transformaria uma economia predominantemente planificada numa das maiores potências económicas do mundo.
O historiador Ezra Vogel, na biografia “Deng Xiaoping and the Transformation of China”, descreve este processo como uma das mais profundas transformações económicas da história mundial. Deng não abandonou o monopólio político do Partido Comunista, mas promoveu reformas profundas na agricultura, na indústria, no investimento externo e na organização económica.
A criação das Zonas Económicas Especiais constituiu um dos elementos centrais dessa estratégia. Cidades como Shenzhen tornaram-se laboratórios de desenvolvimento económico, atraindo investimento estrangeiro, promovendo exportações e incentivando a inovação industrial. Em apenas algumas décadas, localidades anteriormente rurais transformaram-se em gigantes urbanos e tecnológicos.
Ao mesmo tempo, as reformas agrícolas permitiram aos camponeses beneficiar directamente da sua produção, aumentando a produtividade e reduzindo a escassez alimentar. Para milhões de famílias chinesas, estas mudanças tiveram consequências concretas e imediatas. O crescimento do rendimento familiar, o acesso a bens de consumo e a melhoria das condições de vida contribuíram para consolidar o apoio popular às reformas.
Estatisticamente, os resultados são impressionantes. A China passou de uma economia relativamente pobre para a segunda maior economia mundial. Centenas de milhões de pessoas saíram da pobreza. Infra-estruturas gigantescas foram construídas. O país tornou-se um dos principais centros industriais e tecnológicos do planeta.
Todavia, as reformas também produziram desafios. O aumento das desigualdades, o crescimento das diferenças regionais, a urbanização acelerada e a crescente pressão competitiva transformaram profundamente a sociedade chinesa. Alguns sectores mais nostálgicos continuam a olhar para a era maoista como um período de maior igualdade social e de maior sentido colectivo.
Essa nostalgia é particularmente visível entre algumas gerações mais velhas. Muitos recordam uma época em que o ideal revolucionário parecia sobrepor-se aos interesses materiais. Outros recordam precisamente o contrário com escassez, restrições e falta de oportunidades. A memória da era Mao continua, por isso, profundamente dividida.
Sob a liderança de Xi Jinping, a relação entre passado e presente adquiriu nova relevância. Xi recuperou conceitos associados à disciplina ideológica, à unidade nacional e à centralização do poder político. Contudo, a maioria dos especialistas rejeita comparações simplistas entre os dois dirigentes. Mao liderava um movimento revolucionário em construção. Xi dirige uma potência global altamente institucionalizada.
Ainda assim, existem continuidades evidentes. Ambos defendem a centralidade do Partido Comunista. Ambos sublinham a importância da unidade nacional. Ambos valorizam o papel da ideologia como elemento de coesão política. Como observam diversos estudiosos da política chinesa contemporânea, Xi continua a operar dentro das estruturas construídas pela revolução liderada por Mao.
É precisamente por isso que Pequim evita tanto a glorificação absoluta como a condenação total do antigo líder. O Partido Comunista necessita de preservar a legitimidade histórica da revolução sem ignorar os erros reconhecidos oficialmente. Necessita de celebrar Mao enquanto fundador da República Popular sem reabrir debates potencialmente desestabilizadores sobre os excessos do período revolucionário.
Cinquenta anos após a sua morte, Mao continua assim a ocupar um lugar singular na memória colectiva chinesa. Está presente na paisagem urbana, nos livros escolares, na iconografia nacional e na linguagem política. Mas permanece envolto num silêncio cuidadosamente calculado. Não é esquecido. Também não é plenamente celebrado.
Talvez porque a China contemporânea tenha compreendido que algumas figuras históricas são demasiado grandes para serem reduzidas a homenagens ocasionais ou condenações definitivas. Mao pertence a essa categoria rara de protagonistas que continuam a influenciar o presente muito depois de terem desaparecido. O seu legado permanece visível não apenas nos monumentos ou nos museus, mas na própria existência da China moderna.
Cinquenta anos depois, o silêncio de Pequim sobre o aniversário da sua morte diz tanto sobre Mao quanto qualquer cerimónia oficial. Revela uma nação que continua a viver entre a memória da revolução e as exigências da modernidade, procurando conciliar um passado complexo com as ambições de uma potência global do século XXI.
Bibliografia
- Jonathan D. Spence, The Search for Modern China. W. W. Norton & Company.
- Maurice Meisner, Mao’s China and After: A History of the People’s Republic. Free Press.
- Ezra F. Vogel, Deng Xiaoping and the Transformation of China. Harvard University Press.
- Jung Chang, Wild Swans: Three Daughters of China. HarperCollins.
- Roderick MacFarquhar e Michael Schoenhals, Mao’s Last Revolution. Harvard University Press.
- Frank Dikötter, The Cultural Revolution: A People’s History, 1962-1976. Bloomsbury Publishing.
Jorge Rodrigues Simão 2026
