A temperatura da superfície do mar, esse vasto espelho onde a humanidade gosta de ver reflectida a sua inconsciência, atingiu em Julho o valor mais elevado desde que há registos. O Serviço de Alterações Climáticas do Copernicus, que funciona como uma espécie de oráculo científico da União Europeia, anunciou que os oceanos extrapolares chegaram aos 20,96 °C número que, para o cidadão comum, pode parecer apenas uma nota de rodapé meteorológica, mas que para os especialistas representa o equivalente climático a um grito de socorro.

O recorde anterior, 20,89 °C, registado em 2023, foi assim ultrapassado com a mesma facilidade com que um cozinheiro apressa a fervura de um caldo. A metáfora culinária não é inocente pois o planeta está literalmente a aquecer em lume brando, e nós, habitantes distraídos, continuamos a mexer a sopa como se nada fosse.

Segundo o Copernicus, uma das causas desta fervura oceânica reside nas temperaturas excepcionalmente altas no Pacífico tropical, onde o fenómeno El Niño se prepara para reforçar a sua influência. El Niño, esse velho conhecido dos climatologistas, comporta-se como um convidado inconveniente que, ao chegar à festa, decide aumentar o volume da música, abrir todas as janelas e transformar o ambiente numa sauna tropical.

Como escreveu Kevin Trenberth, “El Niño é uma perturbação global que redistribui o calor do oceano e reorganiza a atmosfera” (Journal of Climate, 1997). E quando o calor é redistribuído, o planeta inteiro sente o desconforto.

Em redor da Europa, o Atlântico e o Mediterrâneo ocidental registaram temperaturas tão elevadas que os ecossistemas marinhos ficaram em estado de choque. As ondas de calor marinhas, que antes eram raridades dignas de estudo académico, tornaram-se agora visitas frequentes, como parentes que aparecem sem avisar e ficam demasiado tempo.

A parte ocidental do continente viveu o período conjunto de Junho-Julho mais quente de que há registo: 21,62 °C, superando o recorde de 2022 e ficando 2,79 °C acima da média histórica. A Europa, que outrora se orgulhava das suas brisas suaves e dos seus verões moderados, parece agora ter sido transferida para uma estufa tropical.

A seca persistiu, como uma doença crónica que se recusa a desaparecer. França, Espanha, parte da Alemanha e o Reino Unido registaram precipitação e humidade do solo excepcionalmente baixas. Os rios como o Sena, o Reno e o Danúbio transformaram-se em sombras de si próprios, com caudais muito abaixo da média. A água, esse bem que a humanidade sempre julgou garantido, tornou-se um luxo.

Samantha Burgess, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo, explicou que “os sistemas de altas pressões persistentes aprisionaram calor sobre a Europa ocidental; as temperaturas extremas amplificaram as secas generalizadas”. A frase, que poderia figurar num tratado de física atmosférica, resume a tragédia pois o calor e a seca reforçam-se mutuamente, como dois cúmplices numa conspiração contra o bem-estar humano.

O mês de Julho foi também testemunha de uma actividade de incêndios florestais excepcional na Europa ocidental. Laurence Rouil, directora do Serviço de Monitorização da Atmosfera do Copernicus, destacou que as emissões e a área ardida atingiram níveis alarmantes. As condições provocadas pelas alterações climáticas favorecem incêndios de grande dimensão e elevada intensidade no sul da Europa, ao mesmo tempo que prolongam a época de incêndios em direcção ao norte.

Os incêndios, esses monstros de fogo que devoram florestas e aldeias, produzem fumo que é injectado a maior altitude na atmosfera, permitindo-lhe viajar milhares de quilómetros. Países que registam poucos incêndios acabam por respirar o fumo dos vizinhos, numa espécie de solidariedade involuntária que ninguém pediu.

Como escreveu Stephen Pyne, historiador do fogo, “a humanidade vive numa era de combustão, em que o fogo é simultaneamente ferramenta, ameaça e consequência” (Fire: A Brief History, 2001). E nesta era, a Europa parece ter sido promovida ao cargo de laboratório de incêndios.

Enquanto a Europa arde e os oceanos fervem, Hong Kong registou temperaturas que ultrapassam o último recorde de 1884. A cidade, que sempre se orgulhou da sua modernidade, parece agora ter sido transformada num forno urbano. Os habitantes, resignados, caminham pelas ruas como personagens de um romance naturalista, suados, exaustos, à espera de um sopro de vento que nunca chega.

Macau, por sua vez, vive uma experiência culinária involuntária em que as pessoas são cozinhadas em lume brando. O calor, persistente e pegajoso, envolve a cidade como um manto de vapor. As sombras tornaram-se bens preciosos, disputados com a mesma intensidade com que se disputam lugares de estacionamento.

O calor extremo não é apenas desconfortável; é perigoso. A Organização Mundial da Saúde recorda que “as ondas de calor são responsáveis por milhares de mortes todos os anos, muitas das quais evitáveis” (WHO Heatwaves Report, 2023). Mas a humanidade, sempre teimosa, continua a comportar-se como se o calor fosse apenas um aborrecimento sazonal.

O planeta aquece, os oceanos fervem, os rios secam, as florestas ardem, as cidades cozinham  e, no entanto, a humanidade continua a discutir trivialidades. A ironia climática é profunda pois nunca tivemos tanta informação científica, tantos alertas, tantos relatórios, e nunca fomos tão lentos a agir.

Como escreveu James Hansen, “sabemos o que está a acontecer, sabemos porquê, e sabemos o que é preciso fazer mas não fazemos” (Storms of My Grandchildren, 2009). A frase, que deveria envergonhar governos e cidadãos, tornou-se um mantra da inércia global.

O fenómeno El Niño reforça-se, as temperaturas extremas multiplicam-se, e o planeta avança para um estado climático que os cientistas descrevem como “sem precedentes”. A expressão, repetida em relatórios, perdeu o impacto e tornou-se banal, como se o extraordinário fosse agora rotina.

O futuro climático não é uma incógnita; é uma certeza desconfortável. Os modelos científicos, longe de serem profecias místicas, são ferramentas rigorosas que apontam para um mundo mais quente, mais seco, mais instável. A humanidade, que sempre acreditou na sua capacidade de adaptação, enfrenta agora um desafio que não pode ser resolvido com improviso.

A temperatura da superfície do mar continuará a subir. As ondas de calor marinhas continuarão a destruir ecossistemas. As secas persistirão. Os incêndios intensificar-se-ão. Hong Kong e Macau continuarão a cozinhar os seus habitantes. E nós, espectadores involuntários, continuaremos a fingir que tudo isto é apenas uma fase.

Como escreveu Rachel Carson, “a humanidade faz parte da natureza, e a sua guerra contra a natureza é inevitavelmente uma guerra contra si própria” (Silent Spring, 1962). A frase, que deveria ser gravada em pedra, resume a tragédia climática contemporânea.

Bibliografia

Carson, R. (1962). Silent Spring. Boston: Houghton Mifflin.

Hansen, J. (2009). Storms of My Grandchildren. New York: Bloomsbury.

Pyne, S. (2001). Fire: A Brief History. Seattle: University of Washington Press.

Trenberth, K. (1997). The Definition of El Niño. Journal of Climate, 10(12), 2771–2777.

WHO. (2023). Heatwaves and Health. World Health Organization.

Copernicus Climate Change Service (C3S). (2026). Monthly Climate Bulletin. European Union.

Jorge Rodrigues Simão 2026