Há quem acredite, com a fé ingénua dos que ainda esperam cartas de amor pelo correio, que o clima é uma entidade ordeira, previsível, quase doméstica, que se comporta como um funcionário público diligente que entra às nove, sai às cinco, cumpre regulamentos e nunca se atrasa. Infelizmente, a atmosfera não leu o Estatuto dos Trabalhadores da RAEM, nem demonstra qualquer intenção de o fazer.

E assim surge El Niño, esse menino travesso que, longe de ser uma metáfora poética, é antes uma criança malcriada que decide brincar com os termóstatos do planeta. Como bem explicam Kevin E. Trenberth e David P. Stepaniak, na sua obra “The Influence of El Niño on Global Weather Patterns (2025)”, o fenómeno é “um reorganizador global da circulação atmosférica”, expressão que, traduzida para português corrente, significa: preparem-se, porque isto vai correr mal.

Trenberth e Stepaniak, com a paciência de dois professores que explicam pela centésima vez a diferença entre clima e tempo, descrevem El Niño como uma anomalia térmica no Pacífico equatorial que altera a circulação de Walker, desloca centros de convecção e redistribui energia pelo planeta como quem baralha cartas marcadas.

A ciência, coitada, tenta acompanhar. Publica gráficos, modelos, previsões, relatórios, tudo com a esperança de que o público compreenda que o clima não é uma novela mexicana com episódios semanais, mas sim uma ópera wagneriana onde cada nota dura três horas e o final é sempre trágico.

Mas o público, esse ente volúvel, prefere acreditar que El Niño é apenas uma desculpa conveniente para justificar o facto de estar calor em Janeiro ou frio em Agosto. E assim se perpetua a ignorância climatológica, essa epidemia silenciosa que não mata, mas emburrece.

Segundo Trenberth e Stepaniak (2025), El Niño provoca alterações profundas nos padrões de precipitação, temperatura e circulação atmosférica. A Austrália arde, a América do Sul inunda-se, a África alterna entre secas bíblicas e chuvas diluvianas, e a Europa sempre tão convencida da sua superioridade civilizacional descobre que afinal também é vulnerável às birras do Pacífico.

A ironia é deliciosa de um fenómeno que nasce num canto remoto do oceano tem o poder de transformar o planeta inteiro numa peça de teatro onde todos os actores improvisam, tropeçam e esquecem falas. A meteorologia torna-se, assim, uma arte performativa, e os meteorologistas, pobres almas, transformam-se em dramaturgos involuntários.

Se a ciência tenta compreender El Niño, a política tenta domesticá-lo. E fá-lo com a mesma eficácia com que um ministro tenta convencer a população de que um novo imposto é, na verdade, uma benção fiscal.

Os relatórios internacionais multiplicam-se, as conferências sucedem-se, os discursos inflamados ecoam pelos auditórios, e no fim, como sempre, nada acontece. A humanidade continua a emitir gases com a alegria de quem acende velas numa procissão, e El Niño continua a aquecer o Pacífico como quem aquece água para o chá.

A frase de Stephen Schneider, climatólogo de renome, ecoa com amarga pertinência: “Climate is a complex system, but political will is even more unpredictable.” A ciência prevê, a política adia, e o clima, indiferente, prossegue o seu caminho.

Os mercados financeiros, sempre tão sensíveis, reagem a El Niño como um hipocondríaco reage a uma dor de cabeça com pânico, dramatização e previsões apocalípticas.

As colheitas oscilam, os preços dos alimentos sobem, as cadeias de abastecimento tremem, e os analistas económicos escrevem relatórios onde a palavra “volatilidade” aparece com a frequência de um vício linguístico.

Trenberth e Stepaniak (2025) explicam que as alterações na precipitação e temperatura afectam directamente a produção agrícola, especialmente em regiões tropicais. Mas os economistas, sempre tão criativos, preferem culpar “tensões geopolíticas”, “instabilidade cambial” ou “choques externos”, como se o Pacífico equatorial fosse um detalhe irrelevante.

A imprensa, claro está, adora El Niño. É um fenómeno com nome exótico, fácil de pronunciar, e suficientemente misterioso para ser usado como explicação universal para qualquer evento meteorológico.

Choveu demasiado? El Niño. Não choveu nada? El Niño. Nevou em Abril? El Niño. O cabelo ficou frisado? El Niño.

A superficialidade mediática transforma um fenómeno complexo num chavão conveniente, e assim se perpetua a desinformação, essa praga moderna que se espalha mais depressa do que qualquer corrente oceânica.

A obra de Trenberth e Stepaniak (2025) é clara: El Niño não é um capricho, mas sim um mecanismo climático com impactos profundos e previsíveis. Mas a humanidade, sempre tão ocupada com trivialidades, prefere ignorar a evidência científica.

É como escreveu John Tyndall, pioneiro da física atmosférica, em 1861: “We may ignore, but we cannot evade the consequences of our actions.” A frase, escrita no século XIX, aplica-se com precisão cirúrgica ao século XXI.

Ignorar El Niño é ignorar o próprio planeta. E ignorar o planeta é, como se sabe, uma estratégia de sobrevivência tão eficaz quanto tentar apagar um incêndio com um copo de água.

El Niño é, em última análise, uma demonstração de poder. Não o poder humano, sempre tão frágil e efémero, mas o poder da natureza, essa entidade majestosa que não se impressiona com fronteiras, tratados ou discursos.

Trenberth e Stepaniak (2025) oferecem-nos uma análise rigorosa, detalhada e profundamente esclarecedora. Mas a humanidade, essa eterna criança, continua a acreditar que controla o clima.

A verdade, porém, é simples; o clima não nos pertence. Nunca pertenceu. E El Niño, com a sua ironia cósmica, faz questão de nos lembrar disso sempre que regressa.

Bibliografia

Trenberth, K. E., & Stepaniak, D. P. (2025). The Influence of El Niño on Global Weather Patterns. Journal of Climate, 39(2), 421–438.

Schneider, S. H. (1989). Global Warming: Are We Entering the Greenhouse Century? Sierra Club Books.

Tyndall, J. (1861). On the Absorption and Radiation of Heat by Gases and Vapours. Philosophical Magazine, 22, 169–194.

Philander, S. G. (1990). El Niño, La Niña, and the Southern Oscillation. Academic Press.

McPhaden, M. J., Zebiak, S. E., & Glantz, M. H. (2006). ENSO as an Integrating Concept in Earth Science. Science, 314(5806), 1740–1745.

Jorge Rodrigues Simão 2026