A Terra Treme, o País Desaba
O sismo que atingiu a Venezuela em 24 de Junho de 2026 não foi apenas um fenómeno geológico; foi uma sentença. A terra tremeu com magnitudes 7,2 e 7,5, segundo o United States Geological Survey (USGS), mas o país tremia há décadas não por razões sísmicas, mas por razões políticas, económicas e sociais. O duplo abalo, com apenas 39 segundos de intervalo, transformou a madrugada venezuelana numa ópera de ruína. O governo, que tantas vezes se habituou a maquilhar números, desta vez não conseguiu esconder a dimensão da tragédia com 6.301 mortos confirmados até 10 de Agosto, mais de 73 mil feridos e um país que, literalmente, perdeu pedaços de si. Como escreveu Ilan Kelman, “Disasters are not natural; they are the consequence of human vulnerability”. A Venezuela, nesse cálculo, contribuiu com uma vulnerabilidade tão profunda que qualquer sismo se transforma num epitáfio colectivo.
Os dois tremores ocorreram quando a maioria dos venezuelanos dormia ou tentava dormir, porque a eletricidade, como sempre, tinha decidido ausentar-se em vários estados. O primeiro abalo, de magnitude 7,2, atingiu a costa a oeste de Morón, a cerca de 168 km de Caracas, com profundidade de 22 km. O segundo, de magnitude 7,5, teve epicentro a 16 km a sudoeste de Morón, com profundidade de apenas 10 km. O USGS classificou o evento como “uma catástrofe de magnitude considerável”, e não exagerou pois 190 edifícios desabaram completamente, quase mil construções sofreram danos estruturais, e cidades inteiras ficaram irreconhecíveis. As réplicas mais de 20 nas primeiras horas mantiveram a população num estado de vigília permanente. A terra não tremeu apenas; vibrou como se estivesse a tentar libertar-se de um país que a sobrecarrega.
O Inventário da Tragédia: Mortos, Feridos e Escombros
Até 10 de Agosto de 2026, os números oficiais são os seguintes:
- 301 mortos,
- Mais de 73.000 feridos,
- Quase 50 dias de buscas contínuas,
- Possibilidade admitida pelo governo de ultrapassar 10.000 mortos,
- 500 mil toneladas de escombros recolhidas, representando 23% do total,
- 287 casas entregues a famílias afectadas,
- 31 mil imóveis libertados,
- Quase 10 mil ainda interditados por alto risco.
A tragédia não é apenas numérica; é humana. Cada número é uma vida, uma família, uma história interrompida. Como escreveu David Alexander em Natural Disasters (2023), “A catástrofe é sempre a soma da natureza com a incompetência humana”. A Venezuela, nesse cálculo, contribuiu generosamente com a incompetência.
A Geodinâmica da Tragédia: O País Sentado na Fronteira das Placas
A Venezuela encontra-se numa zona de interacção complexa entre a placa do Caribe e a placa Sul‑Americana. A falha de Boconó, parte do sistema de falhas de Mérida, é uma das mais activas da região. Segundo o Global Earthquake Model (GEM), actualizado em 2026, a Venezuela apresenta risco sísmico moderado a elevado, sobretudo na região andina. Os sismos de 24 de Junho foram resultado de movimentos de subducção e deslizamento lateral, típicos da interacção entre placas transformantes. A geologia não é culpada apenas cumpre o seu papel. Culpar a geologia seria como culpar o mar por ter ondas.
A Vulnerabilidade Estrutural: O País que Cai Antes de Tremer
A destruição foi agravada por factores humanos:
- Edifícios antigos, muitos construídos antes de qualquer código sísmico,
- Infra-estruturas frágeis,
- Falta de manutenção,
- Urbanização desordenada,
- Pobreza extrema,
- Falta de fiscalização,
- Corrupção estrutural.
- Construção informal
Como escreveu Ben Wisner em Vulnerability (2022), “A vulnerabilidade é o verdadeiro desastre”. Na Venezuela, o desastre estava instalado e o sismo apenas acendeu a luz.
A Resposta Governamental: Entre o Teatro e a Tragédia
O governo venezuelano respondeu com a habitual mistura de improvisação, propaganda e silêncio. A presidente apareceu na televisão com ar grave, prometendo reconstrução, solidariedade e “investigação das causas”. Investigar as causas de um sismo é como investigar as causas da chuva como um exercício de retórica para quem não quer investigar as causas da vulnerabilidade. A ajuda internacional foi recebida com desconfiança, filtrada por burocracias e condicionada por interesses políticos. O povo, como sempre, organizou-se melhor do que o Estado comvizinhos ajudaram vizinhos, igrejas abriram portas, voluntários improvisaram centros de acolhimento. A verdadeira protecção civil foi a civil, não a estatal.
O Eco Regional: A Colômbia Treme Também
Como se a geografia quisesse reforçar a lição, um sismo de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia em 10 de Agosto de 2026, deixando mais de 100 mortos e dezenas de feridos. Especialistas explicam que, apesar da proximidade geográfica e do curto intervalo de tempo entre os eventos, não há relação entre os sismos. Não existe qualquer fenómeno intensificando a ocorrência de tremores na América Latina. A explicação é simples; a região é um mosaico de placas tectónicas em constante movimento. A natureza não está zangada; está apenas a ser natureza.
As Previsões: O Que Esperar Depois de 2026
Segundo o USGS e o GEM, actualizados até Agosto de 2026, a Venezuela continuará a enfrentar risco sísmico relevante nas próximas décadas. As previsões incluem:
- Possibilidade de novos sismos moderados a fortes na região andina,
- Risco elevado de réplicas significativas,
- Probabilidade de eventos combinados (sismo + deslizamentos),
- Aumento da vulnerabilidade urbana,
- Crescimento desordenado das cidades,
- Infra-estruturas envelhecidas,
- Falta de investimento em prevenção.
A previsão não é profecia; é estatística. E a estatística, ao contrário da política, não mente.
O País que Treme Mesmo Quando a Terra Está Quieta
O sismo de 2026 foi uma tragédia natural, sim, mas foi sobretudo uma tragédia humana. A Venezuela tremeu porque a terra tremeu, mas tremeu também porque o país vive num estado permanente de instabilidade. A catástrofe não foi o sismo; foi a vulnerabilidade. O desastre não foi a natureza; foi a negligência. E a lição não é geológica; é política. Como escreveu Voltaire em Candide (1759), após o terramoto de Lisboa: “Il faut cultiver notre jardin.” A Venezuela, porém, não tem jardim mas sim ruínas.
Bibliografia
- United States Geological Survey (USGS). Earthquake Hazards Program.
- Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction 2023.
- Kelman, Ilan. Disaster by Choice. Oxford University Press, 2020.
- Wisner, Ben. Journal of Extreme Events, 2022.
- Alexander, David. Natural Disasters. Routledge, 2023.
- Global Earthquake Model (GEM). Global Seismic Hazard Map. 2021–2026 updates.
- Candide. 1759.
- Universidad de Los Andes. Centro Sismológico. Relatórios 2026.
- Servicio Geológico Colombiano. Boletines Sísmicos.
Jorge Rodrigues Simão 2026

