Há épocas históricas em que a realidade, cansada de ser ignorada, decide apresentar-se com a pompa e circunstância de um drama wagneriano. A França, esse velho palco de revoluções, barricadas e iluminismos, parece agora ter sido escolhida para a estreia mundial de uma ópera flamejante, onde o fogo desempenha o papel principal e os humanos, pobres figurantes, se limitam a correr de um lado para o outro, abanando mangueiras como quem tenta espantar o diabo com água benta. A ironia, sempre tão francesa, reside no facto de que, apesar de séculos de racionalismo cartesiano, o país se vê reduzido a admitir que os incêndios florestais poderão demorar “semanas ou meses” a ser extintos como se o tempo tivesse decidido aderir ao sindicalismo e recusasse trabalhar horas extraordinárias.
Segundo o The Guardian, que observa o drama com a fleuma britânica habitual, a preocupação aumenta à medida que o país se prepara para enfrentar mais uma onda de calor. A meteorologia, essa ciência que outrora se limitava a prever chuvas e trovoadas, tornou-se agora uma espécie de oráculo apocalíptico, anunciando temperaturas entre os 30ºC e os 39ºC, podendo chegar aos 40ºC no sudoeste francês. A França, que tanto se orgulha da sua gastronomia, parece prestes a transformar-se num gigantesco forno de lenha, onde os pinhais ardem como baguetes esquecidas.
Em declarações à rádio RTL, o tenente-coronel David Annotel, cuja serenidade militar contrasta com o cenário dantesco, afirmou que o incêndio na região de Gironde poderá manter-se activo durante um longo período antes de ser considerado totalmente extinto. A escolha da palavra “activo” é, aliás, deliciosa pois sugere que o fogo é um funcionário exemplar, dedicado, pontual, empenhado em cumprir metas e objectivos. Talvez por isso seja necessário recorrer a reforços provenientes de várias zonas do país como se a França estivesse a organizar um congresso nacional de bombeiros, onde cada corporação traz a sua especialidade, uns com mangueiras mais longas, outros com helicópteros mais teimosos.
Annotel recordou ainda o incêndio de Landiras, em 2022, explicando que, apesar de ter sido de menor dimensão, demorou vários meses a ser completamente extinto. A memória, essa velha senhora que nunca perde uma oportunidade de nos humilhar, regressa para lembrar que a natureza não se compadece com calendários administrativos. O oficial, com a gravidade de quem viu demasiado, admite que o cenário poderá repetir-se agora. E assim, a França, que tanto se orgulha da sua eficiência republicana, vê-se obrigada a reconhecer que o fogo não respeita decretos, despachos, nem reuniões de emergência presididas por Emmanuel Macron.
Macron, aliás, convocou uma dessas reuniões, certamente rodeado de assessores que abanam papéis e fazem gráficos, como se a burocracia tivesse o poder de extinguir chamas. A política, sempre tão convicta da sua importância, tenta agora enfrentar um adversário que não vota, não protesta e não se deixa convencer por discursos. O fogo, esse grande anarquista, não tem filiação partidária.
Enquanto a França arde, Espanha sofre. Os grandes incêndios florestais que atingem várias regiões do país vizinho mantêm-se activos, com especial preocupação na Serra Oeste, em Madrid, onde o vento esse velho cúmplice das tragédias dificulta os trabalhos de combate. O El País relata que o fogo consumiu cerca de 25 mil hectares, como se a natureza tivesse decidido fazer uma limpeza geral, eliminando tudo o que considera supérfluo. As operações de extinção concentram-se agora na zona da albufeira de San Juan, junto ao município de San Martín de Valdeiglesias, onde os bombeiros, heróis involuntários, lutam contra uma força que não se cansa, não dorme e não pede intervalo para almoço.
A Europa do Sul, outrora celebrada como destino turístico, parece ter sido reclassificada como zona de risco permanente. Os incêndios, que antes eram eventos sazonais, tornaram-se agora residentes permanentes, como hóspedes indesejados que se recusam a abandonar o hotel. A meteorologia confirma a previsão de uma nova onda de calor, a quarta desde o início do Verão, como se o clima tivesse decidido transformar-se numa série televisiva, cada episódio mais dramático do que o anterior.
A ironia oitocentista, sempre tão útil nestes momentos, permite-nos observar este cenário com o distanciamento necessário para não sucumbir ao desespero. Afinal, como escreveu Victor Hugo, “o futuro tem muitos nomes: para os fracos é o inalcançável, para os temerosos é o desconhecido, para os valentes é a oportunidade”. Infelizmente, no caso dos incêndios, o futuro parece ter apenas um nome; inevitável.
A França, que tanto se orgulha da sua tradição literária, poderia muito bem transformar esta tragédia num romance épico, onde o fogo é o vilão e os bombeiros os heróis. Mas a realidade, sempre tão pouco literária, insiste em lembrar-nos que não há narrativa que consiga suavizar a devastação. Os incêndios florestais são, como diria Émile Zola, “a verdade nua e crua”, sem adornos, metáforas e piedade.
A questão que se coloca, porém, é mais profunda: como chegámos aqui? Como é que sociedades que se consideram avançadas, modernas e civilizadas se vêem incapazes de controlar fenómenos que, embora devastadores, não são propriamente novos? A resposta, infelizmente, é tão simples quanto desconfortável: negligência, desinvestimento, falta de planeamento, e uma confiança ingénua na ideia de que a natureza é uma entidade dócil, pronta a obedecer às ordens humanas.
O fogo, esse velho professor, regressa agora para nos lembrar que a arrogância tem um preço. E que, por mais que tentemos ignorar, o clima mudou não por capricho, mas por consequência directa das escolhas humanas. Como escreveu o climatólogo Jean Jouzel, “a mudança climática não é uma previsão, é uma realidade observável” (Jouzel, 2018). E essa realidade manifesta-se agora em chamas que devoram florestas, aldeias, ecossistemas e memórias.
A Europa, que tanto se orgulha da sua união, enfrenta agora um inimigo comum que não respeita fronteiras. França e Espanha ardem, Portugal observa com o receio de quem conhece demasiado bem este tipo de tragédia, e o resto do continente assiste com a impotência de quem sabe que o problema não é local, mas global. Como afirmou o historiador Jared Diamond, “as sociedades colapsam quando não conseguem antecipar problemas, quando não conseguem perceber problemas, quando não conseguem tentar resolvê-los, ou quando não conseguem resolvê-los” (Diamond, 2005). A Europa, ao que parece, encontra-se algures entre a segunda e a terceira fase.
O tenente-coronel Annotel, com a sobriedade de quem não tem tempo para filosofias, resume tudo numa frase simples de que os próximos dois a três dias representam uma oportunidade para aproveitar condições meteorológicas mais favoráveis. A meteorologia, outrora uma ciência pacata, tornou-se agora uma espécie de árbitro cósmico, decidindo se os humanos terão ou não uma hipótese de lutar contra o fogo. É uma inversão curiosa pois durante séculos, tentámos dominar a natureza; agora, imploramos-lhe misericórdia.
E assim, a França prepara-se para enfrentar semanas ou meses de combate às chamas. O país, que tanto se orgulha da sua capacidade de resistência, vê-se agora confrontado com um adversário que não se cansa, não se rende e não negocia. O fogo não aceita tréguas. Não assina acordos. Não participa em conferências internacionais. Limita-se a existir e a consumir tudo o que encontra.
A Europa do século XXI, que tanto se imaginou como farol de progresso, descobre agora que o futuro pode muito bem ser uma versão actualizada do passado de um mundo onde a natureza, cansada de ser ignorada, decide reclamar o seu espaço. Como escreveu Mary Shelley, “nada é tão doloroso para a mente humana como uma grande e súbita mudança” (Shelley, 1818). E a mudança, infelizmente, não é súbita; é permanente.
Os incêndios florestais que assolam França e Espanha são mais do que tragédias isoladas, são sintomas de um problema maior, mais profundo e inquietante. São lembretes de que o clima mudou, de que a natureza está a reagir, e de que os humanos, por mais que tentem, não conseguem controlar tudo. A arrogância, essa velha companheira da civilização, revela-se agora como uma fraqueza.
E assim, enquanto as chamas devoram hectares, aldeias e memórias, resta-nos apenas observar, aprender e quem sabe mudar. Porque, como escreveu Montesquieu, “a natureza nunca engana; somos nós que nos enganamos sempre” (Montesquieu, 1748). E, neste caso, o engano pode muito bem custar-nos o futuro.
Bibliografia
Diamond, J. (2005). Collapse: How Societies Choose to Fail or Succeed. Viking Press.
Hugo, V. (1856). Les Contemplations. Paris: Pagnerre.
Jouzel, J. (2018). Le climat: la vérité sur le réchauffement. Éditions Tallandier.
Montesquieu. (1748). De l’esprit des lois. Genève: Barrillot & Fils.
Shelley, M. (1818). Frankenstein; or, The Modern Prometheus. Lackington, Hughes, Harding, Mavor & Jones.

