A Grande Ópera Telúrica
Há quem diga que o mundo moderno vive obcecado com índices bolsistas, criptomoedas e a última frivolidade tecnológica que promete substituir o cérebro humano por um algoritmo de bolso. Contudo, enquanto os povos se distraem com tais brinquedos luminosos, a Terra essa velha senhora de humor instável continua a lembrar-nos que, por baixo das nossas cidades, avenidas e democracias de papel, repousa um colosso geológico que não aprecia ser ignorado.
O século XXI, tão orgulhoso da sua racionalidade, assiste diariamente a uma espécie de liturgia sísmica em que a Venezuela treme como se estivesse em permanente sobressalto político; o Japão treme porque sempre tremeu; a Colômbia treme como se a cordilheira dos Andes tivesse crises existenciais; e a Indonésia treme porque vive sentada no trono do Anel de Fogo do Pacífico, essa corte infernal onde as placas tectónicas se digladiam como gladiadores romanos.
E nós, espectadores privilegiados, fingimos que tudo isto é normal, como quem observa um incêndio e comenta apenas que a chama tem uma cor bonita.
Venezuela: A Tragédia que se Repete
A Venezuela, país de beleza exuberante e de instabilidade política crónica, parece ter sido amaldiçoada por uma geologia que não conhece descanso. Os sismos que ali ocorrem não são meros abalos e são lembretes de que a natureza, ao contrário dos governos, não negocia. Segundo o United States Geological Survey (USGS), a região venezuelana está sujeita a frequentes eventos sísmicos devido à interacção entre a placa do Caribe e a placa Sul-Americana. Em 2024, o USGS registou mais de 1.200 eventos sísmicos na região, alguns com magnitudes superiores a 6.0, suficientes para transformar edifícios frágeis em ruínas instantâneas. A catástrofe produzida por cada grande sismo venezuelano é quase sempre a mesma com o colapso de infra-estruturas, falhas energéticas, interrupção de comunicações e um número de vítimas que oscila entre o trágico e o inaceitável. Como escreveu Ilan Kelman, “Disasters are not natural; they are the consequence of human vulnerability” (Disaster by Choice, 2020). Na Venezuela, a vulnerabilidade é quase uma política de Estado.
Japão: A Coreografia Perfeita da Catástrofe
Se a Venezuela treme por fragilidade, o Japão treme por vocação. O país ergueu-se sobre a intersecção de quatro placas tectónicas, como quem constrói uma biblioteca em cima de um vulcão e depois se orgulha da arquitectura. O Japão é o único país onde o desastre natural se tornou disciplina académica, prática cultural e exercício de civismo. O terramoto de Tōhoku, em 2011, com magnitude 9.1, permanece como uma das maiores tragédias da história moderna, tendo provocado um tsunami devastador e o acidente nuclear de Fukushima. Como escreveu o UNDRR no Global Assessment Report 2023, o Japão é simultaneamente “um laboratório de resiliência” e “um memorial vivo da vulnerabilidade humana”.
Os terramotos diários são tão comuns que os japoneses distinguem entre “os que valem a pena comentar” e “os que apenas abanam o chá”. A catástrofe produzida por cada grande evento é calculada com precisão matemática com perdas económicas bilionárias, deslocações populacionais e uma reconstrução que começa no dia seguinte, como se o país tivesse sido treinado para renascer todas as manhãs.
Colômbia: A Cordilheira que Respira
A Colômbia vive sob a sombra majestosa e inquieta dos Andes, cadeia montanhosa que, segundo David Alexander (Natural Disasters, 2023), é uma das regiões mais sísmicas do planeta. A placa de Nazca, sempre impaciente, empurra-se contra a placa Sul-Americana como dois vizinhos que disputam o mesmo pedaço de terra. Os terramotos colombianos produzem catástrofes que variam conforme a profundidade e a proximidade das zonas urbanas. Em 1999, o sismo de Armenia (magnitude 6.2) destruiu 80% da cidade e deixou mais de 1.800 mortos. A Colômbia, ao contrário do Japão, não possui uma cultura sísmica consolidada, e a vulnerabilidade estrutural é elevada. A cada novo abalo, o país parece acordar para a necessidade de reforçar infra-estruturas e logo adormece novamente, embalado pela ilusão de que a cordilheira não voltará a reclamar o que é seu.
Indonésia: O Trono do Anel de Fogo
A Indonésia é o epicentro do drama geológico mundial. Situada no Anel de Fogo do Pacífico, região responsável por 90% dos sismos do planeta, o país vive numa espécie de roleta russa tectónica. O terramoto de Sumatra, em 2004, com magnitude 9.1, gerou o tsunami mais mortal da história contemporânea, causando mais de 230.000 mortes em vários países. Como recorda Ben Wisner, “Vulnerability is the real disaster” (Vulnerability, 2022). Na Indonésia, a vulnerabilidade é amplificada por densidade populacional, pobreza estrutural e infra-estruturas frágeis. Cada grande sismo indonésio produz catástrofes que combinam destruição física, perdas humanas e deslocações massivas. O país vive numa permanente reconstrução, como se fosse condenado a repetir o mesmo capítulo da história.
Previsões: Os Países Mais Ameaçados
Segundo o USGS e o UNDRR, os países mais ameaçados por grandes eventos sísmicos nas próximas décadas incluem:
- Japão – risco extremo devido à convergência de placas.
- Indonésia – risco extremo por localização no Anel de Fogo.
- Chile – risco muito elevado pela subducção da placa de Nazca.
- Turquia – risco elevado pela falha da Anatólia.
- México – risco elevado pela interacção entre placas Cocos e Americana.
- Irão – risco elevado devido a múltiplas falhas activas.
A previsão não é profecia, mas estatística onde as placas se encontram, o chão dança.
VII. Espanha, Portugal e Macau: A Tranquilidade Ilusória
Espanha
Espanha vive numa zona de risco moderado, mas não negligenciável. A falha de Granada e a região de Múrcia têm histórico sísmico relevante. O sismo de Lorca, em 2011 (magnitude 5.1), demonstrou que mesmo eventos moderados podem causar danos significativos quando a construção não é adequada.
Portugal
Portugal, sempre orgulhoso da sua serenidade atlântica, esquece que Lisboa foi palco do maior desastre sísmico da Europa moderna, o terramoto de 1755, estimado entre 8.5 e 9.0. Como escreveu Voltaire em Candide, “Lisboa, que não é mais que ruínas”. O risco permanece, sobretudo na região de Lisboa e Algarve, devido à interacção entre a placa Euroasiática e a placa Africana.
Macau
Macau, por sua vez, vive numa zona de risco sísmico baixo a moderado. Contudo, como recorda os Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau, a região não está isenta de abalos provenientes de zonas sísmicas próximas, como Taiwan e o sul da China. A vulnerabilidade estrutural, aliada à densidade populacional, torna Macau mais frágil do que os mapas sugerem.
O Mundo que Treme e os Povos que Fingem Estabilidade
O planeta treme, e nós trememos com ele uns mais, outros menos. A Venezuela treme por fragilidade; o Japão por inevitabilidade; a Colômbia por geografia; a Indonésia por destino. Espanha, Portugal e Macau vivem entre a tranquilidade aparente e o risco latente. A Terra continuará a mover-se, como sempre fez. A questão é saber se nós, criaturas de ambição desmedida e memória curta, aprenderemos finalmente que a catástrofe não é o sismo, mas a negligência.
Bibliografia
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- United Nations Office for Disaster Risk Reduction (UNDRR). Global Assessment Report on Disaster Risk Reduction 2023. Genebra: ONU. Disponível em: https://www.undrr.org
- Kelman, Ilan. Disaster by Choice: How Our Actions Turn Natural Hazards into Catastrophes. Oxford: Oxford University Press, 2020.
- Wisner, Ben; Gaillard, J.C.; Kelman, Ilan (eds.). The Routledge Handbook of Hazards and Disaster Risk Reduction. Londres: Routledge, 2022.
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- Kanamori, Hiroo. “The Nature of Seismicity and Earthquake Prediction.” Proceedings of the National Academy of Sciences, vol. 93, n.º 9, 1996, pp. 3726–3733.
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- Candide ou l’Optimisme. Genebra, 1759.
- Bilham, Roger; Wallace, Terry. “The 2004 Sumatra-Andaman Earthquake.” Nature, vol. 434, 2005, pp. 163–168.
- Nishenko, S.P. “Earthquake Hazard and Prediction in the Circum-Pacific Region.” Journal of Geophysical Research, vol. 94, 1989, pp. 195–217.
- Pararas-Carayannis, George. “The Great Sumatra Earthquake and Tsunami of 26 December 2004.” Science of Tsunami Hazards, vol. 23, n.º 1, 2005, pp. 3–88.
- Instituto Colombiano de Geología y Minería (INGEOMINAS). Boletines Sísmicos. Bogotá: Ministério de Minas e Energia.
- Japan Meteorological Agency (JMA). Seismic Activity Reports. Tóquio: Governo do Japão. Disponível em: https://www.jma.go.jp
- Global Earthquake Model (GEM). Global Seismic Hazard Map. Pavia: GEM Foundation, 2021. Disponível em: https://www.globalquakemodel.org
Jorge Rodrigues Simão 2026

