Há quem diga que o mundo se tornou um vasto salão de espelhos, onde cada civilização se contempla narcisicamente, incapaz de ver o outro senão como reflexo deformado de si mesma. É neste cenário de vaidades globais que surge o Simpósio do Fórum Global da Humanidade, anunciado pelo China Daily como um conclave de almas bem-intencionadas, dispostas a salvar o planeta através do diálogo humanista, essa palavra tão bela quanto gasta, que serve de perfume para encobrir o odor acre das divisões civilizacionais. O evento, que terá lugar em Macau nos dias 3 e 4 de Dezembro, promete reunir Ban Ki-moon, antigos líderes políticos, académicos, artistas e empresários num total de quinhentos participantes. Uma verdadeira Babel de boas intenções, onde cada orador se esforçará por provar que a humanidade ainda tem salvação, desde que se ouça o seu discurso.

I. O Humanismo em Conferência

A conferência de imprensa em Pequim foi um desfile de declarações luminosas. Shi Baofeng, um dos organizadores, garantiu que o fórum criará “uma nova plataforma para o intercâmbio humanístico global”. A frase, tão redonda quanto uma moeda nova, poderia figurar num manual de retórica diplomática. Mas o humanismo, esse velho conceito que serviu de bengala a filósofos e de adorno a políticos, parece hoje reduzido a protocolo. Como escreveu Tzvetan Todorov em La peur des barbares (2008), “o humanismo não é uma doutrina, mas uma atitude, a de reconhecer no outro um ser humano igual a nós”. Ora, se o humanismo é atitude, não se decreta em simpósios; pratica-se nas ruas, nas escolas, nas fronteiras, nos hospitais e nas prisões. Em Macau, o humanismo será discutido entre taças de chá e flashes de câmaras. O tema oficial é a “Beleza do Mundo, Harmonia em Diversidade” soa a verso de almanaque, desses que se recitam em cerimónias para disfarçar o vazio das ideias. A harmonia, dizem, é o novo nome da diplomacia; e a diversidade, o novo nome da desigualdade.

II. A Janela de Macau

Wu Zhiliang, presidente da Fundação Macau, declarou que “Macau tem servido, desde há muito, como uma janela para o intercâmbio entre as civilizações orientais e ocidentais”. A metáfora é feliz e uma janela é o lugar por onde se olha sem sair, e também por onde se entra sem pedir licença. Durante quatro séculos, Macau foi precisamente isso; uma janela aberta sobre o mundo, por onde passaram missionários, mercadores, marinheiros e contrabandistas. Hoje, essa janela abre-se para a Grande Baía, onde o progresso se mede em arranha-céus e índices de produtividade.

Mas há janelas que se fecham por excesso de luz. A integração entre o Oriente e o Ocidente, celebrada como exemplo de coexistência, corre o risco de se tornar vitrina bela, mas inacessível. Como advertia Edward Said em Culture and Imperialism (1993), “o diálogo entre culturas só é possível quando se reconhece o poder que molda esse diálogo”. Macau, entre Pequim e Lisboa, entre Confúcio e Camões, é o palco ideal para essa ironia de uma cidade que simboliza a fusão das civilizações, mas que vive sob o peso das suas hierarquias.

III. O Fórum e as Suas Promessas

O Fórum Global da Humanidade promete cinco sub‑fóruns paralelos como juventude, mulheres na liderança, cultura, economia e sustentabilidade. Cada um deles será um microcosmo de boas intenções, onde se repetirão as mesmas palavras  de inclusão, diversidade, cooperação, futuro. O problema é que o futuro, como lembrava Hannah Arendt em The Human Condition (1958), “não é algo que se espera, mas algo que se constrói”. E construir exige mais do que discursos; exige coragem para enfrentar o presente. A presença de Ban Ki-moon, antigo secretário-geral das Nações Unidas, confere ao evento o selo da respeitabilidade global. Mas também recorda o paradoxo das instituições internacionais de quanto mais falam de humanidade, menos conseguem agir sobre ela. O humanismo institucional é como um medicamento homeopático inócuo, mas reconfortante.

IV. Civilizações em Divórcio

O mundo atravessa uma era de divisões civilizacionais. O Ocidente, cansado de si próprio, procura redenção nas filosofias orientais; o Oriente, orgulhoso do seu renascimento, procura legitimação nas categorias ocidentais. Entre ambos, o diálogo é uma dança de máscaras. Como escreveu Samuel Huntington em The Clash of Civilizations (1996), “as grandes divisões da humanidade e as fontes de conflito serão culturais”. A profecia cumpre-se com precisão inquietante com guerras religiosas, nacionalismos identitários, populismos digitais. O humanismo, outrora ponte, tornou-se miragem. E, no entanto, há quem insista em reconstruir essa ponte. O Fórum de Macau pretende ser o canteiro dessa obra. Mas será possível erguer uma ponte sobre um abismo de desconfiança? Yuval Noah Harari, em Sapiens: A Brief History of Humankind (2014), lembra que “a cooperação humana depende de ficções partilhadas”. Talvez o humanismo seja apenas isso, uma ficção útil, um mito civilizacional que nos impede de devorar uns aos outros.

V. A Beleza do Mundo e a Ironia da Harmonia

O lema do simpósio “Beleza do Mundo, Harmonia em Diversidade” é uma dessas frases que parecem ter sido escritas por um comité de poetas burocráticos. A beleza do mundo, dizem, reside na diversidade; mas a diversidade, quando institucionalizada, perde a beleza e ganha regulamento. A harmonia, por sua vez, é conceito ambíguo. Para Confúcio, em Analectos, “a harmonia é o caminho do meio entre o excesso e a carência”. Para os modernos, é o nome que se dá à uniformidade disfarçada. O mundo harmonioso é aquele onde todos pensam diferente, mas agem igual. Macau, com os seus templos e casinos, as suas igrejas e avenidas, é metáfora perfeita dessa harmonia paradoxal. A cidade vive entre o incenso e o néon, entre o silêncio dos claustros e o ruído das roletas. É o laboratório da coexistência ou, se quisermos ser mordazes, o parque temático da tolerância.

VI. O Humanismo como Indústria

O Fórum é organizado por instituições como a Fundação Ban Ki-moon, a Phoenix Network, a Aliança Global das PME e a Humanity Assembly. A lista soa a catálogo de virtudes corporativas. O humanismo tornou-se indústria que produz relatórios, conferências, declarações e hashtags. Como observou Byung-Chul Han em The Expulsion of the Other (2018), “a sociedade contemporânea não tolera o outro; apenas o consome”. O humanismo de mercado é precisamente isso, uma forma de consumo simbólico, onde o outro é convidado a participar desde que não perturbe o equilíbrio das marcas. O Fórum Global da Humanidade é, pois, uma feira de ideias bem embaladas. Cada participante trará o seu discurso como quem traz um produto para exposição. No final, será divulgada uma declaração de valores partilhados que é um documento que, como todos os documentos de boas intenções, será lido, aplaudido e esquecido.

VII. Macau como Alegoria

Macau é o cenário ideal para esta encenação. Cidade de fronteiras e fusões, de santos e mandarins, de igrejas barrocas e templos taoistas, de ruas estreitas e avenidas futuristas. Wu Zhiliang afirmou que “os mais de 400 anos de integração cultural entre o Oriente e o Ocidente constituem um exemplo vívido de coexistência entre civilizações”. A frase é verdadeira, mas também irónica de que coexistência não é fusão, é convivência e esta implica conflito. Como lembrava Michel Foucault em Les mots et les choses (1966), “a história não é uma sucessão de verdades, mas de sistemas de pensamento”. Macau é precisamente isso; um sistema de pensamento em permanente mutação, onde o passado colonial e o presente chinês se entreolham com curiosidade e desconfiança. O Fórum da Humanidade, ao escolher Macau, escolhe um símbolo. Mas os símbolos, quando demasiado polidos, perdem o poder de ferir e sem ferida não há reflexão.

VIII. O Diálogo Humanista: Ponte ou Espelho?

A questão central “será que existe espaço para que o diálogo humanista sirva de ponte para atravessar diferenças fracturantes entre povos?” é tão nobre quanto desesperada. O mundo, esse velho teatro de tragédias, parece ter substituído as pontes por muros e os diálogos por monólogos. Cada civilização fala consigo mesma, convencida de que o eco é resposta. O Fórum de Macau tenta contrariar essa tendência, mas corre o risco de se tornar espelho em vez de ponte. O humanismo, quando institucionalizado, tende a reflectir apenas o rosto de quem o proclama. Como advertia Umberto Eco em Apocalittici e Integrati (1964), “a comunicação de massas transforma o diálogo em espectáculo”. O Fórum, com os seus holofotes e declarações, é precisamente isso; um espectáculo da virtude. O humanismo verdadeiro é incómodo. Não cabe em comunicados nem em slogans. É o gesto de quem escuta o outro sem o converter em estatística. É o olhar que reconhece a dor alheia sem pedir contrapartida. Mas esse humanismo não tem patrocinadores nem logótipos; vive nas margens, nos interstícios, nos lugares onde o poder não chega.

IX. A Ironia das Boas Intenções

O Fórum Global da Humanidade é, sem dúvida, um esforço meritório. Mas há algo de deliciosamente irónico na ideia de reunir quinhentas pessoas para discutir a humildade da espécie humana. É como organizar um banquete para celebrar a frugalidade. A retórica da “aprendizagem mútua entre civilizações” soa bem, mas raramente se traduz em prática. O intercâmbio cultural, quando mediado por instituições, tende a ser unilateral; uns ensinam, outros aprendem; uns falam, outros ouvem. Como observou Claude Lévi-Strauss em Race et Histoire (1952), “a diversidade das culturas é menos um obstáculo do que uma condição da sua coexistência”. O problema é que o mundo contemporâneo prefere a uniformidade mais fácil de gerir, mais rentável de vender. Macau, com a sua história de fusões e fricções, poderia oferecer lições preciosas sobre convivência. Mas o risco é que o Fórum transforme essa experiência viva em museu de boas intenções. A coexistência não se exibe; pratica-se.

X. Entre Ban Ki-moon e Confúcio

A presença de Ban Ki-moon confere ao evento uma aura de honorabilidade global. O antigo secretário-geral das Nações Unidas é símbolo de diplomacia paciente, mas também de impotência institucional. Sob o seu mandato, o mundo multiplicou conferências, mas não reduziu guerras. O Fórum Boao para a Ásia, que Ban Ki-moon preside, é exemplo dessa diplomacia de salão elegante, cortês, mas inócua. Como diria George Orwell em Politics and the English Language (1946), “a linguagem política é desenhada para fazer parecer verdadeiras as mentiras e respeitáveis os assassinatos”. O humanismo, quando se torna linguagem política, corre o mesmo risco. Confúcio, se pudesse assistir ao simpósio, talvez sorrisse com ironia. No Livro das Sentenças, escreveu: “O homem superior é modesto nas palavras e exuberante nas acções.” O Fórum, infelizmente, parece seguir o caminho inverso.

XI. A Beleza do Mundo e o Cinismo das Civilizações

“Beleza do Mundo, Harmonia em Diversidade” o lema do Fórum poderia ser bordado em seda e pendurado nas paredes do Palácio das Nações. Mas a beleza do mundo, se existe, é trágica. Como escreveu Albert Camus em L’Homme Révolté (1951), “a beleza sem revolta é apenas adorno”. O Fórum celebra a harmonia, mas evita a revolta; celebra a diversidade, mas teme o conflito. É o humanismo domesticado, que prefere o consenso à verdade. O mundo contemporâneo não precisa de mais harmonia; precisa de dissonância lúcida. Precisa de vozes que desafiem o coro, de ideias que incomodem os protocolos. O diálogo humanista só será ponte se aceitar o risco da discordância. Caso contrário, será apenas passarela bela, mas inútil.

XII. Macau, Laboratório da Contradição

Macau é o palco ideal para esta ironia universal. Cidade de contrastes, onde o passado colonial convive com o futuro chinês, onde o latim das igrejas ecoa ao lado dos cânticos budistas. Wu Zhiliang afirmou que “Macau ilumina não só os holofotes da actualidade, mas também serve de farol para a aprendizagem mútua entre civilizações”. A frase é poética, mas o farol, por definição, ilumina de longe. Serve para orientar os que estão fora, não os que habitam dentro. Macau é farol e espelho pois reflecte o mundo e o guia, mas também o seduz. É o laboratório da coexistência, mas também o palco da contradição. A cidade prova que o diálogo entre civilizações é possível desde que se aceite que o conflito é parte da conversa.

XIII. O Humanismo e a Sua Frágil Arquitectura

O diálogo humanista, tão celebrado nos corredores do Fórum, é como uma ponte construída com fios de seda belo, delicado, e perigosamente insuficiente para suportar o peso das tensões globais. A pergunta que lançou o simpósio se ainda existe espaço para que o humanismo atravesse as fracturas civilizacionais é, em si mesma, um reconhecimento tácito de que o mundo se tornou um arquipélago de incompreensões. O humanismo, outrora força motriz de renascimentos e revoluções, parece hoje reduzido a ornamento conceptual. Como escreveu Paul Ricoeur em Soi-même comme un autre (1990), “a identidade só se constrói na relação com o outro”. Mas o mundo contemporâneo, saturado de algoritmos e polarizações, prefere identidades sem relação, culturas sem contacto, civilizações sem curiosidade. O Fórum tenta contrariar esta tendência, mas fá-lo com a candura de quem tenta apagar um incêndio com um copo de água. Macau, com a sua história de encontros improváveis, oferece o cenário ideal para esta tentativa. Mas a cidade, que outrora foi laboratório de convivência, corre o risco de se tornar apenas palco e neste, como sabemos, a verdade é sempre secundária ao espectáculo.

XIV. O Teatro das Civilizações

O simpósio promete reunir antigos líderes políticos, académicos, artistas e empresários. Uma verdadeira assembleia de notáveis, cada qual trazendo a sua visão do mundo como quem traz uma peça para completar um puzzle universal. Mas o puzzle, infelizmente, não tem imagem final. Cada civilização insiste em ser a figura central, recusando ocupar as margens. O resultado é um mosaico incompleto, onde as peças não encaixam porque não querem encaixar. Como observou Zygmunt Bauman em Liquid Modernity (2000), “a modernidade líquida dissolve os vínculos antes que possam solidificar-se”. O diálogo humanista, nesse contexto, é tentativa de solidificação mas as palavras escorrem como água entre os dedos. O Fórum, com os seus cinco sub‑fóruns paralelos, tenta organizar o caos. Juventude, mulheres, cultura, economia, sustentabilidade cada tema é uma ilha de boas intenções. Mas o arquipélago permanece disperso, porque falta o continente que é a vontade política de transformar discursos em acção.

XV. A Declaração da Humanidade e o Seu Destino

No final do simpósio, será divulgada uma declaração de valores partilhados. Documento solene, redigido com a elegância habitual das diplomacias modernas, onde cada palavra será cuidadosamente escolhida para não ofender ninguém e, por isso mesmo, para não significar nada. As declarações internacionais são como as antigas bulas papais que proclamam verdades universais que ninguém cumpre. Como escreveu Karl Popper em The Open Society and Its Enemies (1945), “a tolerância ilimitada conduz ao desaparecimento da tolerância”. O Fórum, ao proclamar tolerância universal, corre o risco de a esvaziar de sentido. A humanidade não precisa de mais declarações; precisa de coragem. Coragem para reconhecer que o diálogo não é ponte, mas travessia e que esta exige esforço, risco e desconforto. O humanismo, quando verdadeiro, sempre incómodo. A declaração de valores partilhados pela humanidade será um documento, redigido com zelo diplomático, que proclamará a paz, a tolerância, a cooperação e a esperança. E depois? Depois virá o silêncio. As declarações são como fogos-de-artifício que iluminam o céu por instantes e desaparecem. O verdadeiro diálogo humanista não se escreve em papel timbrado; constrói-se na persistência quotidiana. Como lembrava Ernst Cassirer em An Essay on Man (1944), “o homem é um animal simbólico”. O Fórum é símbolo e como todo símbolo, corre o risco de substituir a realidade que pretende representar. O humanismo não precisa de fóruns; precisa de humanidade.

XVII. Macau: Entre o Farol e o Espelho

Wu Zhiliang descreveu Macau como “farol para a aprendizagem mútua entre civilizações”. A metáfora é bela, mas o farol, por definição, ilumina o mar, não a terra. Serve para orientar os que chegam, não os que habitam. Macau é farol, mas também espelho que reflecte o mundo e devolve-lhe a imagem, por vezes distorcida, das suas contradições. A cidade é exemplo vivo de coexistência mas esta não é harmonia; é negociação permanente. Como escreveu Georg Simmel em The Sociology of Conflict (1903), “o conflito é forma de socialização tão essencial quanto a cooperação”. Macau, com os seus 400 anos de fusão cultural, é prova disso de que coexistência não se constrói pela eliminação das diferenças, mas pela sua gestão inteligente. O Fórum, ao escolher Macau, escolhe símbolo poderoso. Mas símbolos, quando demasiado polidos, perdem a capacidade de ferir  e sem ferida não há reflexão.

XVIII. O Humanismo e a Máquina do Mundo

O mundo contemporâneo é máquina complexa, movida por interesses económicos, rivalidades geopolíticas e algoritmos que moldam percepções. O humanismo, nesse contexto, é como flor plantada entre engrenagens; bela, mas vulnerável.Como escreveu Jürgen Habermas em The Theory of Communicative Action (1981), “a racionalidade comunicativa só floresce quando o mundo da vida não é colonizado pelos sistemas”. O Fórum tenta precisamente libertar o diálogo das colonizações do poder. Mas o poder, como sabemos, é persistente. Entra pelas frestas, infiltra-se nos discursos, molda agendas. O humanismo institucional é sempre negociado e, por isso, sempre incompleto.

XIX. A Ponte Possível

Apesar de toda a ironia, há algo de profundamente humano nesta insistência em reunir civilizações para conversar. O Fórum Global da Humanidade é acto de fé esta, mesmo quando ingénua, é força que move montanhas. O diálogo humanista pode não ser ponte perfeita, mas pode ser travessia possível. Como escreveu Octavio Paz em El laberinto de la soledad (1950), “o diálogo é ponte que une o que está separado, mas também é espaço onde se reconhece a separação”. O Fórum não resolverá as divisões civilizacionais, mas poderá iluminá-las. E iluminar, num mundo de sombras, já é gesto de coragem. Macau, com a sua história de encontros improváveis, continua a ser metáfora viva da coexistência. Entre o incenso e o néon, entre o passado e o futuro, entre o Oriente e o Ocidente, a cidade lembra-nos que o diálogo, mesmo imperfeito, é sempre melhor do que o silêncio

XX. A Ironia da Esperança

Apesar de tudo, há algo de comovente nesta insistência em acreditar. O Fórum Global da Humanidade é, afinal, um acto de fé e esta, mesmo quando ingénua, é preferível ao cinismo absoluto. O mundo precisa de quem ainda acredite na possibilidade de diálogo, mesmo que o diálogo seja imperfeito. Como escreveu Vaclav Havel em The Power of the Powerless (1978), “a esperança não é a convicção de que algo vai correr bem, mas a certeza de que algo faz sentido”. Macau, com a sua história de encontros improváveis, oferece precisamente isso; sentido. Entre o Oriente e o Ocidente, entre o passado e o futuro, entre o pragmatismo e a utopia, a cidade continua a ser metáfora viva da coexistência. O Fórum poderá não mudar o mundo, mas recorda-nos que o mundo ainda pode ser pensado e num tempo de ruído e pressa, é um gesto humanista.

Bibliografia

  • Todorov, TzvetanLa peur des barbares: Au-delà du choc des civilisations. Paris: Robert Laffont, 2008.
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  • Havel, VaclavThe Power of the Powerless. London: Routledge, 1978.
  • Han, Byung-ChulThe Expulsion of the Other. Berlin: Matthes & Seitz, 2018.