A participação de Macau na arquitectura institucional da Cooperação Económica Ásia‑Pacífico tem adquirido, nos últimos anos, uma relevância particular, não apenas pela sua posição histórica enquanto ponto de contacto entre civilizações, mas também pela capacidade de adaptação a novas dinâmicas regionais. A realização da 13.ª Reunião Ministerial do Turismo da APEC no território, após um intervalo de mais de uma década, constituiu um momento de afirmação política e diplomática para a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), evidenciando a confiança do Governo Central na sua função de plataforma entre o Oriente e o Ocidente. Este enquadramento, longe de ser meramente simbólico, reflecte uma estratégia de integração económica que procura articular inovação digital, cooperação multilateral e desenvolvimento turístico sustentável.
A centralidade de Macau no diálogo Ásia‑Pacífico decorre de uma sedimentação histórica que lhe confere uma identidade singular. Ao longo de séculos, o território consolidou‑se como ponto de passagem, intercâmbio e mediação cultural, económica e jurídica. Esta herança, frequentemente evocada em discursos oficiais, não é apenas um elemento de memória colectiva, mas um recurso político mobilizado para reforçar a legitimidade de Macau enquanto espaço de encontro entre modelos institucionais distintos. A referência à cidade como “elo de ligação” e “trampolim” para o Interior da China traduz uma visão estratégica que procura posicionar Macau como interface entre economias avançadas e mercados emergentes, articulando a sua dimensão histórica com os objectivos contemporâneos de integração regional.
A reunião ministerial deste ano, dedicada ao tema “Inovação Digital, Empoderamento Colaborativo: Alavancando o Turismo para uma Comunidade da Ásia‑Pacífico”, inscreve‑se num contexto global marcado por transformações profundas no sector turístico. A digitalização das cadeias de valor, a emergência de plataformas colaborativas e a necessidade de diversificação dos fluxos turísticos exigem novas formas de cooperação entre economias com níveis de desenvolvimento heterogéneos. Macau, com a sua experiência consolidada na indústria de convenções e exposições, na gastronomia e na gestão integrada de destinos, apresenta‑se como laboratório privilegiado para testar soluções que combinam tecnologia, cultura e políticas públicas orientadas para a sustentabilidade.
A ausência de alguns membros relevantes da APEC, incluindo os Estados Unidos, não diminuiu o significado político do encontro. Pelo contrário, reforçou a percepção de que a RAEM possui capacidade própria para acolher eventos internacionais de grande escala, assegurando condições logísticas, protocolares e diplomáticas adequadas. A realização da reunião, num momento de reconfiguração das alianças regionais, permitiu a Macau reafirmar a sua vocação de plataforma multilateral, mesmo não sendo membro formal da organização. Esta posição singular de anfitrião sem estatuto de membro confere ao território uma margem de manobra particular, permitindo‑lhe actuar como espaço neutro de diálogo e como ponto de convergência entre interesses diversos.
A cooperação entre Macau e a Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin constitui um dos pilares desta estratégia. A articulação entre ambas as jurisdições visa criar um ecossistema económico integrado, capaz de atrair investimento, promover inovação e diversificar a base produtiva. A aposta em sectores como o turismo cultural, a economia digital, a saúde e as indústrias de alta tecnologia reflecte uma visão de desenvolvimento que procura reduzir a dependência de actividades tradicionais e reforçar a competitividade regional. A utilização de Macau e Hengqin como “trampolim” para o Interior da China traduz uma lógica de complementaridade institucional, na qual a RAEM oferece abertura internacional e Hengqin disponibiliza espaço físico e capacidade industrial.
A reunião entre o Chefe do Executivo e o director‑executivo do Secretariado da APEC, Eduardo Navarro Pedrosa, reforçou esta orientação. A disponibilidade manifestada para que as economias‑membro utilizem plenamente a plataforma de Macau evidencia uma estratégia de diplomacia económica que procura transformar o território num ponto de entrada para a Grande Baía Guangdong‑Hong Kong‑Macau. Esta região, considerada uma das mais dinâmicas do mundo, constitui um mercado de enorme potencial, cuja integração exige mecanismos de coordenação institucional, infra‑estruturas adequadas e políticas de facilitação de investimento. Macau, pela sua natureza híbrida, pode desempenhar um papel decisivo na construção de pontes entre diferentes sistemas económicos.
A dimensão cultural e simbólica do território foi igualmente destacada. A evocação de Macau como cidade construída na sedimentação de culturas orientais e ocidentais não é apenas um exercício retórico, mas uma forma de sublinhar a sua capacidade de acolher diversidade e de transformar essa diversidade em valor económico e diplomático. O património mundial, a gastronomia reconhecida internacionalmente e a tradição de abertura constituem activos estratégicos que reforçam a atractividade do território. A capacidade de Macau para integrar modernidade e tradição, tecnologia e cultura, constitui um elemento diferenciador num mercado turístico global cada vez mais competitivo.
A morte de Miguel Bailote, figura relevante da vida política e administrativa de Macau, ocorreu num momento de intensa actividade institucional. Embora não relacionada directamente com a reunião da APEC, a notícia teve impacto na esfera pública, recordando o papel desempenhado por actores locais na construção da vida política da RAEM. Bailote, com percurso que atravessou a administração pública, o ensino e a actividade partidária, representa uma geração de quadros que contribuíram para a consolidação das instituições da RAEM após a transferência de soberania. A sua morte, aos 55 anos, constitui perda significativa para sectores que dependem de conhecimento técnico e experiência acumulada.
O encontro ministerial da APEC permitiu também reforçar a imagem de Macau como destino turístico de excelência. A atractividade do território, destacada por Eduardo Pedrosa, assenta numa combinação de factores como infra‑estruturas modernas, oferta diversificada, capacidade de organização de eventos internacionais e integração de elementos culturais únicos. A gastronomia, reconhecida como património imaterial, constitui um dos pilares desta atractividade, funcionando como elemento de diferenciação num mercado global saturado. A indústria de convenções e exposições, por sua vez, tem sido alvo de investimentos significativos, permitindo a Macau competir com destinos regionais consolidados.
A digitalização do turismo, tema central da reunião, representa um desafio e uma oportunidade para Macau. A adopção de tecnologias emergentes como inteligência artificial, big data, plataformas colaborativas pode transformar a forma como o território gere fluxos turísticos, optimiza recursos e melhora a experiência dos visitantes. A integração de sistemas inteligentes de gestão urbana, a criação de plataformas digitais de promoção turística e o desenvolvimento de soluções de mobilidade sustentável constituem áreas prioritárias para o futuro. A capacidade de Macau para se posicionar como destino inteligente depende da articulação entre políticas públicas, investimento privado e cooperação internacional.
A reunião ministerial, marcada pelo cancelamento da conferência de imprensa final, decorreu num ambiente de elevada sensibilidade diplomática. A ausência de declarações públicas não diminuiu a importância dos encontros bilaterais realizados à margem do evento, nos quais foram discutidas oportunidades de cooperação, projectos conjuntos e estratégias de integração regional. Estes encontros, muitas vezes discretos, desempenham papel fundamental na construção de redes de confiança e na definição de agendas comuns entre economias com interesses divergentes.
A RAEM, ao acolher novamente a reunião após doze anos, reafirmou a sua capacidade de organização e a sua relevância na arquitectura regional. A confiança demonstrada pelo Governo Central, frequentemente mencionada nos discursos oficiais, traduz uma visão estratégica que atribui a Macau papel específico na política externa chinesa como o de plataforma de ligação, espaço de diálogo e ponto de entrada para mercados internacionais. Esta função, longe de ser meramente protocolar, exige capacidade de adaptação, visão de longo prazo e investimento contínuo em sectores estratégicos.
A integração de Macau na dinâmica da Grande Baía e na cooperação Ásia‑Pacífico constitui, assim, um processo em evolução, marcado por desafios e oportunidades. A necessidade de diversificação económica, a aposta na inovação digital e a valorização do património cultural são elementos centrais desta estratégia. A RAEM procura posicionar‑se como território capaz de articular tradição e modernidade, abertura internacional e integração nacional, desempenhando papel activo na construção de uma comunidade regional baseada na cooperação, na inovação e no desenvolvimento sustentável.
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