Diz-se que a História avança aos solavancos, mas em Macau ela prefere deslocar-se em marcha lenta, com o pisca sempre ligado, como se pedisse desculpa por existir. Agora, anuncia-se com pompa que vem aí legislação para permitir a entrada de plataformas de TVDE, essas criaturas tecnológicas que o mundo civilizado conhece desde o tempo em que ainda se acreditava que o metaverso ia salvar a humanidade. O secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, confirmou que o Governo pretende entregar a nova lei à Assembleia Legislativa ainda este ano e, como sempre, quando um governante diz “ainda este ano”, o povo entende “talvez, se não houver tufões, pandemias, ou outras intempéries administrativas”.

A notícia chega com o dramatismo habitual: “Parece que é desta”, proclamam alguns, como se o território estivesse prestes a assistir ao regresso triunfal de uma espécie extinta. E, de facto, fala-se no “regresso ao futuro” da Uber, essa entidade que outrora passou por Macau como um cometa tímido, deixando atrás de si apenas a memória de que, no território, só se podem chamar táxis pretos como uma regra tão peculiar que mereceria estudo antropológico, ou pelo menos uma nota de rodapé num relatório da UNESCO.

Raymond Tam, no plenário, explicou que o diploma está “numa fase muito concreta”. A expressão, tão sólida quanto um pudim mal cozido, pretende transmitir segurança. Mas o povo, habituado a décadas de anúncios que se evaporam como nevoeiro sobre o Porto Interior, recebe a novidade com o cepticismo de quem viu demasiadas inaugurações de projectos que nunca chegaram a existir. Como escreveu Max Weber, “a política é a lenta perfuração de tábuas duras” e em Macau, acrescentar-se-ia, com brocas emprestadas e instruções em mandarim simplificado.

De momento, existem apenas duas aplicações para chamada de táxis pretos, a Uber e a AMAP no MPay. A ironia é deliciosa a Uber já está em Macau, mas só serve para chamar táxis pretos, o que é semelhante a ter um smartphone topo de gama apenas para usar a lanterna. A tecnologia avança, mas a regulamentação insiste em caminhar com bengala.

O deputado Ho Ion Sang, sempre atento às dores do quotidiano, pediu esclarecimentos. O secretário respondeu com a serenidade de quem recita um mantra de que é preciso “algum tempo” para ultimar os detalhes. Naturalmente. Em Macau, os detalhes são entidades metafísicas, como os anjos de Santo Agostinho pois todos acreditam que existem, mas ninguém os vê.

O gabinete do secretário, em comunicado, acrescentou que os serviços de táxis por marcação através de plataformas electrónicas serão alvo de fiscalização reforçada “com vista a elevar a eficiência no atendimento”. A frase, digna de um manual de gestão escrito por alguém que nunca geriu nada, promete aquilo que todos desejam que é eficiência. Mas, como lembrava George Orwell, “a linguagem política é concebida para tornar as mentiras verdadeiras e o assassinato respeitável”. Não se trata aqui de mentiras, claro está, mas de uma elasticidade semântica que permite ao Governo anunciar eficiência sem nunca ter de a demonstrar.

O secretário abordou também o problema dos acidentes rodoviários envolvendo autocarros públicos. As estatísticas são claras: 943 acidentes em 2022, 1.327 em 2025. Um aumento que faria corar qualquer operador de transportes, mas que em Macau é recebido com a fleuma de quem comenta o estado do tempo. O deputado Lam Lon Wai pediu intervenção, e Raymond Tam garantiu que o Governo atribui “elevada importância” à matéria expressão que, no léxico administrativo local, significa que se vai criar um grupo de trabalho, uma comissão consultiva, ou um painel de especialistas que se reunirá trimestralmente para produzir relatórios que ninguém lerá.

Entre as medidas anunciadas, surgem as habituais soluções tecnocráticas como instalações pedonais tridimensionais, novos tipos de sinalização, vedações de separação, painéis de aviso. Tudo muito moderno, futurista, digno de uma cidade que gosta de parecer mais avançada do que realmente é. Como dizia Lewis Mumford, “a cidade é um teatro da acção social” e em Macau, o teatro tem cenários sofisticados, mas actores que preferem improvisar.

As operadoras de autocarros foram “incentivadas” a introduzir tecnologias inteligentes como câmaras anti-fadiga, câmaras de 360 graus, alertas GPS. A palavra “incentivadas” é um eufemismo encantador, que evita dizer “obrigadas”, mas também não garante que façam seja o que for. É como pedir a um adolescente para arrumar o quarto em que a intenção existe, mas o resultado é incerto.

A ideia é permitir que os motoristas sejam alertados, em tempo real, das condições rodoviárias em troços com maior incidência de acidentes. Uma ambição nobre, embora se saiba que muitos motoristas são alertados em tempo real pelos gritos dos passageiros, pelos travões a chiar, ou pelo som metálico de um espelho retrovisor a ser arrancado por um autocarro que tenta passar onde não cabe.

O governante destacou ainda a importância da formação baseada em “casos típicos de acidentes”. A expressão é tão sinistra quanto pragmática de estudar acidentes para evitar acidentes. Um método eficaz, sem dúvida, mas que lembra a velha máxima de Francis Bacon: “o conhecimento é poder”. Em Macau, o conhecimento é também estatística, relatório, e PowerPoint.

E, claro, assegura-se que os horários de trabalho e descanso são cumpridos com rigor. A promessa é tão antiga quanto a própria RAEM, repetida com a devoção de um salmo. Mas, como ensinou Karl Marx, “o tempo é o espaço do desenvolvimento humano” e em Macau, o tempo dos motoristas é muitas vezes o espaço do cansaço.

No meio de tudo isto, surge a grande novidade de que os TVDE vão finalmente poder operar na RAEM. O povo imagina carros discretos, motoristas educados, aplicações eficientes, preços transparentes. Mas Macau, encontrará certamente uma forma de transformar a modernidade numa versão local, adaptada, filtrada, suavizada, regulamentada até à exaustão. Talvez os TVDE venham com requisitos tão específicos que só possam circular em dias pares, ou apenas em avenidas com mais de três faixas, ou apenas se o motorista tiver concluído um curso de boas maneiras certificado pelo IAM.

O futuro aproxima-se, mas em Macau o futuro chega sempre com atraso, como um autocarro que ficou preso no trânsito. A legislação virá, a Assembleia Legislativa discutirá, os deputados farão perguntas, o Governo responderá com frases cuidadosamente polidas. E, no fim, o povo continuará a esperar por um transporte que chegue a horas, seja ele táxi preto, autocarro público, ou TVDE com nome estrangeiro.

Como escreveu José Ortega y Gasset, “a vida é o que fazemos dela”. Em Macau, a vida é também o que o Governo legisla devagar, com prudência, e sempre com a promessa de que “é desta”.

Nota Editorial de Opinião

O presente artigo constitui uma crónica opinativa, enquadrada no exercício legítimo da liberdade de expressão garantida pela Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau. As observações, críticas e interpretações aqui apresentadas refletem exclusivamente a perspectiva do autor, no âmbito da análise social, administrativa e política do território.

As referências a titulares de cargos públicos, entidades governamentais e operadores de serviços são feitas com base em declarações oficiais, dados públicos e factos amplamente divulgados, não configurando imputação de conduta indevida nem juízos de valor sobre a integridade pessoal dos intervenientes.

Este texto insere‑se no género literário e jornalístico da crónica, caracterizado pelo uso de ironia, humor, referências culturais e reflexão sociopolítica. O seu propósito é contribuir para o debate público, fomentar pensamento crítico e promover a discussão informada sobre temas relevantes para a comunidade de Macau.

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Bibliografia

Arendt, H. (1958). The Human Condition. University of Chicago Press.

Bacon, F. (1620). Novum Organum. London: John Bill. Mumford, L. (1961).

The City in History. Harcourt, Brace & World. Ortega y Gasset, J. (1930).

La rebelión de las masas. Revista de Occidente. Orwell, G. (1946).

Politics and the English Language. Horizon. Weber, M. (1919). Politik als Beruf. Duncker & Humblot.

Jorge Rodrigues Simão 2026