Há documentos oficiais que se apresentam ao mundo com a modéstia de quem sabe que a realidade é sempre mais vasta do que qualquer relatório. E há outros que surgem com a altivez de quem acredita ter capturado o universo dentro de tabelas, gráficos e percentagens. O relatório da NOAA Climate Prediction Center sobre os impactos globais de El Niño e La Niña, publicado em 2026, pertence à segunda categoria de um monumento de confiança institucional que, pela sua solenidade, quase faz esquecer que o clima é, por natureza, um artista de improviso.
O texto, com a sua retórica de precisão matemática, apresenta-se como uma tentativa de explicar ao mundo que as oscilações do Pacífico obedecem a uma lógica tão rígida quanto um regulamento administrativo. A NOAA, com a compostura de um ministério que se leva demasiado a sério, descreve os fenómenos climáticos como se estes fossem funcionários exemplares, sempre pontuais, previsíveis e dispostos a cumprir o calendário das anomalias térmicas.
I. A liturgia da certeza científica
O relatório exibe uma confiança tão exuberante que quase se poderia confundir com fé religiosa. A NOAA proclama, com a firmeza de um pregador, que sabe exactamente quando o planeta irá aquecer, arrefecer, secar, inundar-se ou entrar em convulsão atmosférica. A convicção é tão sólida que o leitor menos atento poderia acreditar que a instituição mantém correspondência pessoal com o Pacífico, recebendo boletins mensais sobre o estado de espírito das correntes oceânicas.
A ironia maior reside no facto de que estas previsões, tão meticulosamente apresentadas, têm a mesma estabilidade que um castelo de cartas construído numa ventania. A NOAA, porém, não se deixa perturbar por detalhes pois a sua missão é prever, e preverá, mesmo que o clima decida comportar-se como um adolescente em plena rebeldia hormonal.
A linguagem empregue é de tal modo cerimoniosa que quase se esperaria que cada fenómeno climático fosse acompanhado de um despacho oficial, devidamente carimbado e autenticado. O relatório não hesita em atribuir percentagens, probabilidades e cenários com a segurança de quem acredita que o futuro é uma equação matemática e não uma sucessão de improvisos atmosféricos.
II. O drama climático em três actos
O documento organiza o mundo como se fosse um palco onde El Niño e La Niña representam uma peça de teatro de gosto duvidoso. O primeiro surge como o vilão melodramático, responsável por secas, tempestades, inundações e todo o catálogo de desgraças que costuma animar os noticiários. O segundo, La Niña, é apresentado como uma espécie de irmã mais nova, igualmente caprichosa, mas com um talento especial para contrariar tudo o que o irmão faz não por maldade, mas por puro desporto atmosférico.
A NOAA descreve estes fenómenos com a seriedade de quem comenta a sucessão de governos, como se cada oscilação térmica fosse uma mudança de gabinete. O tom é tão cerimonioso que quase se esperaria uma nota de rodapé indicando que El Niño tomou posse às 10h da manhã, perante testemunhas qualificadas.
A teatralidade é evidente e o relatório transforma o clima numa ópera de grande aparato, onde cada corrente oceânica desempenha um papel dramático, cada anomalia térmica é um acto solene, e cada previsão é uma ária cantada com a convicção de quem acredita que o público nunca ousará contestar.
III. A geopolítica das nuvens
O relatório insiste em mapear os impactos globais com a precisão de um cartógrafo imperial. América do Sul sofrerá isto, o Sudeste Asiático aquilo, África aquilo outro tudo apresentado com a frieza de quem distribui tarefas numa reunião de condomínio. A NOAA parece acreditar que o clima respeita fronteiras políticas, como se as tempestades pedissem visto para entrar em cada país.
A verdade, porém, é que o clima tem uma personalidade profundamente cosmopolita pois circula sem passaporte, ignora alfândegas e visita continentes com a mesma displicência com que um turista entediado percorre museus. A NOAA, contudo, persiste na sua tentativa de organizar o caos, como um bibliotecário que tenta catalogar trovões.
A cartografia climatológica apresentada no relatório tem a mesma ingenuidade que um mapa medieval pois pretende delimitar o indomável, atribuir ordem ao caprichoso, e transformar o planeta numa espécie de tabuleiro onde cada peça atmosférica se move segundo regras fixas. A NOAA, com a sua devoção institucional, acredita que o clima é um funcionário disciplinado; o clima, porém, continua a comportar-se como um artista de vanguarda imprevisível, exuberante e profundamente indiferente às expectativas alheias.
IV. A estética da previsão
O relatório culmina numa série de previsões que, pela sua solenidade, poderiam ser recitadas numa missa climatológica. A NOAA anuncia probabilidades, percentagens, cenários e tendências com a convicção de quem acredita que o futuro é uma equação matemática e não uma sucessão de improvisos atmosféricos.
O leitor atento, porém, percebe que estas previsões são uma espécie de horóscopo científico revestidas de números, mas tão dependentes da boa vontade do universo quanto qualquer prognóstico astrológico. A NOAA, claro, não admite tal comparação mas o clima, esse grande humorista, fá-lo diariamente.
A estética da previsão é particularmente curiosa pois o relatório apresenta gráficos com a mesma solenidade com que um sacerdote exibe relíquias. Cada linha ascendente é tratada como uma revelação, cada curva descendente como um aviso divino, cada percentagem como uma profecia. A NOAA não prevê apenas o clima; prevê o destino do planeta com a convicção de quem acredita que a atmosfera é uma criatura dócil, pronta a alinhar em previsões como um funcionário público em hora de expediente.
V. A ciência como acto de fé
O relatório da NOAA é um monumento à fé científica e acredita que o mundo natural é legível, previsível e domesticável. A ironia maior é que, apesar de toda a pompa institucional, o documento revela uma verdade simples de que prever o clima é uma actividade tão arriscada como tentar adivinhar o comportamento humano.
A NOAA escreve como se tivesse o planeta sob vigilância permanente, mas o clima, esse eterno dissidente, continua a agir como um artista de vanguarda imprevisível, exuberante e profundamente indiferente às expectativas alheias.
O relatório, no fim, é uma obra de devoção não ao clima, mas à crença de que o clima pode ser compreendido. E essa crença, tão nobre quanto ingénua, merece ser celebrada ainda que com o sorriso irónico de quem sabe que o Pacífico, amanhã, fará exactamente o que lhe apetecer.
VI. A moral da história meteorológica
O documento da NOAA, com toda a sua solenidade, acaba por ser uma espécie de tratado moral sobre a relação entre humanidade e natureza. A instituição acredita que, ao prever o clima, está a domar o caos; mas o caos, esse velho mestre, continua a ensinar que a natureza não se deixa domesticar. A NOAA insiste em transformar o planeta numa equação, mas o planeta insiste em transformar a NOAA numa personagem secundária da sua narrativa. A instituição escreve com a convicção de quem acredita que o mundo natural é uma criatura obediente; o mundo natural responde com tempestades, secas, inundações e anomalias que parecem dizer: “Prevejam o que quiserem; eu farei o que me apetecer.” A moral é simples: a NOAA acredita que controla o guião; o clima escreve o enredo.
Bibliografia
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Jorge Rodrigues Simão

