A crítica ao relatório State of the Global Climate 2026 da Organização Meteorológica Mundial exige, antes de mais, uma constatação simples de que o documento, tão solene na sua apresentação, carregado de gráficos, índices, anomalias e avisos, parece escrito para uma humanidade que, por hábito ancestral, lê sinais de catástrofe com o mesmo interesse com que observa a meteorologia para decidir se leva ou não guarda‑chuva. A ciência, essa entidade austera que o relatório invoca com devoção quase litúrgica, surge ali como uma espécie de oráculo moderno e, como todos os oráculos, diz verdades que ninguém quer ouvir, mas fá-lo com uma pompa que convida ao bocejo.
O relatório, que se pretende definitivo, abrangente e alarmante, acaba por ser sobretudo um monumento à burocracia climatológica. A cada página, o leitor é confrontado com uma sucessão de números que, pela sua abundância, se anulam mutuamente. É como se a WMO acreditasse que a acumulação de dados, por si só, produz consciência moral. A estratégia lembra aqueles moralistas que, para convencer o pecador, lhe recitam listas intermináveis de faltas, esperando que a exaustão produza arrependimento. O relatório, porém, não produz arrependimento; produz apenas a sensação de que o planeta está a arder e que a instituição que o descreve está ocupada a medir a altura das chamas com régua calibrada.
A solenidade climatológica e o seu teatro
A leitura do documento revela uma característica curiosa da sua incapacidade de admitir que o drama climático, tal como é apresentado, não comove ninguém. A humanidade, habituada a viver entre crises, não reage a avisos apocalípticos; reage a entretenimento. E o relatório, infelizmente, não entretém. Não há nele uma única metáfora ousada e imagem que desperte o leitor da letargia. A WMO parece acreditar que a gravidade do tema dispensa estilo. O resultado é um texto que, apesar de falar do colapso climático, tem a vivacidade de um inventário de armazém.
A secura do discurso é particularmente evidente quando o relatório descreve fenómenos extremos. As secas são “prolongadas”, as tempestades são “intensas”, as temperaturas são “recordes”. Tudo isto é factual, claro, mas é também linguisticamente anémico. A instituição parece recear que qualquer adjectivo mais expressivo possa comprometer a sua aura de neutralidade científica. Assim, o planeta arde com discrição terminológica; os oceanos sobem com compostura; as populações sofrem com estatísticas.
A obsessão pelo número e a ilusão da precisão
O relatório é um hino à quantificação. Cada fenómeno é acompanhado por percentagens, desvios, médias móveis, séries temporais e índices compostos. A WMO parece acreditar que o número é uma forma superior de verdade, esquecendo que o número, quando não é acompanhado de interpretação, é apenas um símbolo vazio. O leitor comum, confrontado com esta avalanche de dados, não compreende o mundo; compreende apenas que não o compreende.
A ironia é que, apesar da sua obsessão pela precisão, o relatório admite repetidamente que muitos dos dados são incompletos, provisórios ou sujeitos a revisão. A ciência, que deveria ser o farol da certeza, surge aqui como uma entidade hesitante, que avança com cautela, como quem caminha sobre gelo fino. A WMO, porém, não parece notar a contradição e proclama a urgência com voz firme, mas fundamenta essa urgência em números que, por vezes, não são mais sólidos do que palpites educados.
O planeta como personagem secundária
Curiosamente, o relatório fala do planeta como se este fosse uma personagem secundária num drama administrativo. O foco não está na Terra, mas na instituição que a descreve. A WMO surge como protagonista, omnipresente, omnisciente, omnicalculadora. O planeta, esse, limita-se a fornecer dados. É uma inversão curiosa de que a entidade que deveria servir o mundo acaba por transformar o mundo em pretexto para se exibir.
A secção dedicada aos impactos humanos é particularmente reveladora. As populações afectadas são apresentadas como números agregados, quase abstractos. Não há ali uma única referência à experiência humana concreta como o agricultor que vê a terra estalar, o pescador que observa o mar transformar-se num caldo ácido, o habitante urbano que respira ar com textura de cinza. O relatório fala de pessoas, mas não fala para pessoas. Fala para outras instituições, para outros relatórios, para outras burocracias.
A retórica da urgência e a prática da inércia
O documento insiste na urgência da acção climática. A palavra “urgente” aparece com a regularidade de um refrão. No entanto, a urgência proclamada não se traduz em propostas concretas. O relatório não ousa sugerir medidas que possam incomodar governos, empresas ou consumidores. A sua urgência é, portanto, uma urgência decorativa uma espécie de adorno moral que permite à instituição afirmar que fez a sua parte, sem realmente a fazer.
Esta contradição é particularmente evidente quando o relatório aborda a transição energética. Fala-se de metas, de compromissos, de trajetórias, mas não se fala de responsabilidades. A WMO parece acreditar que o clima se salvará por meio de declarações de intenção. É uma visão quase religiosa de que a fé na transição substitui a prática da transição. O planeta, porém, não se converte com sermões.
A estética do desastre higienizado
O relatório apresenta o desastre climático com uma estética higienizada. Não há ali uma única imagem que perturbe e descrição que incomode. O sofrimento humano é apresentado com a mesma neutralidade com que se descreve a variação da pressão atmosférica. A WMO parece acreditar que a objectividade exige assepsia emocional. O resultado é um texto que fala de catástrofes com a serenidade de quem descreve o funcionamento de uma máquina.
Esta higienização do desastre é particularmente evidente nas secções dedicadas aos eventos extremos. As inundações são apresentadas como “episódios”, as ondas de calor como “anomalias”, as perdas humanas como “impactos”. A linguagem transforma tragédias em abstracções. É uma forma subtil de desumanização não intencional, certamente, mas profundamente reveladora da distância entre quem escreve e quem sofre.
A moral climatológica e o seu paternalismo
O relatório, apesar da sua neutralidade aparente, é profundamente moralista. Há nele uma convicção implícita de que a humanidade é culpada e deve ser corrigida. A WMO assume o papel de educadora severa, que aponta falhas, adverte, repreende e recomenda. O tom é paternalista, como se a instituição acreditasse que os cidadãos são crianças irresponsáveis que precisam de ser guiadas pela mão.
Este moralismo é particularmente evidente quando o relatório aborda o consumo energético. A instituição fala como quem repreende um adolescente que deixou a luz acesa. O planeta está em crise, diz a WMO, porque a humanidade não sabe comportar-se. A solução, porém, não é apresentada com clareza; é apenas insinuada, como se a instituição temesse que a sua autoridade moral fosse posta em causa se sugerisse medidas demasiado concretas.
A ironia final: o relatório como sintoma
A crítica mais mordaz que se pode fazer ao relatório é esta é que ele próprio é um sintoma da crise que descreve. A incapacidade de comunicar de forma eficaz, a obsessão pela quantificação, a neutralidade emocional, o moralismo paternalista tudo isto revela uma instituição que, apesar da sua competência técnica, não compreende o mundo em que opera.
O planeta está a mudar de forma acelerada, mas a linguagem da WMO permanece imóvel, presa a uma tradição burocrática que não serve. O relatório fala de urgência, mas é escrito com a lentidão de quem acredita que ainda há tempo. Fala de catástrofe, mas fá-lo com a serenidade de quem descreve um fenómeno distante. Fala de humanidade, mas fá-lo sem humanidade.
O relatório como monumento à insuficiência
O State of the Global Climate 2026 é um documento tecnicamente competente, mas literariamente pobre, moralmente hesitante e politicamente tímido. É um monumento à insuficiência não da ciência, mas da comunicação científica. O planeta merece melhor. A humanidade merece melhor. E a própria WMO, se quiser ser relevante, terá de abandonar a sua linguagem de inventário e adoptar uma linguagem que, sem perder rigor, seja capaz de despertar consciência. Até lá, o relatório permanecerá como aquilo que é; um documento que descreve o fim do mundo com a mesma emoção com que se descreve a contabilidade anual de uma repartição pública.
Bibliografia
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Jorge Rodrigues Simão

