Há projectos que nascem com a solenidade de um hino e outros que emergem com o pudor de uma nota de rodapé. A chamada Cidade Universitária de Hengqin, apresentada como a nova arca de salvação do ensino superior de Macau, situa-se algures entre ambos: demasiado grandiosa para ser ignorada, demasiado ingénua para ser levada inteiramente a sério. As autoridades, sempre generosas na arte de anunciar futuros luminosos, garantem que este campus conjunto aliviará a pressão da procura de vagas no ensino superior durante a próxima década e oferecerá aos estudantes uma experiência “equivalente a estudar no estrangeiro”. A promessa é tão ambiciosa que quase dispensa verificação como todas as promessas que se querem acreditar.

O projecto envolve três instituições públicas: a Universidade de Macau, a Universidade Politécnica de Macau e a Universidade de Turismo de Macau. Todas elas, convocadas para este novo templo académico, parecem ter sido chamadas a desempenhar o papel de sacerdotes de uma liturgia modernizadora. O investimento previsto ronda os 18 mil milhões de yuan, cifra que, dita com a ligeireza habitual, soa a uma espécie de mantra financeiro de quanto maior o número, maior a fé no futuro.

A área de requalificação abrange cerca de 50 mil metros quadrados, com 13 edifícios convertidos para funções académicas. Alguns desses edifícios pertenciam à antiga Cidade Alemã de Hengqin, um projecto que, como tantos outros, nasceu com ambições cosmopolitas e morreu de falta de respiração. A arquitectura de estilo alemão, outrora destinada a exibir produtos europeus, converte-se agora em cenário para estudantes que, segundo as autoridades, terão a sensação de estudar no estrangeiro sem sair do país. É uma ironia tão perfeita que quase dispensa comentário.

A primeira fase deverá iniciar actividades lectivas em Agosto de 2026, com cerca de 400 estudantes de pós-graduação. O número é modesto, mas a retórica é grandiosa pois fala-se de internacionalização, de cooperação académica, de prestígio global. A comissão legislativa, mais prudente do que entusiasmada, alerta que a internacionalização não deve limitar-se ao nome. É um aviso sensato, embora tardio de que a história está repleta de instituições que confundiram cosmopolitismo com marketing.

O Governo da RAEM, sempre diligente na arte de responder com frases que parecem ter sido escritas para serem lidas em voz baixa, assegura que tem coordenado as instituições para reforçar os elementos de internacionalização. Fala-se de cooperação com universidades de Singapura, Austrália, Reino Unido, Portugal e Suíça. A Faculdade de Medicina da Universidade de Macau, por exemplo, intensifica esforços para lançar um curso conjunto com a Universidade de Lisboa. A Universidade de Turismo de Macau prepara um programa de duplo grau com instituições de Queensland, Surrey, Lisboa e César Ritz Colleges Switzerland.

Tudo isto soa a uma espécie de catálogo de intenções, como aqueles folhetos turísticos que prometem experiências inesquecíveis e acabam por oferecer apenas fotografias bem iluminadas. A internacionalização, dizem as autoridades, não significa apenas admitir estudantes estrangeiros. O mais importante é proporcionar aos estudantes do interior da China o “efeito de estudar no estrangeiro sem sair do país”. A frase, tão engenhosa quanto paradoxal, mereceria ser inscrita na entrada da Cidade Universitária, como lema de uma época que prefere simular o mundo a confrontar-se com ele.

O relatório legislativo recorda que Macau enfrenta baixas taxas de natalidade, fenómeno que afecta sobretudo os ensinos infantil, primário e secundário. É uma tendência global, dizem, como se a globalidade servisse de consolo. Ao mesmo tempo, citando o Ministério da Educação da China, alerta-se para um período de pico de matrículas até 2035, seguido de uma queda significativa. A demografia, essa velha senhora que nunca mente, avisa que o futuro será efeito de curvas descendentes.

A província de Guangdong, com uma procura anual de cerca de um milhão de vagas para exames de acesso ao ensino superior, espera que Macau contribua para aliviar a pressão. Nos próximos anos, a procura poderá atingir 1,8 milhões quase o dobro. Guangdong não tem tempo para expandir universidades e teme o excesso de vagas após o pico. Macau, com a sua estrutura orientada para o exterior, surge como solução conveniente de acolher estudantes quando há muitos, reduzir quando houver poucos. É uma lógica tão pragmática quanto desprovida de poesia.

Enquanto o velho continente se entretém a discutir regulamentos, o Oriente constrói cidades universitárias. A Europa, que outrora exportava ideias, agora importa relatórios. Macau, que sempre viveu entre dois mundos, tenta agora reinventar-se como ponte académica. Mas uma ponte, para ser útil, precisa de dois lados sólidos. E a Europa, desencantada e exausta, já não oferece a solidez de outrora. A ironia é evidente pois enquanto o Ocidente se perde em debates sobre identidade, o Oriente constrói edifícios, assina memorandos e planeia décadas. A Cidade Universitária de Hengqin é, nesse sentido, um espelho do tempo que reflecte a ambição pragmática de uns e a hesitação melancólica de outros.

O Governo local, sempre hábil na arte de anunciar futuros, espera que Macau siga o caminho da “não homogeneização”, oferecendo um ensino internacionalizado que não compete com o interior da China. É uma estratégia sensata, embora envolta em fumo e espelhos. A internacionalização, dizem, deve servir não só Macau, mas também o país. É uma frase que poderia ter sido escrita por qualquer burocrata diligente, em qualquer época, para qualquer projecto.

Actualmente, cerca de 700 a 800 mil estudantes saem do interior da China para estudar no estrangeiro. A Cidade Universitária prevê acolher cerca de 20 mil. O número é pequeno, mas o simbolismo é grande de que Macau, outrora enclave, torna-se agora plataforma. A história, sempre irónica, gosta destas reviravoltas.

A Cidade Universitária de Hengqin é um projecto ambicioso, talvez demasiado ambicioso para a sua própria saúde. Promete aliviar pressões, oferecer experiências internacionais, atrair estudantes, reforçar prestígio. Mas a história ensina que as grandes obras não se medem apenas pelo betão mas pela capacidade de resistir ao tempo.

Como escreveu Paul Valéry, “as civilizações sabem que são mortais”. A frase, tão simples quanto devastadora, deveria ser lida por todos os que acreditam que a internacionalização se faz com slogans. O futuro da Cidade Universitária dependerá menos das promessas e mais da capacidade de transformar edifícios em pensamento, estudantes em cidadãos, cursos em conhecimento. Se o conseguir, terá cumprido a sua missão. Se falhar, será apenas mais um capítulo no longo livro das ambições que o tempo desfaz.

Bibliografia

  • Valéry, Paul. La Crise de l’Esprit. Paris: Gallimard, 1919.
  • Spengler, Oswald. Der Untergang des Abendlandes. München: C.H. Beck, 1918–1922.
  • Toynbee, Arnold J. A Study of History. Oxford University Press, 1934–1961.
  • Hobsbawm, Eric. The Age of Extremes. London: Michael Joseph, 1994.
  • Bauman, Zygmunt. Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press, 2000.
  • Judt, Tony. Postwar: A History of Europe Since 1945. Penguin Press, 2005.
  • Habermas, Jürgen. Die nachholende Revolution. Suhrkamp, 1990.