O Verão está a terminar, e Macau, essa cidade que vive entre o esplendor e a melancolia, continua a receber turistas como quem recebe convidados para um banquete onde já não há vinho nem pão. As ruas fervilham de visitantes, as câmaras fotográficas disparam como metralhadoras de curiosidade, e os comerciantes, esses sacerdotes do quotidiano económico, observam o desfile com o desânimo de quem sabe que o movimento não se traduz em lucro. Há multidão, mas não há consumo; há calor humano, mas não há dinheiro a circular. É o paradoxo da prosperidade aparente com o teatro da abundância encenado sobre o palco da escassez.
Os números são cruéis na sua frieza. A economia local não melhora, apesar do fluxo constante de turistas. Os comerciantes das zonas turísticas, outrora confiantes, hoje falam com o tom resignado dos que já aprenderam a não esperar milagres. Queixam-se da quebra de vendas face a 2025, da redução do gasto médio por visitante, da transformação do turista em espectador. O jornal Ou Mun recolheu testemunhos que são quase elegias comerciais de lojas de lembranças, outrora cheias de sacos e risos, agora exibem prateleiras ordenadas e caixas registadoras silenciosas. O Verão trouxe visitantes, mas não trouxe compradores.
Um responsável de uma loja de lembranças, que preferiu o anonimato porque em Macau até o desespero é discreto revelou que o volume de visitantes correspondeu às previsões, mas que o negócio caiu para metade em comparação com o período anterior à pandemia. “Talvez já não haja tanta procura pelas tradicionais lembranças”, disse, com a serenidade de quem enumera sintomas de uma doença crónica. Os turistas mais jovens, esses novos nómadas digitais do lazer, preferem passear sem sacos de compras, como se o consumo fosse pecado e a leveza virtude. O comércio, habituado à gula dos visitantes, enfrenta agora a dieta da modernidade.
Outro comerciante, também anónimo porque o anonimato é o último luxo dos que perderam o lucro descreveu a mesma situação de menos compras, menos consumo e menos esperança. Muitos turistas provam as amostras de bolachas ou outros produtos tradicionais, mas não compram. É o turismo da degustação gratuita, o capitalismo da amostra. O consumo médio por visitante, estimou, ronda as 60 patacas. Uma soma que faria corar de vergonha qualquer economista. A queda de negócios, calculou, situa-se entre 10 e 20 por cento em termos anuais. O Verão, que deveria ser estação de abundância, tornou-se estação de contenção.
Outro comerciante, dono de uma loja de miudezas de boi essa gastronomia que mistura tradição e resistência contou que vende uma tigela de comida a 70 patacas, suficiente para duas pessoas. Mas agora, disse, os grupos pequenos compram apenas uma tigela para partilhar. É a metáfora perfeita da economia local de uma tigela para cinco. O calor sufocante e as chuvas intermitentes afastaram os visitantes das ruas e empurraram-nos para os resorts do Cotai, onde o ar condicionado é mais generoso do que o comércio tradicional. O centro histórico, outrora palco de consumo e convívio, tornou-se cenário de passagem.
A situação é tão paradoxal que até o turismo, motor da economia, parece funcionar contra ela. Macau recebe milhões de visitantes, mas o dinheiro não fica. Como escreveu Thorstein Veblen, “o consumo conspícuo é o sinal exterior da prosperidade interior”; mas aqui, o consumo é invisível, e a prosperidade é apenas rumor. Os turistas chegam, fotografam, publicam nas redes sociais, e partem. O comércio local, que vive da compra impulsiva, da lembrança material, da bolacha embrulhada em nostalgia, vê-se agora diante de uma geração que consome experiências, não produtos.
O Verão de 2026 foi mais quente, mais húmido, mais impiedoso. As temperaturas elevadas e as chuvas constantes criaram um ambiente que desincentiva o passeio. O calor é inimigo do comércio, e a meteorologia tornou-se aliada da crise. Os comerciantes, habituados a medir o sucesso pelo movimento das ruas, agora medem o fracasso pela imobilidade dos corpos. O turista moderno prefere o conforto climatizado dos resorts ao encanto suado das ruas antigas. O consumo, outrora acto social, tornou-se acto condicionado.
A economia local, dependente do turismo, revela assim a sua vulnerabilidade estrutural. Quando o visitante muda de hábitos, o comerciante perde o sustento. Quando o turista prefere o ecrã ao balcão, o negócio morre de invisibilidade. Como escreveu Karl Marx, “tudo o que é sólido desmancha-se no ar”; e em Macau, tudo o que é comercial evapora-se no ar condicionado dos hotéis.
A quebra de vendas não é apenas fenómeno sazonal; é sintoma de transformação cultural. O turista contemporâneo é mais contemplativo do que comprador, mais digital do que físico, mais efémero do que fiel. A lembrança material como a bolacha, o íman, o bordado perdeu valor simbólico. O visitante quer memórias virtuais, não objectos tangíveis. O comércio tradicional, incapaz de competir com a instantaneidade das redes sociais, torna-se anacrónico. É o paradoxo da modernidade: quanto mais turistas, menos consumo.
Os comerciantes, resignados, esperam pelos feriados de Outubro como quem espera por chuva em tempo de seca. Mas já antecipam que o volume de negócios será ainda pior. A esperança, em Macau, é sempre adiada. O Verão termina, o Outono aproxima-se, e a economia continua a caminhar sobre areia movediça. O Governo, por sua vez, mantém o discurso da retoma, como se as estatísticas fossem bálsamo. Mas as estatísticas, como lembrou John Kenneth Galbraith, “são como lâmpadas que iluminam o que está próximo e deixam na sombra o que está longe”. E o que está longe, neste caso, é o bem-estar dos pequenos comerciantes.
A cidade, que vive entre o luxo dos resorts e a modéstia das lojas tradicionais, revela uma dualidade quase literária. De um lado, o Cotai, com os seus palácios de vidro e luz; do outro, o centro histórico, com as suas fachadas descascadas e vitrinas vazias. É o contraste entre o brilho e a penumbra, entre o capital e o quotidiano. O turista circula entre ambos, mas gasta apenas num. O dinheiro flui para o luxo, não para a tradição. O comércio local, que deveria ser o espelho da cultura, é agora apenas reflexo da crise.
O Verão que se despede deixa atrás de si uma cidade cansada, uma economia exausta e uma população que aprendeu a sobreviver sem prosperar. Os comerciantes, que outrora eram símbolo de vitalidade, tornaram-se cronistas da decadência. Cada testemunho recolhido é uma página de um romance económico que se escreve em silêncio. Macau, que sempre soube reinventar-se, parece agora prisioneira do seu próprio modelo como turismo sem consumo, visitantes sem compras, movimento sem progresso.
A ironia é que o sucesso turístico é, paradoxalmente, o fracasso comercial. Quanto mais turistas, menos vendas. Quanto mais movimento, menos dinheiro. É o triunfo da aparência sobre a substância, da quantidade sobre a qualidade. Como escreveu Eça de Queirós, “a civilização é uma coisa muito complicada que começa por ser uma coisa muito simples”. E em Macau, a civilização do turismo tornou-se tão complicada que já não serve o propósito simples de sustentar o comércio.
O Verão termina, e com ele termina também a ilusão de que o turismo basta para garantir prosperidade. O calor, as chuvas, os hábitos, as redes sociais tudo conspira contra o comércio tradicional. Os comerciantes, esses heróis anónimos da economia local, continuam a abrir portas todos os dias, como quem desafia o destino. Mas o destino, em Macau, parece ter escolhido outro caminho; o da sobrevivência sem crescimento, o da esperança sem resultado.
E assim, entre o brilho dos casinos e o silêncio das lojas, Macau encerra mais um Verão. Um Verão de multidões sem consumo, de turistas sem compras, de comerciantes sem lucro. Um Verão que confirma o que todos já sabiam, mas poucos queriam admitir de que que o turismo, sozinho, não salva uma economia; apenas a adia.
Bibliografia
Veblen, Thorstein, The Theory of the Leisure Class, Macmillan, 1899
Marx, Karl, Manifesto do Partido Comunista, Londres, 1848
Galbraith, John Kenneth, The Age of Uncertainty, Houghton Mifflin, 1977
Keynes, John Maynard, The General Theory of Employment, Interest and Money, Macmillan, 1936
Direcção dos Serviços de Estatística e Censos da RAEM, Indicadores Económicos 2025–2026
Banco Mundial, World Development Indicators, 2026
Jorge Rodrigues Simão 2026

