Da Melancolia Comercial e da Procura que Não Vem
A economia de Macau, esse organismo que outrora se dizia vibrante, parece hoje padecer de uma anemia crónica, tão profunda que nem os mais optimistas dos mercadores conseguem disfarçar o tom pálido das suas contas. A conselheira Rainbow Lei Choi Hong, cuja voz ecoa pelos corredores administrativos como um sino que anuncia desgraças, declarou ao jornal Ou Mun que as Pequenas e Médias Empresas vivem num estado de “procura fraca e muita preocupação com o futuro”. A frase, que poderia figurar num sermão de má hora, resume com precisão o desalento que se instalou no tecido económico da RAEM.
Segundo os dados oficiais, o Produto Interno Bruto cresceu 3,7% no primeiro semester, número que, em tempos de glória, seria motivo para abrir champanhe, mas que hoje apenas serve para lembrar que o crescimento não chega às mãos das PME. Como escreveu Keynes, “a dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar às antigas” (The General Theory of Employment, Interest and Money, 1936). E Macau, ao que parece, continua presa às velhas ideias de que o jogo resolve tudo, enquanto as pequenas casas comerciais se dissolvem como açúcar em chá quente.
Rainbow Lei, com a solenidade de quem anuncia um funeral, recordou que mais de 300 empresas foram dissolvidas no primeiro trimestre, levando consigo 240 milhões de patacas que foi capital que fugiu como se tivesse visto o espectro da recessão. As novas empresas, tímidas e acanhadas, trouxeram apenas 120 milhões, sinal de que o mercado não seduz como antes. É, como diria Adam Smith, “a mão invisível que, por vezes, empurra em vez de guiar” (The Wealth of Nations, 1776).
II – Da Tragédia Urbana e da Fatalidade das Ruas
Enquanto as PME agonizam, a cidade também regista os seus dramas quotidianos. Um idoso de 70 anos, atropelado por um autocarro na Rua do Comandante João Belo, acabou por morrer no hospital. A notícia, divulgada pela TDM, surge como um lembrete cruel de que a modernidade, com toda a sua pressa, não tem tempo para os mais frágeis. O homem atravessou fora da passadeira acto que, na lógica burocrática, transforma a vítima em culpado, como se a vida humana fosse um formulário mal preenchido. A morte, sempre pontual, não espera por autorizações administrativas. E assim, enquanto o Executivo discute garantias bancárias, prazos de reestruturação e mecanismos de partilha de risco, a cidade perde um dos seus habitantes, silenciosamente, sem direito a nota de rodapé.
III – Das Excursões e da Economia do Passeio
A Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), esse oráculo moderno que substituiu os antigos astrólogos, anunciou que as despesas dos turistas em excursão aumentaram 53,5% no primeiro semestre. Cada excursionista gastou 935 patacas, número que, para as PME, deveria soar como música celestial, mas que na prática pouco lhes toca, pois o dinheiro evapora-se em pacotes turísticos pré-pagos, onde a economia local é apenas figurante. A despesa total dos visitantes não relacionada com o jogo atingiu 44,47 mil milhões de patacas, crescendo 17,4%. Contudo, como ensinou Thorstein Veblen, “o consumo conspícuo raramente beneficia quem mais precisa” (The Theory of the Leisure Class, 1899). E assim, enquanto os turistas compram lembranças, as PME continuam a fechar portas.
IV – Da Burocracia Lusa e da Morte do Bilhete de Identidade
Portugal, sempre fiel à sua tradição de transformar o simples em complicado, decidiu que o velho Bilhete de Identidade não serve como documento de viagem. Desde 3 de Agosto, o consulado em Macau anunciou que apenas o Cartão de Cidadão ou o Passaporte são válidos. A explicação, envolta em linguagem tecnocrática, refere “normas actualmente em vigor na União Europeia” e “características de segurança avançadas”. O Bilhete de Identidade, esse pedaço de papel que acompanhou gerações, foi assim condenado ao exílio administrativo. Como escreveu Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Mensagem, 1934). Mas, neste caso, parece que a alma do BI era demasiado pequena para sobreviver à era digital.
V – Da Fragilidade das Casas Comerciais e da Urgência do Crédito
Rainbow Lei, em tom de quem anuncia reformas que nunca chegam, defendeu a flexibilização dos critérios de acesso ao crédito. As PME, diz ela, não conseguem apresentar garantias suficientes como se a fragilidade económica fosse culpa das próprias empresas e não do ambiente que as sufoca. Propôs a simplificação dos procedimentos, a redução das exigências de garantia e o alargamento dos prazos de apoio. A conselheira, num rasgo de lucidez, sugeriu ainda a criação de um mecanismo de partilha de riscos entre Governo e banca. A ideia, que em teoria parece sensata, esbarra na velha máxima de que “os bancos emprestam dinheiro apenas a quem prova que não precisa dele”. A última rede de segurança que propõe é, portanto, mais uma esperança do que uma realidade.
VI – Da Economia que Cambaleia e do Futuro que Não Chega
A economia de Macau vive num paradox pois cresce nas estatísticas, mas mingua na vida real. As PME, que deveriam ser o motor da diversificação económica, estão a ser empurradas para o abismo por falta de crédito, excesso de burocracia e um mercado que favorece apenas os gigantes. Como escreveu Karl Polanyi, “a economia de mercado não é uma lei da natureza, mas uma construção política” (The Great Transformation, 1944). E Macau, ao que parece, construiu uma economia que serve poucos e abandona muitos. O futuro, esse conceito que os economistas gostam de prever mas raramente acertam, surge turvo. A procura é fraca, o capital foge, as empresas fecham, os turistas gastam mas não sustentam, e o Governo continua a discutir planos enquanto a realidade se desmorona.
Bibliografia
Smith, A. (1776). The Wealth of Nations. London: W. Strahan and T. Cadell.
Keynes, J. M. (1936). The General Theory of Employment, Interest and Money. London: Macmillan.
Veblen, T. (1899). The Theory of the Leisure Class. New York: Macmillan.
Polanyi, K. (1944). The Great Transformation. New York: Farrar & Rinehart.
Pessoa, F. (1934). Mensagem. Lisboa: Parceria António Maria Pereira.
Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). (2026). Relatórios Estatísticos do Primeiro Semestre. Macau.
TDM – Televisão de Macau. (2026). Noticiário de 5 de Agosto. Macau.
Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong. (2026). Aviso sobre documentos de viagem. Macau.
Jorge Rodrigues Simão 2026

