A diplomacia internacional, esse bailado cerimonioso onde Estados fingem civilidade enquanto afiavam discretamente as lâminas, sempre teve algo de teatral. Contudo, nenhuma nação transformou essa teatralidade em método, ritual e hábito como os Estados Unidos, virtuosos daquilo que, com a ironia que o tema exige, se pode designar por diplomacia do rasgar papel. Trata-se de uma arte refinada, quase sacerdotal, em que tratados assinados com pompa e circunstância são posteriormente destruídos com igual fervor não por imperativo estratégico, mas por capricho presidencial, volatilidade ideológica ou simples mudança de humor nacional.
O exemplo paradigmático desta prática é o JCPOA, o acordo nuclear firmado em 2015 entre os Estados Unidos, o Irão e outras potências mundiais. Celebrado como triunfo diplomático, o documento foi rasgado unilateralmente pelos Estados Unidos em 2018, num gesto que combinou dramatismo, voluntarismo e uma confiança quase pueril de que o Irão, confrontado com nova vaga de sanções, regressaria à mesa de negociações disposto a capitular. Como observam David Albright e Sarah Stricker, “Iran’s nuclear weapons program has been marked by decades of deception, illicit procurement, and covert activities” frase que, lida com atenção, revela mais sobre a percepção americana do que sobre o comportamento iraniano.
A lógica era simples pois se o acordo não serve os interesses americanos naquele momento, rasga-se. Afinal, na diplomacia do rasgar papel, a assinatura é mero adorno. O problema, porém, é que o Irão não reagiu como figurante obediente. Pelo contrário, interpretou o gesto como prova definitiva de que os Estados Unidos não são parceiros confiáveis. A República Islâmica, habituada a sobreviver a sanções, isolamentos e ameaças desde 1979, respondeu com resiliência, orgulho nacional e uma dose generosa de sarcasmo político. Não apenas recusou capitular; acelerou o seu programa nuclear, expandiu a sua influência regional e demonstrou que não teme o poderio militar americano.
A diplomacia do rasgar papel, ao invés de enfraquecer o Irão, fortaleceu-o. Kenneth Katzman, no seu relatório para o Congressional Research Service, sintetiza a postura iraniana com precisão: “Iran’s leaders have consistently framed resistance to U.S. pressure as a matter of national dignity.” Eis o que os estrategas em Washington não anteciparam de que o rasgar do acordo seria interpretado como insulto, não como ameaça.
O rasgar do acordo foi apresentado nos Estados Unidos como acto de coragem moral, gesto de firmeza, demonstração de liderança. Na prática, foi erro estratégico monumental. A diplomacia americana, ao destruir o documento, destruiu também a sua credibilidade. A mensagem enviada ao mundo foi cristalina de que acordos assinados com os Estados Unidos têm prazo de validade imprevisível, dependem do humor presidencial e podem ser rasgados sem aviso prévio. A diplomacia, que deveria ser instrumento de estabilidade, tornou-se arma de volatilidade.
A diplomacia do rasgar papel não é excepção; é padrão. Os Estados Unidos têm longa tradição de assinar tratados que posteriormente abandonam, reinterpretam ou ignoram. Desde acordos ambientais até tratados de controlo de armas, passando por compromissos multilaterais, a política externa americana revela tendência para considerar documentos internacionais como sugestões, não obrigações. A assinatura é gesto simbólico; o cumprimento é opcional.
Esta postura, profundamente enraizada no excepcionalismo americano, permite que o país se apresente como guardião da ordem internacional enquanto simultaneamente desrespeita essa ordem quando lhe convém. Trita Parsi, analisando a diplomacia americana, observa que “Washington has long struggled to reconcile its self-image as a benevolent hegemon with its tendency to disregard international norms when they prove inconvenient.” Eis o cerne da questão, de que os Estados Unidos acreditam que a ordem internacional é cláusula facultativa.
O Irão, por sua vez, transformou o rasgar do acordo numa narrativa de resistência. A diplomacia iraniana, frequentemente subestimada, demonstrou capacidade extraordinária de transformar derrota aparente em vitória simbólica. O país apresentou-se como vítima da arrogância americana, reforçou alianças regionais e consolidou apoio interno. A diplomacia do rasgar papel, ao invés de isolar o Irão, isolou os Estados Unidos.
As outras potências signatárias como a Europa, Rússia, China mantiveram o acordo, criticaram Washington e reforçaram a ideia de que os Estados Unidos são actor imprevisível. Gareth Porter, desmontando a narrativa americana sobre o programa nuclear iraniano, escreve: “The crisis was manufactured through misinterpretation, exaggeration, and selective intelligence.” Se a crise foi fabricada, o rasgar do acordo foi apenas o culminar lógico da ficção.
A escalada militar que se seguiu ao rasgar do acordo foi previsível. Os Estados Unidos intensificaram bombardeamentos contra posições iranianas e milícias aliadas no Iraque, na Síria e noutros pontos da região. O Irão respondeu com ataques a bases americanas, drones, navios e infra-estruturas energéticas de países do Golfo. A região transformou-se num tabuleiro onde cada movimento era acompanhado de retórica inflamável, ameaças veladas e demonstrações de força cuidadosamente calibradas.
Os bombardeamentos americanos, apresentados como medidas de contenção, revelaram-se incapazes de alterar o comportamento iraniano. O Irão, longe de recuar, intensificou a sua presença regional, reforçou alianças com grupos armados e demonstrou que possui capacidade de resposta não apenas militar, mas também política e simbólica. Gary Sick, testemunha privilegiada da relação tumultuosa entre os dois países, recorda que “U.S. policy toward Iran has often been driven more by emotion than strategy.” Nada mais adequado para descrever a diplomacia do rasgar papel.
A diplomacia do rasgar papel também revela fragilidade da política americana no Médio Oriente. Os Estados Unidos, outrora força dominante, enfrentam agora uma região onde a sua influência é contestada por múltiplos actores como Irão, Rússia, China, Turquia, e até aliados que não seguem cegamente Washington. A incapacidade de forçar a capitulação iraniana é símbolo desta mudança. O poder americano não é absoluto; é relativo. E o Irão, com a sua estratégia de resistência, tornou-se exemplo de como desafiar hegemonia sem colapsar.
A narrativa americana, que insiste em apresentar o Irão como ameaça global, ignora frequentemente que a própria política dos Estados Unidos contribuiu para fortalecer o regime iraniano. O rasgar do acordo enfraqueceu moderados, reforçou conservadores e legitimou o discurso antiamericano. Ray Takeyh, analisando a história iraniana, observa que “American missteps have repeatedly strengthened the very forces Washington seeks to weaken.” Eis o paradoxo de ao tentar enfraquecer o Irão, os Estados Unidos reforçaram-no.
A diplomacia do rasgar papel também tem dimensão psicológica. Os Estados Unidos acreditam que a sua assinatura é suficiente para transformer a realidade. Acreditam que, ao rasgar o documento, alteram o comportamento alheio. Acreditam que o mundo deve adaptar-se às suas decisões. Esta convicção, profundamente enraizada na narrativa da missão moral, impede que o país reconheça que outros actores possuem autonomia, interesses e capacidade de resistência.
O Irão, por sua vez, utiliza o rasgar do acordo como prova de que não pode confiar no Ocidente. Esta desconfiança, longe de ser obstáculo, tornou-se elemento central da sua política externa. O país reforçou alianças com Rússia e China, expandiu influência no Iraque, Síria, Líbano e Iémen, e consolidou posição como potência regional. A diplomacia do rasgar papel, ao invés de enfraquecer o Irão, contribuiu para a sua ascensão.
No fim, a diplomacia do rasgar papel é símbolo da fragilidade da política externa americana. Revela incapacidade de manter compromissos, dificuldade em compreender adversários e tendência para decisões impulsivas. O Irão, ao resistir, demonstra que o poder não se mede apenas em bombas, mas também em resiliência, estratégia e narrativa.
A diplomacia do rasgar papel é, em suma, arte americana de desfazer o que assina. Uma arte que combina dramatismo, voluntarismo e arrogância, mas que, como se viu, pode transformar adversários em protagonistas e aliados em críticos. O mundo observa, analisa e aprende porque, na política internacional, quem rasga papel pode acabar por rasgar a própria credibilidade.
Bibliografia
Albright, D., & Stricker, A. (2021). Iran’s Perilous Pursuit of Nuclear Weapons. Institute for Science and International Security.
Katzman, K. (2022). Iran: Internal Politics and U.S. Policy. Congressional Research Service.
Parsi, T. (2012). A Single Roll of the Dice: Obama’s Diplomacy with Iran. Yale University Press.
Porter, G. (2014). Manufactured Crisis: The Untold Story of the Iran Nuclear Scare. Just World Books.
Sick, G. (1985). All Fall Down: America’s Tragic Encounter with Iran. Random House.
Takeyh, R. (2021). The Last Shah: America, Iran, and the Fall of the Pahlavi Dynasty. Yale University Press.
Jorge Rodrigues Simão 2026

