A Colômbia, país de montanhas que se elevam como advertência e rios que correm como metáfora, vive desde 7 de Agosto de 2026 uma nova fase política que, para muitos observadores, se assemelha a uma peça de teatro com personagens de grande ambição, discursos inflamados, promessas que se erguem como catedrais e, inevitavelmente, receios que se insinuam como sombras. Abelardo, recém‑empossado presidente, surge no centro deste palco com um ideário político que alguns sectores da sociedade descrevem como voluntarista, centralizador e, em certos círculos mais inquietos, potencialmente inclinado para práticas de poder exacerbado. Não se trata de afirmar que o novo presidente deseja instaurar qualquer forma de autoritarismo; trata‑se, sim, de analisar criticamente a percepção pública que o rodeia e essa que, como bem sabemos, é tão poderosa quanto os factos.

Gustavo Petro, o presidente que saiu, deixou atrás de si uma narrativa de utopismo político que, para uns, foi bálsamo; para outros, tormento. Petro acreditava que o Estado podia ser instrumento de redenção social, e que a política, parafraseando Eduardo Galeano, deveria caminhar sempre em direcção ao horizonte da utopia. Abelardo, por contraste, apresenta‑se como figura de firmeza, de ordem, de disciplina institucional. A sua retórica, marcada por apelos à eficiência e à autoridade, tem sido interpretada por alguns analistas como sinal de uma possível concentração de poder. Não é raro ouvir, nos cafés de Bogotá, comparações com líderes que, ao longo da história latino‑americana, começaram com promessas de estabilidade e terminaram com práticas de controlo excessivo. A história, como dizia Octavio Paz, é uma serpente que se enrola sobre si mesma.

A posse de Abelardo foi um espectáculo de solenidade republicana, mas também de mensagens subtis. O novo presidente, ao discursar, evocou a necessidade de “restaurar a confiança nas instituições”, frase que, embora aparentemente inocente, carrega consigo a promessa de reconfiguração do equilíbrio de poderes. Alguns sectores da sociedade interpretaram esta promessa como sinal de que Abelardo pretende reforçar a autoridade presidencial em detrimento de outros órgãos do Estado. Não se trata de acusação; trata‑se de leitura política, tão legítima quanto inevitável num país onde a memória histórica é marcada por tensões entre centralização e descentralização.

A Colômbia, como bem recorda Marco Palacios na sua obra “Entre la legitimidad y la violência”, é território onde o poder raramente se exerce de forma linear. A relação entre Estado e sociedade é permeada por desconfiança, expectativa e, por vezes, temor. Assim, quando Abelardo apresenta um ideário político que enfatiza a autoridade, a disciplina e a necessidade de “mão firme”, não surpreende que alguns sectores interpretem tais declarações como prenúncio de práticas de governação mais rígidas. A política, afinal, é arte de interpretação e cada frase presidencial é um quadro que cada cidadão lê à sua maneira.

O ideário político de Abelardo, tal como exposto nos primeiros meses de governação, assenta em três pilares que são a eficiência administrativa, segurança pública reforçada e disciplina fiscal. Nenhum destes pilares é, por si só, motivo de alarme. Contudo, quando acompanhados de discursos que apelam à “unidade nacional sob uma liderança forte”, surgem receios de que a força possa, eventualmente, sobrepor‑se ao consenso. Como escreveu Hannah Arendt, “o poder corresponde à capacidade humana de agir em conjunto”; quando o poder deixa de ser conjunto e passa a ser concentrado, transforma‑se em outra coisa, algo que a filósofa não hesitou em chamar de dominação.

Os críticos de Abelardo, que não são poucos, afirmam que o novo presidente exibe tendência para centralizar decisões, reduzir espaços de debate e reforçar mecanismos de controlo estatal. Estes críticos, que se expressam em colunas de opinião, universidades e organizações civis, sustentam que o estilo de governação de Abelardo poderá, se não for equilibrado, resvalar para práticas de autoridade excessiva. Não se trata de profecia, mas de advertência. A história política da região está repleta de exemplos de líderes que, começando com promessas de ordem, terminaram por restringir liberdades. A Colômbia, que conhece bem os perigos da concentração de poder, observa com atenção.

Por outro lado, os defensores de Abelardo argumentam que o país precisa de liderança firme para enfrentar desafios como insegurança, desigualdade e fragilidade institucional. Estes defensores afirmam que a mão forte não é sinónimo de autoritarismo, mas de determinação. Citam Max Weber, que descreveu a política como “a lenta perfuração de tábuas duras”, e sustentam que Abelardo é precisamente o tipo de líder capaz de perfurar tais tábuas. Para estes sectores, os receios de autoritarismo são exagerados, fruto de desconfiança histórica e de resistência à mudança.

A verdade, como sempre, encontra‑se entre os extremos. Abelardo é líder que inspira tanto confiança quanto inquietação. A sua retórica, marcada por apelos à ordem, pode ser interpretada como sinal de estabilidade ou como prenúncio de rigidez. O seu ideário político, que enfatiza autoridade, pode ser visto como resposta necessária a desafios urgentes ou como risco de concentração de poder. A política, como bem recorda Norberto Bobbio, é campo onde “as palavras são armas” e Abelardo utiliza as suas com precisão calculada.

A percepção pública de que Abelardo poderá, eventualmente, enveredar por práticas de poder exacerbado não é fruto de imaginação. É fruto de contexto. A Colômbia vive há décadas entre promessas de transformação e exigências de ordem. Petro representava a transformação; Abelardo representa a ordem. Quando a ordem se apresenta com demasiada força, surgem receios. Quando a transformação se apresenta com demasiada ambição, surgem resistências. O país, que nunca foi terreno fértil para consensos, encontra‑se agora diante de dilema deaceitar a mão firme de Abelardo ou exigir que essa mão seja equilibrada por mecanismos de controlo democrático.

A imprensa internacional, sempre ávida de narrativas simplificadas, descreveu Abelardo como “líder pragmático de ambições firmes”. No entanto, essa descrição ignora a complexidade do contexto colombiano. A Colômbia não é país que se governe apenas com pragmatismo. Exige sensibilidade, equilíbrio, capacidade de ouvir e, sobretudo, respeito pelas instituições. Quando um líder enfatiza demasiado a autoridade, surgem receios de que essa autoridade possa, eventualmente, ultrapassar limites. Não é acusação; é prudência.

A sociedade colombiana, plural e vibrante, observa Abelardo com atenção. Alguns sectores temem que o novo presidente possa, com o seu ideário político e com declarações que apelam à disciplina, enveredar por práticas de governação mais rígidas. Outros sectores celebram a sua firmeza, considerando‑a necessária para enfrentar desafios urgentes. Entre estes dois extremos, encontra‑se o país que, como escreveu Gabriel García Márquez, vive “entre o real e o mágico”, entre o possível e o desejável.

O futuro dirá se Abelardo será lembrado como líder de estabilidade ou como dirigente que concentrou demasiado poder. A história, essa entidade caprichosa, raramente julga com rapidez. Mas observa, regista e, quando menos se espera, devolve o veredicto. Até lá, resta à Colômbia vigiar, debater e exigir que a autoridade seja sempre equilibrada pela democracia.

Bibliografia

Arendt, H. (1958). The Human Condition. University of Chicago Press.

Bobbio, N. (1984). Il futuro della democrazia. Einaudi.

Galeano, E. (1998). Patas arriba: La escuela del mundo al revés. Siglo XXI Editores.

Palacios, M. (2006). Entre la legitimidad y la violencia. Norma Editorial.

Paz, O. (1993). El laberinto de la soledad. Fondo de Cultura Económica.

Weber, M. (1919). Politik als Beruf. Duncker & Humblot.

Jorge Rodrigues Simão 2026