O mundo contemporâneo, esse palco onde as nações se exibem com a teatralidade de actores que confundem tragédia com espectáculo, voltou a oferecer-nos mais um episódio digno de figurar nas crónicas políticas do século XXI. O Irão, país de história milenar e de temperamento geopolítico inflamável, decidiu anunciar ao planeta que todos os Estados que participem na “imposição de restrições económicas” serão considerados inimigos. Não adversários, não opositores, não parceiros difíceis mas inimigos. A palavra, pesada como chumbo, foi pronunciada com a solenidade de quem acredita que o eco das ameaças é tão eficaz quanto a sua execução.

Mohsen Rezai, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, declarou na televisão estatal aquilo que já se suspeitava de que o Irão vê na guerra económica dos Estados Unidos não apenas uma afronta, mas uma agressão existencial. “Declaramos a todos os países à nossa volta e a todos os países do mundo que não se juntem à guerra económica liderada pelos Estados Unidos”, afirmou Rezai, com a firmeza de um profeta que anuncia desgraças inevitáveis. E acrescentou, num tom que faria estremecer qualquer diplomata: “Qualquer país que participe na imposição de restrições económicas será considerado um inimigo”.

A retórica iraniana, sempre exuberante, sempre carregada de simbolismo, sempre disposta a transformar política em epopeia, não se ficou por aqui. Rezai lembrou que o Irão, até agora, apenas visou bases militares, mas que poderá atacar interesses económicos americanos se as sanções forem intensificadas. A ameaça, embora envolta em dramatismo, não é inédita. O Médio Oriente habituou-se a discursos que oscilam entre advertência e profecia, entre diplomacia e fatalismo. Como escreveu Edward Said, “o Oriente é uma invenção do Ocidente”; mas o Irão, neste caso, parece empenhado em reinventar-se como protagonista de uma narrativa que desafia o poder económico global.

A administração americana, liderada por Donald Trump, respondeu com a subtileza habitual: nenhuma. Trump anunciou uma nova ofensiva económica contra o Irão, classificando-a como “a operação económica mais devastadora alguma vez empreendida contra qualquer país”. A frase, digna de um panfleto de guerra, ecoou na sua rede Truth Social como se fosse proclamação imperial. E, para que não restassem dúvidas, avisou que qualquer país que ofereça “qualquer tipo de tábua de salvação” ao Irão enfrentará consequências económicas.

O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, reforçou a mensagem, afirmando que os aliados que não apoiem a ofensiva económica estarão contra Washington. “Isto vai funcionar no Irão e vamos derrubar este regime”, disse Bessent à CNBC, numa entrevista que misturou convicção política com a confiança de quem acredita que a economia é arma tão eficaz quanto qualquer míssil. A expressão “maior operação coordenada de isolamento económico do mundo” foi repetida com a mesma naturalidade com que se anuncia uma nova política fiscal.

A China, sempre pragmática, previdente e consciente de que o estreito de Ormuz é artéria vital para o seu consumo energético, respondeu com a serenidade de quem não aprecia melodramas. O porta‑voz Lin Jian afirmou que as sanções unilaterais “não são solução para o problema” e apelou a uma resolução política e diplomática. A posição chinesa, longe de ser altruísta, é profundamente estratégica pois mais de um quarto do comércio iraniano em 2024 foi realizado com a China, e mais de 80% das exportações de petróleo iraniano tinham como destino Pequim antes da guerra económica. A China não defende o Irão por afinidade ideológica, mas por interesse energético.

Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, suspenderam todas as transacções com Teerão, numa demonstração de alinhamento com Washington que revela mais cálculo do que convicção. A Turquia, a Rússia, o Iraque, a Índia e a Alemanha mantêm laços económicos com o Irão, embora cada um com motivações distintas. A Alemanha, por exemplo, exportou 870,5 milhões de euros para o Irão entre Janeiro e Novembro de 2025, segundo o Destatis. A economia, essa força invisível que move o mundo, continua a unir países mesmo quando a política tenta separá-los.

O Irão, ao declarar que qualquer país que participe na guerra económica será considerado inimigo, não está apenas a emitir aviso mas também a redefinir o mapa das alianças. Está a transformar a economia em campo de batalha, as sanções em projécteis, os mercados em trincheiras. Como escreveu Karl Polanyi, “a economia está sempre incrustada nas relações sociais”; e, neste caso, está incrustada também nas relações de poder, nas tensões regionais, nas rivalidades históricas.

A ameaça de Rezai de que “o nosso confronto será como um terramoto” não deve ser interpretada literalmente, mas simbolicamente. O terramoto é metáfora de ruptura, de transformação, de desestabilização. O Irão não promete destruir o mundo, promete abalar a ordem económica que o marginaliza. Promete resistir, promete retaliar, promete transformar sanções em catalisadores de conflito.

A guerra económica, conceito que mistura finanças com geopolítica, tornou-se instrumento preferido das grandes potências. Os Estados Unidos utilizam-na como forma de pressão, acreditando que o isolamento económico conduz à mudança política. O Irão vê nela tentativa de sufocamento, agressão disfarçada de política fiscal. A China interpreta-a como ameaça à estabilidade energética. A Europa observa, hesitante, dividida entre alianças históricas e interesses comerciais.

O mundo, portanto, encontra-se numa encruzilhada. A economia, que deveria ser ponte, tornou-se arma. As sanções, que deveriam ser último recurso, tornaram-se primeira opção. A diplomacia, que deveria ser diálogo, tornou-se palco de ameaças. E, como escreveu Hannah Arendt, “o poder corresponde à capacidade humana de agir em conjunto”; mas, neste caso, o mundo parece empenhado em agir separado, fragmentado, dividido.

O Irão, ao declarar inimigos, não está apenas a reagir mas a posicionar-se. Está a dizer ao mundo que não aceitará passivamente o isolamento. Está a avisar que a economia não é campo neutro, mas terreno de disputa. Está a lembrar que a soberania não se mede apenas em território, mas também em autonomia financeira.

Os Estados Unidos, ao intensificar sanções, acreditam que a pressão económica conduzirá à mudança política. A história, porém, mostra que sanções raramente produzem os resultados desejados. Como escreveu John Kenneth Galbraith, “a economia é extremamente útil como forma de emprego para economistas”; mas, na prática, é menos previsível do que os modelos sugerem.

A China, ao opor-se à guerra económica, não está a defender o Irão mas o seu próprio abastecimento energético. Está a proteger o estreito de Ormuz, por onde passa grande parte do petróleo que alimenta a sua economia. Está a evitar que o conflito económico se transforme em conflito militar.

A Europa, ao manter relações comerciais com o Irão, revela que a política externa é sempre mistura de princípios e interesses. A Alemanha, ao exportar quase 900 milhões de euros, demonstra que a economia não obedece cegamente à diplomacia.

O Irão, ao ameaçar retaliar, está a dizer ao mundo que não será espectador. Está a avisar que a guerra económica terá consequências. Está a transformar sanções em catalisadores de tensão.

E assim, o mundo avança, como navio em mar revolto, guiado por capitães que confundem tempestade com destino. A economia tornou-se arma, a diplomacia tornou-se palco, a política tornou-se teatro. E nós, espectadores involuntários, observamos, conscientes de que cada ameaça, cada sanção, cada retaliação, é aviso à navegação num oceano onde as ondas são tão imprevisíveis quanto os homens que as comandam.

Bibliografia

  • Arendt, Hannah. The Human Condition. University of Chicago Press, 1958.
  • Galbraith, John Kenneth. The Age of Uncertainty. Houghton Mifflin, 1977.
  • Polanyi, Karl. The Great Transformation. Beacon Press, 1944.
  • Said, Edward. Pantheon Books, 1978.
  • Destatis – Gabinete Federal de Estatística da Alemanha. German Export Data 2025.
  • Global Oil Flows Report 2024–2025.
  • Ministério dos Negócios Estrangeiros da China. Press Briefing, Lin Jian, 2026.
  • Interview with Scott Bessent, 2026.

Jorge Rodrigues Simão 2026