O Sudão, esse vasto território onde a poeira do Saara se mistura com a poeira das esperanças humanas, voltou a ocupar o centro das lamentações globais. Desde 2023, o conflito entre o exército regular e as Forças de Apoio Rápido (FSR) transformou o país num laboratório de desgraças, onde se experimentam novas formas de sofrimento com a mesma diligência com que as potências desenvolvidas testam os seus aparelhos de última geração. A contabilidade macabra ultrapassa as dezenas de milhares de mortos, e milhões de deslocados vagueiam como sombras de uma humanidade que insiste em sobreviver.

Foi neste cenário que o Papa Leão XIV, com a gravidade de quem carrega sobre os ombros a herança de séculos de doutrina e diplomacia, apelou à abertura de corredores humanitários. Fê-lo no Angelus, esse momento em que Roma suspende o fôlego e o mundo finge escutar. Declarou o Sumo Pontífice: “Ao expressar a minha proximidade espiritual com toda a população do país, renovo o meu apelo às autoridades para garantirem corredores humanitários para a população civil.” A frase, tão simples quanto necessária, ecoou como um salmo num deserto de indiferença. Mas o deserto é vasto, e a indiferença, essa erva daninha da política internacional, cresce com fertilidade espantosa.

El Obeid, maior cidade do Cordofão do Sul, tornou-se o epicentro de uma tempestade de drones que não distingue entre combatentes e crianças, entre alvos militares e mercados improvisados. A ONU, sempre pronta a emitir comunicados que os diplomatas leem com a mesma atenção com que se lêem instruções de detergente, lançou um “alerta vermelho”. A expressão, tão dramática quanto inútil, descreve uma “catástrofe” em curso.

Segundo dados das Nações Unidas, mais de mil civis foram mortos por drones nos primeiros cinco meses do ano. Mil vidas apagadas por aparelhos que, vistos de longe, parecem brinquedos tecnológicos, mas que, vistos de perto, revelam a verdadeira vocação da modernidade de transformar a morte num processo automatizado, higiénico, quase administrativo.

A ONU alertou ainda que os avanços das FSR em El Obeid poderão conduzir a atrocidades de grande escala. A palavra “atrocidades”, usada com parcimónia nos relatórios oficiais, é aqui empregue com a mesma naturalidade com que se fala de chuvas torrenciais ou de colheitas fracas. A banalização do horror tornou-se um dos mais notáveis triunfos da diplomacia contemporânea.

O Papa Leão XIV, ao apelar à abertura de corredores humanitários, não fez mais do que recordar ao mundo que a compaixão ainda é uma virtude que merece ser mencionada em público. No entanto, a compaixão, quando aplicada ao Sudão, parece sofrer de uma espécie de anemia diplomática. As grandes potências, sempre prontas a defender princípios universais desde que não impliquem custos, observam o conflito com a mesma curiosidade com que se observa um incêndio distante pois lamenta-se a tragédia, mas não se larga o copo de vinho.

O Sumo Pontífice exortou também a comunidade internacional a apoiar um cessar-fogo imediato. A expressão “cessar-fogo”, repetida à exaustão em comunicados e conferências, tornou-se uma espécie de mantra secular. Mas, como todos os mantras, só funciona quando quem o recita acredita nele. E a comunidade internacional, essa entidade nebulosa que existe sobretudo nos discursos, acredita no cessar-fogo com a mesma convicção com que acredita na dieta mediterrânica que é saudável, mas dá trabalho.

O recurso a drones tornou-se uma característica marcante do conflito. Não se trata apenas de uma evolução tecnológica; trata-se de uma mudança moral. O drone é o símbolo perfeito da guerra moderna que mata à distância, sem risco para quem o opera, sem testemunhas, sem remorsos. É a guerra higienizada, a guerra sem cheiro, a guerra sem lágrimas pelo menos para quem a conduz.

O drone é, por assim dizer, o novo soldado ideal que não questiona ordens, não sofre de fadiga, não escreve cartas à família, não deserta. E, sobretudo, não aparece nas estatísticas de baixas militares. É a vitória da engenharia sobre a ética.

A ONU descreve a situação no Sudão como a mais grave crise alimentar do mundo. A fome, essa velha companheira das guerras africanas, voltou a instalar-se com a mesma familiaridade com que um hóspede frequente se instala numa pensão barata. Milhões de pessoas dependem de ajuda humanitária que não chega, não porque faltem recursos, mas porque faltam corredores seguros.

A fome é, aliás, a arma mais eficaz do conflito. Não exige munições, não requer drones, não precisa de estratégias militares. Basta impedir o acesso a alimentos, bloquear rotas, destruir colheitas. A fome é a guerra silenciosa, a guerra que não aparece nos relatórios de armamento, mas que produz cadáveres com a mesma eficiência que qualquer míssil.

A comunidade internacional, sempre pronta a emitir comunicados de preocupação, continua a demonstrar uma extraordinária capacidade de transformar a tragédia em burocracia. Cada massacre gera um relatório; cada deslocamento de populações gera uma conferência; cada ataque com drones gera uma nota de imprensa. A máquina diplomática funciona com a mesma regularidade que um relógio suíço mas, infelizmente, com a mesma utilidade que um relógio parado.

O apelo do Papa Leão XIV, embora moralmente necessário, corre o risco de se perder na cacofonia das declarações internacionais. A compaixão papal, tão sincera quanto impotente, enfrenta a frieza dos interesses geopolíticos, que não se comovem com cadáveres, mas estremecem com flutuações no preço do petróleo.

O Sudão tornou-se o espelho onde o mundo observa a sua  consciência intermitente. A tragédia é conhecida, os números são públicos, os relatórios são abundantes. Falta apenas a vontade essa substância rara que, quando existe, muda a história, mas que, quando falta, transforma a história num catálogo de desgraças. O Papa Leão XIV fez o que lhe compete que é apelar à humanidade. O mundo fará o que costuma fazer que é ouvir, lamentar, arquivar e prosseguir.

A abertura de corredores humanitários é urgente, necessária, vital. Mas, para que existam, é preciso que o mundo abandone a confortável posição de espectador e assuma a desconfortável posição de interveniente. E isso, como se sabe, exige coragem que é uma virtude que, ao contrário dos drones, não pode ser fabricada em série.

Bibliografia

United Nations. (2024). Sudan Humanitarian Update. UN Office for the Coordination of Humanitarian Affairs.

Human Rights Watch. (2024). Sudan: Drone Attacks and Civilian Casualties. HRW Reports.

International Crisis Group. (2024). Sudan’s War and the Collapse of the State. ICG Africa Briefing.

World Food Programme. (2024). Global Food Crisis Report. WFP Publications.

Vatican News. (2026). Angelus: Pope Leo XIV Appeals for Humanitarian Corridors in Sudan. Holy See Press Office.

Jorge Rodrigues Simão 2026