“The greatest enemy of clear language is insincerity.”

 George Orwell, Politics and the English Language (1946)

Há quem diga que o futuro pertence aos algoritmos, mas o que realmente se insinua nos subterrâneos da Internet é algo mais antigo como o desejo de regressar ao trono. O chamado pensamento neorreacionário, baptizado por Curtis Yarvin e Nick Land, é a mais recente tentativa de vestir o absolutismo com roupa de silicone. A sua estética é digital, mas o seu coração pulsa ao ritmo de Luís XIV. “L’État, c’est moi”, versão 2.0.

Durante as décadas de 2010 e 2020, enquanto o mundo se distraía com selfies e criptomoedas, um grupo de intelectuais marginais começou a escrever em blogues e fóruns com nomes que soam a feitiços: “Unqualified Reservations, Xenosystems, Social Matter”. Curtis Yarvin, sob o pseudónimo Mencius Moldbug, e Nick Land, o filósofo britânico exilado na própria mente, fundaram o que chamaram Iluminismo das Trevas que é uma ironia que faria Voltaire engasgar-se com o seu próprio sarcasmo.

A ideia central é simples e brutal de que a democracia falhou. Segundo Yarvin, o Estado moderno é uma empresa mal gerida, infestada de burocratas e jornalistas, e deveria ser administrado como uma corporação privada. O CEO seria o monarca eleito, talvez, por capital de risco. A cidadania, reduzida a acções preferenciais. O voto, um gesto obsoleto. A liberdade, um produto premium.

Nick Land, por sua vez, mistura filosofia continental com ficção científica. Em “Fanged Noumena” (2011), escreve que “a aceleração é inevitável; o capitalismo é o motor da história”. Para ele, a democracia é um travão, e o progresso exige velocidade mesmo que o veículo se desintegre. É o niilismo com estética de startup.

Os neorreacionários acreditam que a igualdade é uma ilusão perigosa. Citam Thomas Carlyle, o profeta vitoriano da autoridade, que em “On Heroes and Hero Worship (1841) defendia que “a sociedade precisa de grandes homens, não de assembleias”. A diferença é que, hoje, os “grandes homens” são bilionários de Silicon Valley, e as assembleias são vistas como bugs no sistema.

A democracia, dizem, é lenta, emocional e irracional. O algoritmo, em contrapartida, é puro, lógico e incorruptível até ser programado por alguém com interesses. A ironia é deliciosa e o movimento que se proclama anti‑democrático depende da mais democrática das invenções, a Internet, onde qualquer um pode publicar um manifesto e ser coroado rei por meia dúzia de seguidores.

O que começou como filosofia de nicho ganhou, pouco a pouco, o patrocínio de alguns bilionários. Peter Thiel, cofundador da PayPal e investidor em Facebook, declarou em 2009 que “não acredito mais que a liberdade e a democracia sejam compatíveis”. Essa frase tornou-se o credo dos neorreacionários. Thiel financiou projectos tecnológicos e políticos que ecoam a ideia de que o Estado deve ser substituído por redes privadas de poder.

A vitória de Donald Trump em 2024 foi interpretada por muitos como o sinal verde. O populismo, dizem, abriu caminho para o pós‑democrático. A América tornou-se laboratório de experiências políticas que misturam nostalgia monárquica com tecnocracia libertária. O resultado é uma alquimia perigosa como o autoritarismo com interface amigável.

O neorreacionarismo é, paradoxalmente, uma reacção à própria modernidade que o gerou. Critica o liberalismo, o feminismo, o multiculturalismo, e até o humanismo. Para Yarvin, a igualdade entre homens e mulheres é “um erro biológico”; para Land, a moral é “um vírus que impede a evolução”. São ideias que fariam corar até Nietzsche, que em “Genealogia da Moral” (1887) já avisava que “o homem moderno é um animal domesticado”.

Mas o que distingue estes novos reaccionários dos antigos é o seu fetichismo tecnológico. Querem substituir o parlamento por código, o debate por dados e o cidadão por utilizador. A política torna-se uma aplicação, e o Estado, um servidor. O problema é que servidores também caem.

Chamar “Iluminismo das Trevas” a um movimento que defende o fim da democracia é uma provocação calculada. É o marketing da contradição. Como escreveu Susan Sontag em “Against Interpretation (1966), “a ironia é o luxo dos desesperados”. E este movimento é, acima de tudo, um sintoma de desespero de uma elite que teme perder o controlo num mundo onde o poder se fragmenta.

Os neorreacionários não querem regressar ao passado; querem reinventá-lo com estética futurista. Sonham com uma monarquia algorítmica, onde o soberano é um programador e o súbdito, um utilizador com login limitado. É o feudalismo em versão beta.

Com Trump no poder, o discurso neorreacionário ganhou palco. A retórica da eficiência, da autoridade e da “limpeza institucional” ecoa nas políticas de centralização executiva. O que antes era filosofia de blog tornou-se argumento de gabinete. A ideia de que o Estado deve ser “gerido como uma empresa” já não é metáfora; é plano de governo.

Mas há uma diferença crucial; os neorreacionários desprezam o populismo. Consideram-no sentimental, plebeu e demasiado humano. O seu ideal é frio, matemático, quase robótico. Querem substituir o carisma por cálculo e a política por engenharia. É o triunfo da tecnocracia sobre a empatia.

O sucesso do movimento deve-se, em grande parte, à sua estética. Os seus textos são densos, enigmáticos, cheios de jargão filosófico e referências a Lovecraft, Deleuze, Spengler. É uma mistura de horror cósmico e teoria política. O leitor sente-se inteligente por compreender metade. É o mesmo truque usado por gurus financeiros e influencers espirituais de confundir para seduzir.

Como advertiu Umberto Eco em “Apocalittici e Integrati (1964), “a cultura de massas cria mitologias instantâneas”. O neorreacionarismo é uma dessas mitologias; uma narrativa que promete ordem num mundo caótico, hierarquia num universo líquido e sentido numa era de ruído.

O que me inquieta não é a excentricidade das ideias, mas a sua viabilidade emocional. Num tempo de desinformação, desigualdade e fadiga democrática, a promessa de um líder forte e de um sistema simples soa tentadora. Como escreveu Hannah Arendt em “The Origins of Totalitarianism (1951), “a solidão é o terreno fértil do totalitarismo”. E nunca estivemos tão sós.

A Internet, que deveria unir, fragmenta. As redes sociais, que deveriam democratizar, polarizam. O algoritmo, que deveria servir, governa. E nesse vazio de confiança, o neorreacionarismo oferece uma solução que é abdicar da liberdade em troca de eficiência. É o pacto faustiano da era digital.

Na minha opinião, o pensamento neorreacionário é o espelho distorcido da nossa época. É a caricatura da modernidade, o reflexo sarcástico de um mundo que perdeu fé na democracia mas ainda não encontrou substituto. É o grito de uma elite que teme o caos e responde com autoritarismo disfarçado de inovação.

O “Iluminismo das Trevas” não é apenas uma corrente filosófica; é um sintoma cultural. E como todos os sintomas, revela mais sobre a doença do que sobre a cura. Se não estivermos atentos, o futuro poderá ser governado por CEOs de almas vazias, algoritmos sem ética e reis sem coroa mas com acesso ilimitado ao servidor.

O neorreacionarismo é, em essência, uma utopia invertida. Onde o progressista vê luz, o neorreacionário vê ruína; onde o democrata vê pluralidade, ele vê entropia. É o pessimismo transformado em programa político, embalado em linguagem de código e servido com estética de distopia. Curtis Yarvin, o seu profeta mais prolixo, escreve como quem quer salvar o mundo de si mesmo mas o remédio que propõe é uma transfusão de autoritarismo.

Nick Land, o seu parceiro filosófico, é mais radical pois quer acelerar o colapso. Em “Fanged Noumena”, mistura Deleuze com Lovecraft e chega à conclusão de que o capitalismo é uma força cósmica que devora tudo, inclusive a moral. “A aceleração é inevitável”, diz ele, como se fosse uma lei da física. O problema é que, quando se acelera num abismo, o impacto não é progresso; é extinção.

O neorreacionarismo seduz porque promete simplicidade num mundo complexo. A democracia é barulhenta, contraditória, lenta. O algoritmo é silencioso, eficiente, rápido. Mas como advertiu Shoshana Zuboff em “The Age of Surveillance Capitalism (2019), “a eficiência sem ética é apenas dominação disfarçada”. O sonho neorreacionário é o de um Estado que funcione como uma empresa mas estas não têm cidadãos, têm clientes. E clientes podem ser descartados.

A ironia é que esta ideologia floresce precisamente nas plataformas que simbolizam a liberdade digital. Twitter, Reddit, Substack que são os novos salões literários da reacção. A diferença é que, em vez de discutir Rousseau, discutem o preço das acções e a pureza genética. É o Iluminismo transformado em thread.

Yarvin defende que o Estado deve ser governado por um “CEO soberano”. A ideia é tão absurda quanto fascinante. O rei moderno não usa coroa, usa dashboard. O trono é uma cadeira ergonómica. O cetro, um smartphone. O súbdito, um utilizador com senha temporária.

Este modelo, que mistura monarquia e gestão empresarial, tem ecos em Max Weber, que em “Economy and Society (1922) descreveu a burocracia como “a forma mais racional de dominação”. Os neorreacionários apenas levam essa racionalidade ao extremo pois querem eliminar o humano da equação. O Estado ideal seria uma máquina que governa sem hesitação, sem compaixão e, claro, sem eleições.

O neorreacionarismo tornou-se uma moda entre jovens intelectuais desencantados. É o equivalente político do dark academia com estética sombria, citações Latinas e desprezo pelo presente. Como escreveu Mark Fisher em “Capitalist Realism (2009), “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Os neorreacionários imaginam ambos e acham que o primeiro é solução para o segundo.

O movimento é também uma reacção ao fracasso das utopias progressistas. Depois de décadas de promessas não cumpridas, o cinismo tornou-se virtude. A ironia é que, ao rejeitar o idealismo, os neorreacionários criam uma nova utopia da ordem absoluta. Querem substituir o caos democrático por uma hierarquia perfeita, esquecendo que perfeição é apenas outra forma de tirania.

Silicon Valley é o berço espiritual do neorreacionarismo. Ali, entre servidores e startups, floresce a crença de que tudo pode ser optimizado inclusive a política. Peter Thiel, em “Zero to One” (2014), escreve que “a concorrência é para perdedores”. Os neorreacionários aplicam a máxima ao governo de que a democracia é concorrência, logo, é para perdedores.

Empresários e tecnólogos vêem no movimento uma justificação filosófica para o seu poder. Se o Estado é uma empresa, quem melhor para governar do que quem já domina o mercado? É o capitalismo a coroar-se rei. E como todo o rei, exige tributo neste caso, em forma de dados.

O neorreacionarismo é elitista por natureza. Considera o povo uma multidão irracional, incapaz de compreender a complexidade do mundo moderno. É uma visão que ecoa Gustave Le Bon, autor de “The Crowd (1895), que descreveu as massas como “emocionais, impulsivas e facilmente manipuláveis”. Os neorreacionários apenas actualizam o diagnóstico de que agora, a manipulação é feita por algoritmos.

A ironia é que, ao desprezar o povo, o movimento depende dele para existir. Sem seguidores, não há influência. Sem cliques, não há poder. É a aristocracia digital é dependente da plebe dos likes.

Para Nick Land, a moral é um erro de programação. A ética, um obstáculo à eficiência. É uma visão que lembra Ayn Rand, autora de “Atlas Shrugged (1957), que glorificava o egoísmo como virtude. Mas enquanto Rand ainda acreditava em indivíduos heroicos, Land acredita em sistemas impessoais. O humano é ruído; o algoritmo, música.

Esta desumanização é o ponto mais perigoso do movimento. Quando se elimina a moral, tudo se torna possível inclusive o impensável. Como advertiu Primo Levi em “Se questo è un uomo (1947), “aconteceu, portanto pode voltar a acontecer”. O neorreacionarismo, ao reduzir o humano a variável, abre caminho para o retorno do inumano.

A Internet é o terreno fértil onde germina o neorreacionarismo. Os seus textos circulam em fóruns, threads, subreddits. São lidos por jovens que confundem radicalismo com profundidade. O estilo é deliberadamente hermético, como se a obscuridade fosse sinal de genialidade. É o mesmo truque usado por alquimistas e consultores financeiros pois se ninguém entende, deve ser importante.

Mas há algo de genuinamente novo que é a fusão entre filosofia e memes. O pensamento neorreacionário não se limita a livros; vive em imagens, slogans, hashtags. É o niilismo em formato viral. Como escreveu Marshall McLuhan em “Understanding Media (1964), “o meio é a mensagem”. E aqui, o meio é o caos.

O maior risco não é que os neorreacionários venham a dominar o mundo, mas que o mundo se torne indiferente às suas ideias. A indiferença é o solo onde germinam as tiranias. Quando a democracia se torna rotina, o autoritarismo parece novidade. Quando a liberdade se banaliza, a servidão parece ordem.

Como advertiu Timothy Snyder em “On Tyranny”(2017), “a história não se repete, mas ensina”. E o que ela ensina é simples de que o poder concentrado, mesmo quando promete eficiência, acaba por exigir obediência. O neorreacionarismo é apenas a versão digital desse velho vício humano.

Assim, o pensamento neorreacionário é o sintoma mais sofisticado da fadiga democrática. É o murmúrio de uma elite que, cansada de justificar privilégios, decide transformá-los em doutrina. É o sarcasmo elevado a sistema político. E como todo sarcasmo, revela mais verdade do que gostaria.

O “Iluminismo das Trevas” não é apenas uma provocação intelectual; é um aviso. Mostra que a tecnologia, sem ética, pode ser o novo absolutismo. Que a eficiência, sem humanidade, é apenas crueldade com boa conexão. E que o futuro, se não for vigiado, pode muito bem ser governado por reis de silício e súbditos de código.

Por fim, O movimento apresenta-se como uma alternativa racional ao caos democrático, mas a sua racionalidade é apenas uma máscara para o velho impulso humano de dominar. A diferença é que, desta vez, o domínio não se exerce com espadas, mas com servidores; não com exércitos, mas com algoritmos; não com decretos, mas com updates. É o autoritarismo em versão software as a service.

O que me preocupa não é a força actual do movimento, mas a sua compatibilidade com o espírito do tempo. Vivemos numa era de fadiga democrática, de saturação informativa, de desconfiança generalizada. A promessa de um sistema simples, eficiente e hierárquico soa tentadora sobretudo para quem já não acredita que a democracia possa ser reformada. Como escreveu Zygmunt Bauman em “Liquid Modernity (2000), “a insegurança é a nova normalidade”. E onde há insegurança, há sempre quem ofereça ordem em troca de obediência.

Os neorreacionários não são monstros; são sintomas. Sintomas de uma sociedade que perdeu o hábito de pensar em conjunto, que substituiu o debate pela reacção, que trocou a política pela performance. São o espelho negro de uma época que já não sabe distinguir liberdade de ruído, igualdade de ressentimento, progresso de aceleração.

O perigo maior é que o movimento não precisa de conquistar o poder para vencer. Basta que a democracia continue a corroer-se por dentro, basta que o cidadão continue a sentir-se irrelevante, basta que o algoritmo continue a decidir por nós. O neorreacionarismo é a ideologia perfeita para um mundo que já desistiu de si mesmo.

E, no entanto, há uma ironia final de que o movimento que proclama o fim da democracia depende inteiramente da liberdade de expressão que a democracia lhe concede. Sem ela, Yarvin seria apenas um programador frustrado; Land, um filósofo obscuro; os seus seguidores, sombras num fórum abandonado. A democracia, com todos os seus defeitos, é o solo fértil onde até as ideias que a querem destruir conseguem florescer.

Talvez seja essa a sua maior força e a sua maior fragilidade. O pensamento neorreacionário é um aviso, não um destino. É o sinal de que a democracia precisa de ser renovada, não substituída; de que a tecnologia precisa de ser regulada, não venerada; de que a liberdade precisa de ser defendida, não automatizada. O futuro não está escrito mas está, sem dúvida, a ser codificado. E convém que estejamos atentos a quem escreve o código. Porque, como disse William Gibson, “o futuro já está aqui apenas não está distribuído de forma igual”. Os neorreacionários querem distribuí-lo de forma vertical. Cabe-nos impedir que o façam.

* Recomendo sobre este tema o livro “O Iluminismo das Trevas” de Arnaud Miranda 

Bibliografia

  • Yarvin, Curtis. Unqualified Reservations (blog, 2007–2014).
  • Land, Nick. Fanged Noumena: Collected Writings 1987–2007. Urbanomic, 2011.
  • Thiel, Peter. Zero to One. Crown Business, 2014.
  • Zuboff, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. PublicAffairs, 2019.
  • Fisher, Mark. Capitalist Realism. Zero Books, 2009.
  • Weber, Max. Economy and Society. University of California Press, 1978.
  • Le Bon, Gustave. The Crowd: A Study of the Popular Mind. Macmillan, 1895.
  • Rand, Ayn. Atlas Shrugged. Random House, 1957.
  • Levi, Primo. Se questo è un uomo. Einaudi, 1947.
  • Bauman, Zygmunt. Liquid Modernity. Polity Press, 2000.
  • Sontag, Susan. Against Interpretation. Farrar, Straus and Giroux, 1966.
  • McLuhan, Marshall. Understanding Media. McGraw-Hill, 1964.
  • Snyder, Timothy. On Tyranny. Tim Duggan Books, 2017.
  • Gibson, William. Entrevista em The Economist, 2003.

Jorge Rodrigues Simão 2026