O título escolhido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico para o seu mais recente relatório económico dificilmente poderia ser mais eloquente como “Weathering Successive Shocks”. A designação tem o mérito raro da honestidade. Num tempo em que instituições, governos e consultoras se esforçam por revestir de optimismo estatístico aquilo que muitas vezes não passa de apreensão bem disfarçada, a OCDE optou por admitir aquilo que qualquer cidadão que paga contas, compra alimentos ou acompanha os mercados já percebeu há muito de que a economia mundial transformou-se numa sucessão de sobressaltos permanentes.
Durante décadas vendeu-se a ideia de que a globalização criaria uma espécie de mecanismo quase automático de prosperidade. Havia crises, naturalmente, mas estas eram apresentadas como simples acidentes de percurso numa estrada que conduzia inevitavelmente ao progresso. A realidade revelou-se menos romântica. Hoje, uma guerra aumenta o preço da energia, uma seca altera as cadeias alimentares, uma tarifa comercial perturba o comércio internacional e um algoritmo passa a valer mais do que uma fábrica inteira.
A OCDE reconhece que o crescimento económico global abrandou durante o primeiro semestre de 2026, ainda que tenha demonstrado uma resiliência superior à inicialmente prevista. O organismo estima um crescimento mundial de 2,9% este ano e de 3% em 2027, números que revelam estabilidade apenas para quem confunde sobrevivência com prosperidade.
Se observarmos a China, durante anos apresentada como locomotiva imparável da economia mundial, encontramos um retrato esclarecedor da nova realidade. O crescimento deverá passar de 5% para 4,5% em 2026 e para 4,2% em 2027. Trata-se de valores que muitos países ocidentais invejariam, mas que representam uma desaceleração significativa para uma economia habituada a ritmos muito mais acelerados.
O fenómeno recorda uma observação de John Maynard Keynes em “The General Theory of Employment, Interest and Money” (1936): “A dificuldade não reside nas novas ideias, mas em escapar às antigas”. Durante anos acreditou-se que o crescimento chinês seria inesgotável. Hoje descobre-se que até os gigantes tropeçam nos limites da demografia, do endividamento e da produtividade.
Os Estados Unidos surgem com previsões mais favoráveis, crescendo 2,2% este ano e 2,1% em 2027. Contudo, o aspecto mais curioso do diagnóstico da OCDE é o novo papel atribuído à inteligência artificial. A IA aparece quase como a divindade tecnológica da década, chamada a justificar expectativas, valorizações bolsistas e promessas de produtividade futura. Segundo a organização, o investimento relacionado com inteligência artificial está a sustentar produção, comércio e crescimento económico.
Naturalmente, ninguém questiona o potencial transformador da tecnologia. O problema começa quando a tecnologia deixa de ser instrumento para se tornar fé. O economista Robert J. Gordon, na obra “The Rise and Fall of American Growth” (2016), alertou precisamente para o risco de sobrevalorizar os impactos económicos de determinadas revoluções tecnológicas. Nem todas as inovações produzem transformações equivalentes à electricidade, à água canalizada ou aos motores de combustão.
Mas o mundo contemporâneo possui uma fascinante capacidade para transformar expectativas em factos consumados. Se um sector recebe milhares de milhões em investimento, logo surgem especialistas a explicar que tal investimento era inevitável. Quando o retorno efectivo ainda está por demonstrar, a fé continua intacta, apenas adiada para o trimestre seguinte.
A Zona Euro permanece no papel de paciente crónico da economia global. Crescimento de 1% este ano e previsão semelhante para 2027 constituem números demasiado fracos para entusiasmar e demasiado positivos para justificar reformas profundas. Há nesta situação um paradoxo quase literário. Nunca houve tantos relatórios, indicadores, observatórios e especialistas. E, apesar disso, a produtividade permanece teimosamente modesta. Como observou o historiador económico Joel Mokyr em “A Culture of Growth” (2016), o crescimento sustentável resulta menos da acumulação de conhecimento e mais da capacidade das sociedades para o transformar em inovação efectiva. É precisamente esse passo que parece mais difícil.
A inflação constitui outro dos temas centrais do relatório. A OCDE prevê uma subida temporária dos preços impulsionada pelas matérias-primas antes de uma moderação gradual até 2027. Nos países do G20 a inflação poderá recuar dos 4,1% para cerca de 2,5%. Contudo, os consumidores conhecem bem a diferença entre a desaceleração da inflação e a descida dos preços. A primeira significa apenas que os preços continuam a aumentar, mas de forma menos acelerada. A segunda é aquilo que as famílias realmente desejam e raramente obtêm. É uma distinção simples, embora frequentemente omitida nos discursos oficiais.
Enquanto isso, os preços da energia continuam dependentes das tensões geopolíticas. A OCDE alerta que os efeitos do conflito no Médio Oriente foram parcialmente contidos graças às reservas petrolíferas, ao aumento da oferta proveniente de outros produtores e às medidas governamentais de apoio. Em linguagem menos diplomática, isto significa que a economia mundial escapou a um problema maior graças a uma conjugação feliz de circunstâncias. A diferença entre uma crise energética controlada e uma crise energética devastadora pode depender, por vezes, de factores que escapam completamente ao planeamento económico.
As alterações climáticas surgem igualmente entre os riscos destacados. O relatório refere o impacto potencial de fenómenos como o El Niño sobre a produção agrícola e os preços alimentares. Não deixa de ser irónico que a humanidade tenha conquistado capacidades tecnológicas extraordinárias e continue vulnerável a uma estação demasiado quente ou a uma chuva demasiado escassa. O progresso não eliminou a dependência da natureza; apenas a tornou mais complexa.
No chamado “livro de receitas”, a OCDE aconselha bancos centrais a manterem as expectativas de inflação ancoradas e governos a promoverem eficiência energética, diversificação de fontes e reformas estruturais. Nada disto é particularmente revolucionário. Na verdade, muitas recomendações da economia contemporânea lembram aquelas prescrições médicas que mandam descansar mais, comer melhor e praticar exercício físico. São sensatas, correctas e repetidas há décadas. O verdadeiro problema raramente reside no conhecimento da solução, mas na vontade política para a implementar.
E onde fica Macau neste complexo tabuleiro? Macau encontra-se numa posição simultaneamente privilegiada e vulnerável. Privilegiada porque continua a beneficiar da recuperação do turismo, do consumo proveniente da Grande Baía e da reactivação progressiva dos fluxos económicos regionais. Vulnerável porque permanece fortemente dependente de sectores ligados ao turismo e ao jogo, bem como da evolução da economia chinesa.
Os dados recentes mostram crescimento económico positivo, impulsionado sobretudo pelo aumento das chegadas de visitantes e das exportações de serviços turísticos. O PIB de Macau registou evoluções favoráveis ao longo de 2026, embora ainda sem recuperar plenamente os níveis relativos de actividade observados antes das perturbações globais dos últimos anos.
Se a desaceleração chinesa se confirmar nos moldes previstos pela OCDE, Macau enfrentará inevitavelmente efeitos indirectos. Menor crescimento significa, frequentemente, maior prudência dos consumidores, menor investimento privado e maior sensibilidade às oscilações de rendimento. Não se trata de prever uma crise, mas de reconhecer uma relação económica elementar.
Ao mesmo tempo, a aposta global na inteligência artificial pode criar oportunidades inesperadas. Macau tem procurado diversificar a sua base económica, investindo em actividades complementares ao turismo tradicional. A transformação digital poderá abrir novas áreas de desenvolvimento, desde serviços avançados à integração tecnológica regional.
Todavia, a verdadeira questão estratégica permanece a mesma de que conseguirá Macau diversificar a sua economia com a velocidade necessária para reduzir dependências estruturais? Essa é a pergunta que vale mais do que qualquer previsão trimestral. Como ensinava Joseph Schumpeter em “Capitalism, Socialism and Democracy” (1942), o capitalismo evolui através de processos de destruição criativa. Os modelos económicos que não se adaptam acabam substituídos por outros mais eficientes. A história económica está repleta de exemplos.
O relatório da OCDE revela, no fundo, uma realidade que se tornou característica do século XXI de que a normalidade desapareceu. O mundo passou a funcionar em regime de excepção permanente. Crises energéticas, conflitos regionais, guerras comerciais, fenómenos climáticos extremos e revoluções tecnológicas coexistem num ciclo contínuo de incerteza.
Talvez a principal conclusão de “Resistir a Choques Sucessivos” na tradução do relatório para Português seja precisamente a de que as economias já não crescem apesar dos choques. Crescem através deles, contornando-os, absorvendo-os ou adiando as suas consequências. Não é um cenário apocalíptico, mas também não é uma narrativa triunfalista. É apenas o retrato de uma época em que a resiliência se tornou mais importante do que a prosperidade e em que sobreviver aos choques parece ser considerado, por si só, uma forma de sucesso.
Bibliografia
- Gordon, Robert J. (2016). The Rise and Fall of American Growth. Princeton University Press.
- Keynes, John Maynard (1936). The General Theory of Employment, Interest and Money. Macmillan.
- Mokyr, Joel (2016). A Culture of Growth: The Origins of the Modern Economy. Princeton University Press.
- OECD (2026). OECD Economic Outlook, Interim Report September 2026: Weathering Successive Shocks. OECD Publishing.
- Schumpeter, Joseph A. (1942). Capitalism, Socialism and Democracy. Harper & Brothers.
- OECD (2026). OECD Economic Outlook, Interim Report September 2026.
- University of Macau, Centre for Macau Studies (2026). Macroeconomic Forecast for Macao 2026.
- International Monetary Fund, dados sobre perspectivas económicas de Macau citados em 2026.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
