O mais fascinante nos relatórios económicos elaborados por instituições internacionais é a sua extraordinária capacidade para transmitir simultaneamente uma notícia boa e uma preocupante utilizando exactamente o mesmo parágrafo. O Fundo Monetário Internacional fez isso uma vez mais no seu mais recente diagnóstico sobre Macau. A economia foi considerada resiliente, o crescimento manteve-se positivo, o turismo recuperou integralmente, os visitantes regressaram em números históricos e as receitas do jogo continuaram a alimentar uma das máquinas fiscais mais bem sucedidas da Ásia. Tudo parece funcionar. Tudo parece sólido. Tudo parece tranquilo. Mas logo a seguir surge a frase que acompanha Macau há mais de duas décadas e que regressa com a regularidade de um imposto de que a excessiva dependência do jogo e do turismo continua a representar um risco estrutural.

É uma observação tão recorrente que já faz parte da paisagem económica local. Todos a conhecem. Todos concordam com ela. Todos a repetem. Contudo, a realidade continua praticamente inalterada. Macau evoluiu, modernizou infra-estruturas, internacionalizou parte da sua oferta turística e reforçou o seu posicionamento regional. Mas o coração económico do território continua a bater ao ritmo das mesas de jogo e dos fluxos de visitantes.

Em 2025, mais de 40 milhões de turistas visitaram Macau, ultrapassando os números anteriores à pandemia. As receitas brutas do jogo atingiram 247,4 mil milhões de patacas, registando uma subida apreciável face ao ano anterior. Para qualquer economia do mundo, estes resultados seriam motivo para celebrações, conferências, discursos triunfais e campanhas de promoção institucional. E em boa verdade há razões para algum optimismo. Poucos territórios conseguiram recuperar tão rapidamente após o impacto devastador provocado pela pandemia e pelas restrições à mobilidade internacional.

Mas há uma diferença entre recuperar e transformar. A recuperação consiste em regressar ao ponto de partida. A transformação consiste em construir algo diferente. E é precisamente neste ponto que surgem as dúvidas mais relevantes. A dependência económica raramente constitui um problema em períodos de prosperidade. Pelo contrário, durante esses períodos costuma parecer uma excelente opção estratégica. Quando a actividade dominante gera riqueza abundante, receitas fiscais elevadas, emprego e investimentos, torna-se extremamente difícil convencer alguém da necessidade de alterar o modelo existente.

Porque mudar aquilo que está a funcionar parece quase um acto de ingratidão económica. No entanto, a história mostra repetidamente que as economias excessivamente concentradas acabam por enfrentar vulnerabilidades significativas quando as circunstâncias externas mudam. Países dependentes de petróleo, regiões dependentes de um único produto de exportação ou cidades especializadas numa única indústria descobriram ao longo do tempo que o sucesso continuado pode criar a ilusão de invulnerabilidade. Macau corre precisamente esse risco. A pandemia serviu como um gigantesco exercício de realidade. Durante décadas, o território habituou-se a considerar praticamente inevitável a chegada constante de visitantes e o crescimento contínuo das receitas ligadas ao turismo. Subitamente, fronteiras encerraram, viagens foram suspensas e a actividade económica sofreu um choque de proporções históricas.

A recuperação acabou por acontecer. Mas a lição deveria permanecer. Uma economia excessivamente dependente de turistas continua dependente de factores que não controla. Epidemias. Conflitos internacionais. Mudanças regulatórias. Transformações nos hábitos de consumo. Desaceleração económica nos mercados emissores. Problemas financeiros globais.

Tudo isso pode alterar profundamente o desempenho económico de Macau sem que esta tenha qualquer capacidade real para controlar esses acontecimentos. O próprio FMI sublinha que a recuperação turística não se traduziu numa recuperação igualmente robusta da procura interna. Esta observação é particularmente importante porque revela que os grandes números não contam toda a história. Uma economia pode produzir excelentes indicadores agregados e, simultaneamente, apresentar fragilidades significativas em sectores específicos.

Os visitantes regressaram. Os casinos continuam a gerar receitas extraordinárias. Mas o investimento privado permanece condicionado por incertezas, por condições de crédito mais restritivas e por um sector imobiliário que continua a demonstrar sinais de fragilidade. Existe aqui uma lição económica frequentemente ignorada. O crescimento não é apenas uma questão de quantidade. É também uma questão de qualidade.

Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, argumenta em “The Price of Inequality” que os resultados económicos devem ser avaliados não apenas pela dimensão da riqueza produzida, mas também pela sua capacidade de gerar desenvolvimento sustentável e oportunidades duradouras. O princípio aplica-se perfeitamente ao caso de Macau.

A questão essencial não é saber se a economia consegue crescer enquanto o turismo prospera. A questão é saber se continuará igualmente robusta quando surgirem novas dificuldades externas. É neste contexto que regressa a palavra favorita dos relatórios económicos do território que é diversificação.

Há tanto tempo que se fala de diversificação económica em Macau que seria legítimo pensar que o conceito já teria adquirido existência física própria. Surge em relatórios oficiais, discursos políticos, estudos académicos e recomendações internacionais com uma persistência admirável. A teoria é impecável. Uma base económica mais diversificada reduz riscos, aumenta a resiliência e melhora as perspectivas de crescimento a longo prazo. O problema nunca esteve na teoria. O problema começa quando chega o momento de executar a teoria. Criar sectores alternativos exige tempo. Atrair talento exige recursos. Promover inovação exige investimento. Estimular investigação científica exige visão estratégica. Desenvolver novas indústrias exige persistência política. Nada disso produz resultados imediatos.

E os ciclos políticos raramente são conhecidos pela sua paciência. A meta estabelecida pelo Governo, que pretende elevar para 60 por cento do Produto Interno Bruto o peso das actividades não relacionadas com o jogo até 2030, representa uma ambição legítima. Contudo, como refere o FMI, atingir esse objectivo exigirá investimentos adicionais em competências, infra-estruturas físicas e digitais, inovação tecnológica, atracção de empresas e desenvolvimento de capital humano.

Dito de forma mais simples, não basta desejar uma economia diferente. É necessário construí-la. E construir uma nova economia é um trabalho significativamente mais complexo do que anunciar a sua construção. Existe ainda outro factor que merece reflexão. O sucesso pode ser um dos maiores obstáculos à mudança.

Uma economia que acumula receitas elevadas, dispõe de reservas financeiras históricas e apresenta desemprego reduzido dificilmente sente uma pressão imediata para reformas profundas. A urgência costuma ser uma poderosa força reformista. Onde ela não existe, as transformações tendem a avançar mais lentamente.

Macau apresenta precisamente esta característica. Não é uma economia em crise. Não é uma economia fragilizada. Não é uma economia desesperada à procura de alternativas. É uma economia rica que procura reinventar-se sem perder os benefícios que a tornaram rica. E essa talvez seja uma das tarefas mais difíceis da política económica.

Mudar um sistema falhado é relativamente simples. Mudar um sistema bem-sucedido é infinitamente mais complexo. O mercado imobiliário constitui outro elemento relevante desta equação. O FMI identifica sinais de debilidade persistente, reflectindo um contexto menos favorável para investimento e expansão. Tal situação não deve ser ignorada. Em muitas economias modernas, o mercado imobiliário funciona como uma espécie de termómetro da confiança.

Quando existe optimismo, o investimento imobiliário acelera. Quando existe cautela, o sector abranda. Macau não escapa a esta lógica. Ao mesmo tempo, os riscos externos continuam presentes. O relatório menciona tensões geopolíticas, desaceleração do crescimento regional, concorrência acrescida no sector do jogo, volatilidade financeira e fenómenos climáticos extremos. Nenhum destes factores é controlável pelas autoridades locais. Todos eles, contudo, podem influenciar decisivamente o futuro económico do território.

Nassim Nicholas Taleb observou em “The Black Swan” que os acontecimentos mais relevantes costumam ser precisamente aqueles que ninguém consegue prever com precisão. A lição é particularmente pertinente para Macau. O problema não reside nos riscos conhecidos. Reside nos riscos inesperados. É precisamente por isso que a diversificação económica não deve ser vista como um exercício académico ou um objectivo de marketing institucional.

Deve ser encarada como uma estratégia de sobrevivência económica. Outro aspecto interessante do relatório do FMI é a recomendação para uma utilização mais activa da política orçamental. O território possui reservas financeiras consideráveis e uma margem de manobra invejável. A organização considera que esses recursos podem ser utilizados para estimular a procura interna, responder ao envelhecimento da população e acelerar a diversificação económica.

A recomendação merece atenção. Guardar recursos é prudente. Investi-los estrategicamente pode ser ainda mais prudente. John Maynard Keynes defendia que o verdadeiro valor dos recursos públicos não reside apenas na sua acumulação, mas sobretudo na sua capacidade de gerar prosperidade futura. Esta reflexão continua extraordinariamente actual.

Macau dispõe de recursos financeiros. Dispõe de estabilidade institucional. Dispõe de localização estratégica. Dispõe de acesso privilegiado ao mercado da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. Dispõe de uma posição singular na ligação entre a China e o mundo lusófono. Poucas economias possuem simultaneamente tantas vantagens.

A questão central consiste em saber se essas vantagens serão suficientes para construir uma estrutura económica mais equilibrada antes que novas transformações globais alterem novamente o ambiente internacional. No fundo, o relatório do FMI transmite uma mensagem simples, embora pouco confortável. Macau está bem. Mas não está tão bem que possa ignorar os desafios do futuro. A economia continua robusta. Mas continua vulnerável. As receitas continuam elevadas. Mas continuam concentradas. As oportunidades existem. Mas exigem decisões difíceis.

Talvez a grande questão não seja económica, mas estratégica. Como convencer uma sociedade que prosperou extraordinariamente através de um determinado modelo a investir seriamente na construção de outro? A resposta a essa pergunta definirá não apenas a próxima década de Macau, mas provavelmente as próximas gerações. Porque a verdadeira riqueza de um território não se mede apenas pelo que consegue ganhar hoje. Mede-se pelaquilo que será capaz de continuar a ganhar quando o mundo inevitavelmente mudar amanhã.

Bibliografia

  • Stiglitz, Joseph E. The Price of Inequality. W. W. Norton & Company.
  • Taleb, Nassim Nicholas. The Black Swan. Random House.
  • Keynes, John Maynard. Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Relógio D’Água.
  • Acemoglu, Daron; Robinson, James. Porque Falham as Nações. Temas e Debates.
  • Porter, Michael. The Competitive Advantage of Nations. Free Press.
  • Rodrik, Dani. Straight Talk on Trade: Ideas for a Sane World Economy. Princeton University Press.
  • Schumpeter, Joseph. Capitalism, Socialism and Democracy. Harper Perennial.
  • Fundo Monetário Internacional. Macau SAR: Article IV Consultation Report.
  • Banco Mundial. Global Economic Prospects.
  • OCDE. The Future of Productivity. OECD Publishing.

Jorge Rodrigues Simão, 2026