Há romances que entretêm, há romances que descrevem uma época e há romances que conseguem a proeza mais rara de todas que é expor os bastidores do poder sem a aridez dos tratados académicos nem a ingenuidade das biografias autorizadas. “O Mago do Kremlin”, de Giuliano da Empoli, pertence a essa categoria singular. Apresentado sob a forma de ficção, mas inspirado em personagens e acontecimentos facilmente identificáveis da Rússia contemporânea, o livro oferece ao leitor uma viagem pelas galerias subterrâneas do poder, onde a realidade é moldada com a mesma habilidade com que um ilusionista retira um coelho da cartola. A diferença é que, neste caso, o público não aplaude apenas o truque; vive dentro dele.
O protagonista, Vadim Baranov, uma personagem inspirada em várias figuras próximas do Kremlin, surge como antigo produtor de programas televisivos que acaba por se transformar no principal arquitecto da narrativa do regime de Vladimir Putin. A escolha da profissão original não é acidental. Pelo contrário, constitui uma das observações mais sarcásticas e certeiras do romance. Num tempo em que a política se converteu num espectáculo permanente, quem melhor preparado para governar uma nação do que alguém habituado a construir ilusões para audiências de milhões? Durante séculos acreditou-se que a experiência militar, jurídica ou administrativa constituía a melhor escola para os dirigentes. O século XXI parece ter decidido experimentar outro modelo que é entregar as chaves do poder aos especialistas em audiências.
Da Empoli compreende uma realidade desconfortável que muitos observadores continuam a ignorar. O poder moderno já não repousa exclusivamente na capacidade de controlar exércitos, polícias ou recursos económicos. Repousa sobretudo na capacidade de controlar percepções. O governante contemporâneo não precisa necessariamente de alterar os factos. Basta-lhe alterar a interpretação dos factos. Trata-se de uma tarefa muito mais económica e, frequentemente, muito mais eficaz.
Ao longo do romance, a Rússia surge como um gigantesco laboratório político onde se testam técnicas de influência que mais tarde acabam por ser reproduzidas noutras geografias. O leitor rapidamente percebe que a obra não fala apenas sobre Moscovo. Fala sobre um fenómeno global. As democracias liberais gostam de imaginar que estão protegidas contra certas práticas porque possuem eleições livres, imprensa independente e instituições sólidas. Contudo, a leitura do romance suscita uma pergunta particularmente incómoda de que utilidade têm essas garantias formais quando os cidadãos já não conseguem distinguir informação de propaganda, notícia de entretenimento ou realidade de encenação?
A resposta não é tranquilizadora. Vadim Baranov move-se por um universo habitado por oligarcas, estrategas, ministros, burocratas e cortesãos modernos. É uma corte, ainda que disfarçada de Estado contemporâneo. As roupas mudaram, os telemóveis substituíram os pergaminhos e as redes sociais ocuparam o lugar dos arautos. No entanto, a essência permanece surpreendentemente semelhante. Continuam a existir favoritos, intrigas, rivalidades, conspirações e lutas permanentes pela proximidade ao soberano. A grande diferença reside no facto de os cortesãos modernos se apresentarem como tecnocratas.
O tecnocrata de hoje é frequentemente o cortesão de ontem com um melhor departamento de comunicação. A observação pode parecer excessivamente mordaz, mas o romance demonstra repetidamente como muitos dos mecanismos tradicionais do poder sobreviveram à modernidade. Apenas mudaram de vestuário. A vaidade continua a existir. A ambição continua a existir. O medo continua a existir. O que desapareceu foi apenas a sinceridade com que essas características eram reconhecidas.
O mundo descrito por Da Empoli recorda frequentemente as reflexões de Hannah Arendt em “As Origens do Totalitarismo”. Arendt compreendeu que os regimes autoritários não se limitam a impor uma determinada versão dos acontecimentos. Procuram algo mais sofisticado como criar um ambiente onde a própria noção de verdade objectiva se dissolve. Quando ninguém acredita plenamente em nada, as autoridades passam a beneficiar de uma extraordinária liberdade de manobra. Não precisam de convencer. Basta-lhes confundir.
É precisamente esse mecanismo que transforma “O Mago do Kremlin” numa obra tão actual. O protagonista entende que a política contemporânea deixou de depender exclusivamente da crença. Hoje depende, muitas vezes, da descrença. O objectivo já não consiste em fazer com que todos aceitem uma narrativa oficial. O objectivo consiste em produzir tantas versões contraditórias que a procura da verdade pareça inútil. Num universo assim organizado, a dúvida torna-se uma arma política. A suspeita transforma-se numa estratégia de governo. A incerteza converte-se num instrumento de estabilidade. Poucas obras recentes conseguiram captar com tanta precisão esta mutação do poder.
Ao ler o romance, é impossível não recordar George Orwell e o seu “1984”. Mas existe uma diferença importante. Orwell imaginou um sistema que ocultava informações. O século XXI aperfeiçoou o método. Em vez de esconder informação, produz informação em excesso. Em vez de censurar, inunda. Em vez de eliminar versões alternativas, multiplica-as até à exaustão. O resultado é semelhante, mas os meios são consideravelmente mais sofisticados.
Da Empoli demonstra como esse processo foi particularmente evidente na Rússia de Putin, mas sugere implicitamente que nenhum sistema político contemporâneo está totalmente imune. As redes sociais, os algoritmos, as plataformas digitais e os ciclos noticiosos acelerados criaram um ambiente onde a manipulação encontra condições especialmente favoráveis. Nunca houve tanta informação disponível. Nunca foi tão difícil compreender a realidade. A ironia seria deliciosa se as consequências não fossem tão sérias.
Ao mesmo tempo, o romance não apresenta Putin apenas como um dirigente político. Surge quase como uma figura mitológica construída pela própria máquina do poder. Max Weber definiu a autoridade carismática como uma forma de dominação assente nas qualidades extraordinárias atribuídas a um líder pelos seus seguidores. O Kremlin retratado por Da Empoli eleva esse princípio a um nível superior. O líder deixa de ser um indivíduo. Torna-se um símbolo. Uma representação. Uma personagem cuidadosamente administrada.
E aqui reside um dos aspectos mais inteligentes do livro. O autor evita transformar a narrativa numa simples condenação moral. Em vez disso, procura compreender os mecanismos psicológicos que sustentam sistemas políticos altamente personalizados. O leitor descobre que o poder não se impõe apenas pela força. Alimenta-se igualmente de expectativas, medos, desejos e fantasias colectivas. Os governados participam muitas vezes na construção das imagens que depois os governam.
Trata-se de uma conclusão perturbadora. É sempre mais confortável atribuir todas as responsabilidades aos líderes do que reconhecer a cumplicidade involuntária das sociedades. Ao longo da narrativa, a guerra na Tchetchénia, os Jogos Olímpicos de Sochi, as tensões com o Ocidente e a crise ucraniana surgem como diferentes etapas da consolidação de um regime baseado na gestão das percepções. Cada acontecimento exige uma nova encenação. Cada crise requer um novo enredo. Cada desafio obriga à produção de uma narrativa adaptada às circunstâncias. Vadim Baranov torna-se o diretor desta gigantesca peça teatral. Mas o romance não se limita a celebrar a inteligência dos manipuladores. Pelo contrário. Mostra também os seus limites.
A certa altura, o protagonista começa a compreender que existe uma diferença fundamental entre controlar uma narrativa e controlar a realidade. A realidade possui uma desagradável tendência para regressar. Pode ser temporariamente abafada. Pode ser momentaneamente disfarçada. Pode até ser ridicularizada. Mas regressa sempre. E quando regressa, fá-lo normalmente sob a forma de crise.
A grande tragédia dos arquitectos da propaganda consiste precisamente nisso. À medida que aperfeiçoam as suas técnicas de influência, começam a acreditar nas próprias construções. A fronteira entre ficção e realidade torna-se cada vez mais difusa. O risco deixa de ser apenas enganar os outros. Passa a ser o de enganar-se a si próprio.
Da Empoli descreve este fenómeno com admirável subtileza. Vadim Baranov não é retratado como um vilão convencional. Também não surge como uma vítima inocente. É uma personagem ambígua, inteligente, sofisticada e profundamente humana. Compreende os mecanismos do sistema melhor do que ninguém, mas descobre gradualmente que conhecimento e liberdade nem sempre caminham juntos.
Na verdade, o romance sugere algo ainda mais inquietante. Os indivíduos mais próximos do poder podem ser precisamente aqueles que menos liberdade possuem. Porque conhecem demasiado. Porque veem demasiado. Porque compreendem demasiado. A sua proximidade representa simultaneamente um privilégio e uma prisão.
É neste ponto que “O Mago do Kremlin” deixa de ser apenas um romance sobre a Rússia e se transforma numa reflexão universal sobre o poder. Ao terminar a leitura, o leitor percebe que o verdadeiro tema da obra não é Putin, nem Moscovo, nem sequer a geopolítica contemporânea. O verdadeiro tema é a eterna tentação humana de substituir a realidade pela narrativa mais conveniente.
Num século dominado pelas plataformas digitais, pelas campanhas de influência e pela comunicação instantânea, essa tentação adquiriu uma força sem precedentes. Governar tornou-se cada vez mais uma questão de gestão simbólica. A percepção frequentemente importa mais do que o facto. A imagem vale mais do que a substância. O espectáculo supera a política.
E é precisamente por isso que o livro de Giuliano da Empoli merece ser lido com atenção. Não porque explique todos os mistérios da Rússia contemporânea. Não porque revele segredos inacessíveis do Kremlin. Mas porque expõe uma das características fundamentais do nosso tempo que é a transformação da política numa indústria de construção de realidades. Os antigos magos prometiam converter chumbo em ouro. Os novos magos prometem converter percepções em poder. E, para inquietação de todos nós, parecem ter alcançado resultados bastante mais convincentes do que os seus antecessores.
Bibliografia
- Da Empoli, Giuliano. O Mago do Kremlin. Dom Quixote, edição portuguesa.
- Weber, Max. A Política como Vocação. Relógio D’Água.
- Orwell, George. 1984. Penguin Classics.
- Huxley, Aldous. Admirável Mundo Novo. Harper Perennial.
- Pomerantsev, Peter. Nothing Is True and Everything Is Possible: The Surreal Heart of the New Russia. Faber & Faber, 2014.
- Zuboff, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. Profile Books, 2019.
- Snyder, Timothy. The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America. Bodley Head, 2018.
- Applebaum, Anne. Twilight of Democracy. Penguin, 2020.
- Arendt, Hannah. As Origens do Totalitarismo. Harcourt Brace.
- Kissinger, Henry. World Order. Penguin Press, 2014.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
