Há livros que nos prometem revelar os segredos da mente humana e depois há The Laws of Thought, de Tom Griffiths, que decide fazer isso com a subtileza de um matemático em plena crise existencial. O autor, figura eminente da ciência cognitiva e da inteligência artificial, resolve revisitar três séculos de tentativas de transformar o pensamento humano numa espécie de equação universal como se a mente fosse um manual de instruções mal traduzido do alemão. A ambição é antiga pois desde Leibniz, que sonhava com uma matemática da mente, até aos engenheiros contemporâneos que acreditam que redes neuronais artificiais são a versão moderna de um cérebro que não reclama férias. Griffiths pega neste legado e oferece um percurso histórico e conceptual que, apesar de rigoroso, não deixa de ser um desfile de obsessões intelectuais que tentam, com maior ou menor desespero, reduzir o caos mental a regras, símbolos, probabilidades e redes.

O livro começa por recordar que todos nós aprendemos na escola as leis da natureza como a força, aceleração e gravidade como se fossem dogmas universais. Mas quando se trata das leis do pensamento, a maioria das pessoas fica reduzida a palpites, intuições e aquela sensação difusa de que a mente funciona “como um computador”, expressão que serve sobretudo para evitar explicações mais complexas. Griffiths propõe-se corrigir essa lacuna, revisitando os esforços históricos para formalizar o pensamento humano. A viagem começa com Aristóteles e os seus silogismos, passa por Leibniz e o seu sonho de uma álgebra mental, e desemboca em George Boole, que teve a epifania de que o pensamento podia ser reduzido a zeros e uns como uma ideia que, vista à distância, parece ter sido o primeiro passo para transformar humanos em máquinas que se enganam com confiança.

O autor descreve como Boole inaugurou a era das regras e símbolos, uma tentativa de capturar o pensamento através de sistemas formais. Esta abordagem floresceu com figuras como Allen Newell e Herbert Simon, que impulsionaram a chamada Revolução Cognitiva. Para eles, pensar era decompor problemas em subproblemas, seguindo regras simples que, quando combinadas, produziam comportamentos complexos. Aparentemente, bastaria codificar essas regras para replicar o pensamento humano. O problema? Quando tentaram fazê-lo, acabaram com um sistema que exigia cerca de 25 milhões de regras como uma espécie de inferno administrativo que faria qualquer burocrata corar de vergonha. Griffiths relata este episódio com a ironia implícita de quem sabe que tentar formalizar o pensamento humano pode ser tão eficaz quanto tentar ensinar um gato a preencher formulários.

Depois das regras e símbolos, o livro avança para a segunda grande abordagem que são as redes neuronais. Aqui, Griffiths revisita o entusiasmo contemporâneo por modelos que tentam imitar o cérebro através de camadas de unidades interligadas. Geoffrey Hinton surge como figura central, representando a crença de que, se conseguirmos replicar a estrutura do cérebro, talvez consigamos replicar também a sua capacidade de aprender. As redes neuronais, ao contrário dos sistemas baseados em regras, não exigem que alguém especifique cada passo do pensamento; em vez disso, aprendem padrões a partir de dados. É uma abordagem que parece mais orgânica, mas que tem o inconveniente de produzir modelos que funcionam muito bem sem que ninguém perceba exactamente porquê como uma espécie de magia estatística que deixa os investigadores simultaneamente fascinados e desconfortáveis.

A terceira abordagem explorada por Griffiths é a da probabilidade e estatística, que procura formalizar o pensamento como um processo de inferência. Aqui entram os modelos bayesianos, que descrevem a mente como uma máquina de actualização de crenças. A ideia é simples pois começamos com uma hipótese, recebemos nova informação e ajustamos a nossa crença de acordo com essa evidência. Griffiths apresenta esta abordagem como uma das mais promissoras, porque permite explicar como lidamos com incerteza, como tomamos decisões e como aprendemos com o mundo. É também uma forma elegante de admitir que o pensamento humano é, no fundo, um exercício contínuo de adivinhação informada, algo que qualquer pessoa que tenha tentado prever o comportamento de um adolescente reconhece intuitivamente.

Ao longo do livro, Griffiths introduz uma galeria de personagens que moldaram a história da ciência cognitiva e da inteligência artificial como Turing, Boole, Chomsky, Newell, Simon, Hinton. Cada um deles contribuiu para a tentativa de transformar o pensamento humano num objecto matemático. O autor descreve estas figuras com uma mistura de admiração e ironia, reconhecendo tanto o brilho das suas ideias como a sua tendência para acreditar que tinham encontrado a chave universal da mente. A narrativa é animada por exemplos, diagramas e desafios que convidam o leitor a experimentar algumas das ideias apresentadas como se Griffiths quisesse demonstrar que pensar sobre o pensamento é uma actividade que exige tanto rigor como humor.

Um dos pontos mais mordazes do livro é a comparação entre a inteligência humana e a inteligência artificial. Griffiths sublinha que os humanos possuem uma inteligência ampla, capaz de lidar com múltiplas tarefas desde pôr fraldas em bebés até provar teoremas, cozinhar, escrever romances ou compor sinfonias. Já os sistemas de IA são especialistas obsessivos, capazes de desempenhar uma única tarefa com eficiência extrema, mas completamente inúteis fora desse domínio. É uma observação que desmonta a ideia de que a IA está prestes a replicar a mente humana em toda a sua complexidade. Griffiths não nega os avanços extraordinários da IA, mas insiste que a mente humana continua a ser um sistema muito mais versátil e, por vezes, muito mais caótico do que qualquer modelo matemático conseguiu capturar.

O livro também aborda os desafios futuros da investigação sobre a inteligência. Griffiths reconhece que, apesar dos progressos significativos, ainda estamos longe de compreender plenamente como o pensamento funciona. As abordagens existentes com regras e símbolos, redes neuronais e probabilidade oferecem perspectivas complementares, mas nenhuma delas consegue explicar tudo. A mente humana continua a ser um objecto esquivo, que resiste a ser reduzido a equações. O autor sugere que o futuro da investigação poderá envolver combinações destas abordagens, integrando regras, símbolos, redes e probabilidades num modelo mais abrangente. É uma visão que reconhece a complexidade da mente e a necessidade de múltiplas ferramentas para a compreender.

Ao longo da obra, Griffiths demonstra uma capacidade notável de transformar conceitos complexos em explicações acessíveis, sem sacrificar o rigor. A sua escrita é clara, mas não simplista; rigorosa, mas não árida; e frequentemente pontuada por humor subtil. O resultado é um livro que consegue ser simultaneamente académico e envolvente, oferecendo ao leitor uma compreensão profunda das tentativas de formalizar o pensamento humano. A ironia surge como contraponto à seriedade do tema, lembrando-nos que pensar sobre o pensamento é uma actividade que exige tanto humildade como ambição.

O autor também explora as implicações sociais e tecnológicas das teorias do pensamento. Num mundo cada vez mais estruturado pela IA, compreender como pensamos e como as máquinas pensam torna-se essencial. Griffiths argumenta que, para navegar este mundo, precisamos de fluência nas leis do pensamento, tal como precisamos de fluência nas leis da natureza. É uma chamada à literacia cognitiva, que procura capacitar os leitores para compreenderem os sistemas que moldam as suas vidas. A abordagem é simultaneamente pragmática e filosófica, reconhecendo que a compreensão da mente é tanto uma questão científica como uma questão existencial.

No final, The Laws of Thought apresenta-se como uma obra que não pretende oferecer respostas definitivas, mas sim mapear o território intelectual onde essas respostas poderão emergir. Griffiths não promete uma teoria universal da mente, mas oferece uma visão abrangente das tentativas de a construir. O livro é, assim, uma espécie de cartografia do pensamento, que revela tanto os caminhos promissores como os becos sem saída. A sua mordacidade implícita lembra-nos que a mente humana é demasiado complexa para ser capturada por uma única abordagem e que qualquer tentativa de o fazer deve ser acompanhada por uma boa dose de ironia.

Em suma, Griffiths oferece uma reflexão profunda sobre a história e o futuro da formalização do pensamento. O livro combina rigor académico com humor subtil, apresentando uma narrativa que é simultaneamente informativa e provocadora. A sua análise das três grandes abordagens como regras e símbolos, redes neuronais, probabilidade revela tanto o potencial como as limitações de cada uma. A comparação entre a inteligência humana e a inteligência artificial desmonta mitos e oferece uma visão equilibrada do estado actual da investigação. E a sua chamada à literacia cognitiva sublinha a importância de compreender as leis do pensamento num mundo cada vez mais moldado pela IA.

Se há uma conclusão mordaz a retirar desta obra, é que a mente humana continua a ser um objecto que desafia qualquer tentativa de formalização total. Griffiths reconhece a ambição dos que tentaram capturá-la em equações, mas também a ironia de que, apesar de todos os avanços, continuamos a depender de intuições, crenças e processos que escapam à matemática. The Laws of Thought é, assim, um convite a pensar sobre o pensamento com rigor, humor e humildade com  uma combinação que, segundo o autor, poderá ser a chave para compreender a mente num mundo onde a IA promete muito, mas ainda compreende pouco.

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