2026

A contemporaneidade tem um talento peculiar para transformar figuras públicas em oráculos improvisados. Elon Musk, esse protagonista hiperactivo da tecnocracia global, tornou‑se o mais recente santo padroeiro da produtividade, da ambição e da crença quase religiosa de que o sucesso é uma questão de “mentalidade”. Eric Jorgenson, no seu livro The Book of Elon, não pretende escrever uma biografia, nem um manual de autoajuda açucarado; prefere antes oferecer uma espécie de catecismo laico, onde o leitor é convidado a contemplar a grandeza de um homem que, aparentemente, descobriu o segredo da relevância existencial. A promessa é simples de quem seguir este evangelho encontrará propósito, intensidade e prosperidade. Nada mau para um volume que se apresenta como uma destilação de milhões de palavras do próprio Musk.

O problema, claro, é que a ideia de propósito profissional tornou‑se um fetiche cultural. A obsessão moderna por “trabalhos significativos” é tão omnipresente que ninguém se atreve a admitir que, na maioria das vezes, o trabalho é apenas isso. A noção de que cada tarefa deve ser uma expressão da nossa essência interior é uma fantasia corporativa vendida como filosofia de vida. É precisamente aqui que o livro de Jorgenson entra em cena, oferecendo uma narrativa que promete curar essa ansiedade difusa de insignificância. A sua tese central de que Musk é movido por um propósito colossal e que qualquer pessoa pode replicar essa intensidade merece uma análise crítica, sobretudo porque se insere num discurso cultural que idolatra a hiperprodutividade e a grandiosidade como se fossem virtudes morais.

A primeira questão que se impõe é a própria definição de propósito. O livro assume que o propósito é uma força quase mística, capaz de transformar indivíduos comuns em agentes de mudança global. Contudo, esta visão é profundamente problemática. O propósito, tal como apresentado, não é uma construção pessoal, mas sim uma narrativa de escala industrial pois quanto maior a missão, maior a legitimidade. É uma lógica que favorece projectos titânicos como colonizar Marte, reinventar o transporte, salvar a humanidade da inteligência artificial enquanto desvaloriza actividades quotidianas que sustentam a vida real.

Esta hierarquia moral do propósito é perigosa porque transforma ambição em virtude e modéstia em falha. A ideia de que “a maioria das pessoas nunca sente propósito no seu trabalho” não é uma constatação sociológica; é uma acusação velada. O livro sugere que, se não sentimos essa chama interior, o problema está em nós, não na estrutura laboral que nos rodeia. É uma inversão conveniente de que em vez de questionar sistemas económicos que produzem alienação, culpa‑se o indivíduo por não ser suficientemente inspirado.

Outro pilar da narrativa é a intensidade. Musk é descrito como maníaco, criativo e incansável. A intensidade é apresentada como superpoder, como se fosse uma característica que se pode simplesmente adoptar com a mesma facilidade com que se muda de dieta. Esta visão romantiza comportamentos que, noutras circunstâncias, seriam classificados como obsessivos ou insustentáveis. A glorificação da intensidade perpetua a ideia de que o sucesso exige sacrifícios extremos, frequentemente à custa da saúde mental, das relações pessoais e da própria humanidade.

A intensidade, tal como retratada, é uma forma de violência subtil pois uma pressão constante para ultrapassar limites, para trabalhar até à exaustão, para transformar cada minuto num investimento produtivo. É uma ideologia que se disfarça de motivação, mas que, na prática, serve para normalizar ritmos de trabalho desumanos. A narrativa de Musk como exemplo universal ignora que a maioria das pessoas não dispõe de recursos, poder ou circunstâncias que permitam esse tipo de dedicação total.

O livro insiste que o segredo de Musk não é sorte, génio ou carisma, mas sim mentalidade. Esta afirmação é, no mínimo, ingénua. A mentalidade é apresentada como uma fórmula replicável, como se fosse um produto que se pode adquirir e aplicar. É uma visão profundamente simplista da realidade humana. A mentalidade não existe num vácuo; é moldada por contexto, privilégio, educação, circunstâncias históricas e redes de apoio. Reduzir o sucesso de Musk à sua mentalidade é ignorar factores estruturais que contribuíram para a sua ascensão.

Além disso, esta narrativa transforma a mentalidade num instrumento de culpabilização. Se não alcançamos sucesso extraordinário, é porque não adoptámos a mentalidade correcta. A responsabilidade é sempre individual, nunca sistémica. Esta lógica é típica da literatura de autoajuda contemporânea, que prefere vender soluções fáceis em vez de confrontar realidades complexas.

O livro de Jorgenson enquadra Musk como um profeta moderno, alguém que escolhe missões colossais e que, por isso, merece admiração. Esta veneração da grandeza é sintomática de uma cultura que idolatra o excepcional e despreza o comum. A ideia de que o valor de uma vida depende da escala dos seus projectos é uma distorção perigosa. A grandeza, tal como apresentada, é uma construção performativa que serve para legitimar desigualdades extremas.

A narrativa do “homem mais rico do mundo” como modelo universal é particularmente problemática. A riqueza extrema é tratada como consequência natural da mentalidade correcta, ignorando completamente as dinâmicas económicas que perpetuam concentração de capital. A mensagem implícita é que qualquer pessoa pode alcançar esse nível de sucesso, desde que adopte a mentalidade adequada. É uma fantasia meritocrática que mascara realidades socioeconómicas profundamente assimétricas.

O livro promete que, através das palavras de Musk, o leitor será “pessoalmente mentorado”. Esta promessa é, no mínimo, curiosa. A ideia de mentoria pressupõe relação, diálogo, reciprocidade. Aqui, o leitor é convidado a participar numa mentoria unilateral, onde absorve ensinamentos sem qualquer possibilidade de questionamento. É uma forma de pedagogia vertical, que assume que o mentor é infalível e que o discípulo deve simplesmente seguir instruções.

Esta mentoria imaginária é uma extensão da cultura de gurus que domina o discurso empresarial contemporâneo. A figura do mentor é transformada num produto, numa experiência de consumo. O leitor não é incentivado a desenvolver pensamento crítico, mas sim a adoptar uma narrativa pré‑fabricada sobre propósito e sucesso.

Apesar de todas estas questões, o livro de Jorgenson tem mérito enquanto documento cultural. Não porque ofereça uma visão profunda sobre propósito, mas porque revela a forma como a sociedade contemporânea constrói mitologias em torno de figuras tecnológicas. Musk é simultaneamente símbolo, metáfora e produto. A sua imagem é utilizada para vender uma ideologia de ambição ilimitada, de produtividade extrema e de crença quase religiosa na capacidade individual.

A crítica necessária não é dirigida a Musk enquanto indivíduo, mas sim ao discurso que o transforma em modelo universal. A ideia de que todos devemos perseguir missões colossais é insustentável. A noção de que o propósito é obrigatório é opressiva. A glorificação da intensidade é perigosa. E a transformação da mentalidade em produto é intelectualmente desonesta.

O verdadeiro propósito não é encontrado em missões grandiosas, nem em narrativas de sucesso extraordinário. O propósito é uma construção pessoal, íntima, muitas vezes modesta. A obsessão pela grandeza é uma distracção que nos afasta daquilo que realmente importa. Em vez de procurar replicar a mentalidade de Musk, talvez devêssemos questionar porque sentimos necessidade de o fazer.

O livro de Jorgenson é útil, não como guia para o sucesso, mas como espelho das ansiedades culturais da nossa época. A sua leitura crítica permite compreender como o discurso do propósito é utilizado para perpetuar ideologias de produtividade e ambição ilimitada. A verdadeira resistência consiste em recusar essa narrativa e em reivindicar o direito a uma vida significativa sem necessidade de grandeza.

Jorge Rodrigues Simão