Há datas que entram na História como feridas. Outras entram como cicatrizes. O dia 7 de Outubro de 2023 pertence às duas categorias. Nessa manhã, o Hamas desencadeou um ataque sem precedentes contra Israel, atingindo o festival de música Supernova e diversas comunidades agrícolas conhecidas como kibutz. Cerca de 1.200 pessoas foram mortas e aproximadamente 251 foram feitas reféns. A brutalidade do ataque gerou uma onda de choque internacional que rapidamente ultrapassou as fronteiras do Médio Oriente e contaminou parlamentos, universidades, redacções, redes sociais e respetivos especialistas de sofá.
A humanidade, que costuma descobrir a moralidade à velocidade de uma ligação de fibra óptica quando as câmaras de televisão estão ligadas, reagiu com previsível indignação. Durante algumas semanas, quase todos pareciam concordar que o massacre de civis constituía um horror indesculpável. O problema começou quando a realidade insistiu em ser mais complexa do que as frases destinadas à publicação instantânea.
Os reféns foram conduzidos para Gaza e transformados num dos mais antigos instrumentos políticos da História com a troca de seres humanos por vantagens estratégicas. Mudam os séculos, mudam as tecnologias, mudam os comunicados oficiais, mas continua a existir uma persistente tendência para tratar pessoas como fichas de um tabuleiro geopolítico. Tucídides teria reconhecido imediatamente o mecanismo.
Desde então, o destino dos sequestrados tornou-se objecto de narrativas contraditórias. O Hamas afirmou que dezenas de reféns morreram em consequência dos bombardeamentos israelitas. Israel confirmou a morte de vários cativos, mas atribuiu responsabilidades distintas, incluindo execuções, ausência de assistência médica e condições degradantes de detenção. Entre a propaganda e a contra-propaganda, a verdade permanece enterrada sob toneladas de escombros físicos e informativos.
A primeira vítima da guerra, escreveu Hiram Johnson em 1917, é a verdade. No conflito israelo-palestiniano, a frase transformou-se praticamente num regulamento administrativo. A guerra moderna não é apenas travada com drones, mísseis ou artilharia. É travada através de versões, interpretações e emoções cuidadosamente embaladas para consumo global. Em “Nexus”, publicado em 2024, Yuval Noah Harari alerta para o poder das redes de informação na construção das realidades colectivas.
A observação torna-se especialmente pertinente quando cada morte é imediatamente transformada em argumento político e cada fotografia se converte num campo de batalha ideológico. Entretanto, as famílias dos reféns tornaram-se a consciência moral de um conflito que frequentemente parece ter perdido a capacidade de distinguir seres humanos de estatísticas. Pais, filhos, irmãos e amigos passaram anos a recordar ao mundo um facto embaraçosamente simples de quem está em cativeiro continua a ser uma pessoa e não um elemento de negociação.
Foram essas famílias que atravessaram capitais, organizaram manifestações, pressionaram governos e recusaram aceitar que os seus entes queridos acabassem arquivados na secção dos danos colaterais. Num tempo em que os decisores políticos parecem frequentemente fascinados por mapas, corredores estratégicos e equilíbrios regionais, alguém teve a ousadia de lembrar que as guerras afectam pessoas concretas.
O papel da comunidade internacional oscilou entre a preocupação sincera e a habitual produção industrial de declarações solenes. Organizações internacionais, líderes religiosos e chefes de Estado apelaram à libertação dos reféns e ao cessar-fogo. O Papa Francisco manifestou preocupação tanto pelos sequestrados como pela situação humanitária em Gaza. Os apelos multiplicaram-se com a mesma abundância com que se multiplicam as resoluções que raramente alteram os acontecimentos no terreno.
A diplomacia contemporânea possui uma qualidade quase literária. Produz documentos extensos, reuniões intermináveis e comunicados cuidadosamente redigidos. Ocasionalmente produz também resultados, embora esta última característica seja menos frequente.
Ainda assim, seria injusto ignorar o papel desempenhado por mediadores como o Qatar, cuja intervenção permitiu libertações sucessivas e facilitou negociações delicadas. As primeiras libertações ocorreram ainda em Outubro de 2023. Depois vieram tréguas temporárias, acordos parciais e novas trocas de reféns por prisioneiros palestinianos.
A certa altura, o mundo assistiu a uma estranha contabilidade moral de saber quantos prisioneiros equivalem a um refém? Quantos civis mortos justificam quantos bombardeamentos? Quantos sofrimentos autorizam quantas retaliações? Não existem respostas satisfatórias para perguntas deste género. Existem apenas respostas políticas.
Benny Morris, em “Righteous Victims: A History of the Zionist-Arab Conflict, 1881-2001”, demonstra como grande parte da história da região é marcada pela coexistência de narrativas mutuamente incompatíveis, mas simultaneamente legítimas do ponto de vista identitário. O drama actual não surgiu no vazio nem começou em 2023. Também não começou em 1967, 1948 ou 1917. Cada geração herda memórias selectivas e produz novas razões para desconfiar da geração seguinte. A ironia amarga reside no facto de praticamente todas as partes se considerarem vítimas exclusivas da História.
Israel aponta para o massacre de civis e para a ameaça existencial representada por organizações que defendem a sua destruição. Os palestinianos apontam para décadas de ocupação, deslocações, restrições e sofrimento colectivo. Ambos apresentam factos. Ambos omitem factos. Ambos transformam frequentemente tragédias em argumentos de marketing político.
Poucas actividades humanas demonstram tanta criatividade quanto a capacidade de transformar dor genuína em capital ideológico. A libertação gradual dos reféns ao longo destes anos revelou um paradoxo desconfortável. Enquanto os líderes trocavam acusações, os acordos acabavam quase sempre por depender de negociação directa ou indirecta. Ou seja, depois de meses de discursos inflamados sobre a impossibilidade de diálogo, alguém acabava inevitavelmente sentado à mesa a negociar.
Talvez esta seja uma das lições mais persistentes das relações internacionais. As guerras começam frequentemente porque os líderes deixam de conversar. Terminam normalmente porque são forçados a fazê-lo. Henry Kissinger observava que a diplomacia procura resultados possíveis e não utopias perfeitas. A frase permanece extraordinariamente actual. Os acordos de cessar-fogo, incluindo os mais relevantes alcançados em 2025, não produziram fraternidade universal, reconciliação instantânea nem abraços históricos. Produziram algo muito menos glamoroso e muito mais importante que foram menos mortes.
Num mundo dominado pela comunicação instantânea, o pragmatismo tornou-se surpreendentemente impopular. A moderação raramente gera cliques. O compromisso dificilmente se torna viral. A indignação, pelo contrário, continua a ser um excelente modelo de negócio. Também por isso, o conflito foi acompanhado por uma epidemia de especialistas improvisados. Em poucas horas, milhões de cidadãos comuns converteram-se em estrategas militares, historiadores do Médio Oriente, juristas internacionais e analistas geopolíticos. Nunca tantos souberam tanto sobre assuntos que desconheciam profundamente.
As redes sociais transformaram a complexidade num produto inconveniente. Tudo passou a ser explicado através de slogans. Quem exigia contexto era acusado de justificar crimes. Quem pedia prudência era acusado de indiferença. Quem recusava escolher uma tribo era frequentemente tratado como suspeito pelas duas tribos.
Talvez seja precisamente aqui que reside o maior fracasso colectivo. O sofrimento de uma família israelita não elimina o sofrimento de uma família palestiniana e vice-versa.
Contudo, a lógica partidária insiste em apresentar a empatia como um recurso escasso.
Yuval Noah Harari observou que não existe contradição entre condenar os ataques do Hamas e reconhecer os direitos dos palestinianos. Da mesma forma, não existe contradição entre defender a segurança de Israel e exigir respeito pelo direito internacional.
Mas as posições equilibradas têm um problema comercial. Não satisfazem os radicais de qualquer dos lados. Entretanto, Gaza permanece devastada. Infra-estruturas destruídas, bairros reduzidos a ruínas, sistemas de saúde fragilizados e uma população exausta constituem o legado mais visível desta guerra. Israel continua a lidar com os traumas do ataque inicial, com debates internos profundos sobre segurança, liderança política e gestão da crise dos reféns. No final, o que resta? Restam os mortos que do lado palestiniano são cerca de 75.000 do qual 60% são mulheres e crianças.
Restam os sobreviventes. Restam as famílias. Restam as memórias. E resta uma comunidade internacional que, apesar de toda a sua retórica grandiosa, continua a demonstrar uma dificuldade considerável em impedir que tragédias previsíveis se repitam. Talvez o elemento mais perturbador seja a normalização do extraordinário. O mundo habituou-se demasiado depressa a imagens de destruição, sequestros e sofrimento. Os ciclos informativos seguem em frente. As atenções deslocam-se. Surgem novos escândalos, novas crises e novas urgências.
Mas para quem perdeu familiares, passou meses em cativeiro ou viu a própria casa desaparecer sob os escombros, a guerra não termina quando desaparece dos noticiários. A História raramente oferece finais felizes. Oferece, quando muito, pausas temporárias entre crises sucessivas. O conflito entre Israel e o Hamas demonstra precisamente isso. Não existe uma solução simples para um problema construído ao longo de gerações. Existe apenas a escolha permanente entre agravar a tragédia ou tentar limitá-la. Infelizmente, a humanidade continua a revelar um talento admirável para escolher a primeira opção.
Bibliografia
- Harari, Yuval Noah. Nexus: A Brief History of Information Networks from the Stone Age to AI. Penguin Random House, 2024.wikipedia
- Morris, Benny. Righteous Victims: A History of the Zionist-Arab Conflict, 1881-2001. Vintage Books, 2001.google+1
- Kissinger, Henry. Diplomacy. Simon & Schuster, 1994.
- Khalidi, Rashid. The Hundred Years’ War on Palestine. Metropolitan Books, 2020.
- Black, Ian. Enemies and Neighbours: Arabs and Jews in Palestine and Israel, 1917-2017. Allen Lane, 2017.
- Shlaim, Avi. The Iron Wall: Israel and the Arab World. W. W. Norton, 2014.
- Osório e Gallardo, Ángel. El Alma de la Toga. Editorial Reus, edição clássica
Jorge Rodrigues Simão, 2026
