HOJEMACAU – A REPÚBLICA FRANCESA EM CHAMAS – JORGE RODRIGUES SIMÃO – 22.10.2026

Existe sempre um instante em que os governos deixam de governar a realidade para administrarem apresentações em PowerPoint sobre a realidade. A França de 2026 parece ter atingido esse elegante patamar de ficção burocrática, onde relatórios optimistas coexistem com escolas degradadas e discursos republicanos convivem com estudantes que já não acreditam na promessa da mobilidade social. Como observava Alexis de Tocqueville em “L’Ancien Régime et la Révolution”, os regimes tornam-se vulneráveis quando confundem reformas anunciadas com reformas concretizadas. Pierre Bourdieu mostrou em “La Reproduction” que a igualdade proclamada raramente elimina desigualdades herdadas. Entretanto, entre bairros esquecidos, integração incompleta, radicalismos diversos e instituições fatigadas, a juventude descobriu que os slogans não substituem professores. Hannah Arendt, em “On Violence”, advertia que a força cresce quando a autoridade enfraquece. Eis o retrato mordaz da França contemporânea com uma república que continua a ensinar os valores universais ao mundo enquanto luta para garantir que a sua própria sala de aula tenha professor, disciplina, esperança e futuro.

Bibliografia

  • Tocqueville, Alexis de. L’Ancien Régime et la Révolution. Gallimard.
  • Bourdieu, Pierre; Passeron, Jean-Claude. La Reproduction. Éditions de Minuit.
  • Arendt, Hannah. On Violence. Harcourt.
  • Huntington, Samuel. Who Are We? The Challenges to America’s National Identity. Simon & Schuster.
  • Bauman, Zygmunt. Liquid Times. Polity Press.
  • Kepel, Gilles. Banlieue de la République. Gallimard.
  • Lagrange, Hugues. Le Déni des Cultures. Seuil.
  • Weil, Patrick. La France et ses Étrangers. Gallimard.

Jorge Rodrigues Simão, 2026