A transformação de Ceuta, naquela tarde que começou com a inocência solarenga do meio-dia e terminou com a perplexidade colectiva das quatro da tarde, não foi apenas um episódio de fronteira mas uma espécie de teatro involuntário, onde cada personagem entrou em cena sem ter ensaiado o papel, e onde o cenário urbano se viu subitamente invadido por uma multidão que parecia saída de uma parábola bíblica embora sem o benefício das trombetas celestiais ou da ordem narrativa. A cidade, habituada ao seu ritmo de enclave mediterrânico, viu-se convertida num anfiteatro improvisado, onde a areia das praias serviu de palco, as ruas de corredores, e os parques de dormitórios ao ar livre. Ceuta, por umas horas, deixou de ser Ceuta; tornou-se um espelho onde a Europa se viu reflectida com todas as suas contradições.

A torrente humana que atravessou a fronteira não foi uma metáfora; foi literal, física, palpável. Homens, mulheres, crianças, jovens com a pressa dos que fogem e a esperança dos que chegam, todos avançaram como se o mar lhes tivesse concedido uma trégua. Uns nadaram, outros contornaram o quebra-mar, outros ainda vieram agarrados a bóias improvisadas, como náufragos voluntários de uma vida que não lhes oferecia alternativa. A cidade, com os seus 84 mil residentes, viu-se de repente obrigada a lidar com uma multidão equivalente ao público de um estádio em dia de final europeia mas sem bilhete, sem controlo de entradas e sem árbitro que apitasse o fim da partida.

Os taxistas chamaram-lhe invasão; as ONG, crise humanitária; os políticos locais, emergência nacional. E todos, com a habitual precisão dos diagnósticos apressados, tinham razão. A perplexidade era geral, e a televisão local tornou-se uma espécie de oráculo moderno, onde cada imagem transmitida parecia confirmar que o mundo, afinal, não é tão estável como os discursos oficiais insistem em proclamar.

A cena repetiu-se ao longo da manhã com cabeças a emergir no horizonte, como pontos negros que a ondulação ia revelando lentamente; corpos a ganhar forma; pés a tocar a areia espanhola com a reverência dos que acreditam que o solo europeu é uma espécie de altar secular. E, logo depois, o ritual do pedido desesperado, quase litúrgico, “Morocco, no. Morocco, no, please!”, repetido com a insistência de quem sabe que uma frase pode ser a diferença entre o futuro e o retorno ao nada.

Os agentes da Guardia Civil, habituados a lidar com fluxos migratórios, viram-se reduzidos ao papel de figurantes benevolentes. “Not Morocco, don’t worry. Nothing about Morocco. Come in, come”, diziam, numa tentativa de acalmar a multidão. Mas a ausência de intérpretes transformava cada gesto num mal-entendido potencial. A comunicação fazia-se por mímica, por olhares, por mãos estendidas com garrafas de água e sandes improvisadas. A solidariedade, quando surge espontânea, tem sempre um toque de desorganização.

A tragédia, inevitável como sempre nestes episódios, também marcou presence de pelo menos 18 corpos recuperados do mar, lembrando que a travessia não é uma aventura romântica, mas uma roleta russa marítima. Como escreveu Albert Camus, “Il n’y a pas de destin qui ne se surmonte par le mépris” não há destino que não se supere pelo desprezo. E muitos daqueles jovens desprezaram o perigo com a convicção dos que não têm nada a perder.

Entre os recém-chegados, destacava-se Hamsa Sliman, 12 anos, que abraçava os amigos com a alegria de quem acredita que a vida começa naquele instante. Ligou ao pai, que chorava no ecrã do telemóvel, como se a tecnologia tivesse sido inventada apenas para registar aquele momento. A criança, ainda a tremer de frio, perguntava quando poderia viajar para a Península, como se a burocracia fosse um detalhe irrelevante num mundo que lhe prometera oportunidades.

Hadiya, 16 anos, surgiu da água com os brincos intactos, a corrente dourada ao pescoço e a maquilhagem desfeita, como se regressasse de uma festa que terminara mal. Três horas a remar numa bóia, mas com a determinação de quem joga futebol e acredita que o talento é passaporte suficiente para a Europa. “Disse à minha mãe que ia só dar uma volta”, confessou, com a inocência dos que ainda não sabem que a vida adulta não perdoa improvisos.

Ceuta, nesse dia, tornou-se uma cidade suspensa. As lojas fecharam, os preparativos para a feira de verão foram interrompidos, e o exército foi chamado a reforçar a segurança. A população local, habituada a conviver com a fronteira, viu-se confrontada com uma versão ampliada do fenómeno de milhares de jovens molhados, exaustos, mas determinados, espalhados pelas ruas como se a cidade fosse um tabuleiro onde cada um procurava a sua casa.

No CETI, o centro de acolhimento, a confusão era total. Portões fechados, perguntas sem resposta, filas improvisadas, jovens a mostrar feridas nas pernas, uns dizendo que foram agredidos por forças marroquinas, outros que se magoaram ao escalar o quebra-mar. A espera, esse suplício moderno, tornou-se o novo estado de espírito.

Yusra, 18 anos, residente no bairro do Príncipe, assumiu o papel de intérprete improvisada. Distribuiu água, sandes, e sobretudo palavras. “Não vão ser enviados de volta”, gritava, até ficar rouca. Perguntava-lhes se sabiam da recente decisão do Supremo Tribunal espanhol que impede devoluções sumárias. Não sabiam. Mas aplaudiram a notícia como se fosse um golo no último minuto.

A Europa, vista de Ceuta, é uma entidade paradoxal simultaneamente fortaleza e promessa, fronteira e horizonte. Os jovens que chegaram naquele dia não vinham por ideologia, nem por política, nem por retórica. Vinham por sobrevivência. Vinham porque, como escreveu Hannah Arendt, “o direito a ter direitos” é o primeiro que lhes foi negado no país de origem.

E, no entanto, a reacção europeia continua a oscilar entre a compaixão e o medo, entre o humanitarismo e a burocracia, entre o acolhimento e a rejeição. A marcha de cem pessoas envoltas em bandeiras espanholas, a gritar slogans fascistas, foi o lembrete de que a Europa também tem os seus demónios e que estes não precisam de atravessar fronteiras para se manifestar.

Ceuta, nesse dia, foi mais do que um enclave; foi um símbolo. Um microcosmo onde se cruzaram a esperança e o desespero, a política e a humanidade, a ordem e o caos. A cidade viu-se transformada por uma multidão que não pediu permissão para existir, que não esperou autorização para sobreviver, que não quis regressar a um país que não reconhecia como lar.

“Not Morocco!”, gritavam. E, nesse grito, estava contida toda a tragédia contemporânea da recusa de um passado que não oferece futuro, e a busca de um futuro que ainda não tem lugar.

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