(Primeira Edição – Bjarne P. Tellmann) 2026
Há livros que se lêem como tratados e outros que se suportam como diagnósticos clínicos de uma civilização em colapso. O de Bjarne P. Tellmann pertence à segunda categoria de um espelho cruel onde o Direito, outrora majestoso e togado, se contempla hoje com olheiras digitais e um contrato de confidencialidade com o algoritmo. “Law in the Era of AI” não é apenas um título; é uma autópsia elegante do que resta da advocacia quando o cliente já não procura um advogado, mas um dashboard que lhe devolva previsões estatísticas sobre o sucesso da causa.
O autor, com a serenidade de quem viu demasiadas assembleias de accionistas, descreve o advogado moderno como um sobrevivente de museu como uma peça de porcelana jurídica num mundo de aço e silício. A inteligência artificial, diz Tellmann, não vem substituir o advogado; vem humilhá‑lo. Porque o que o algoritmo faz em segundos, o jurista faz em semanas, e ainda cobra honorários que fariam corar um banqueiro suíço. A ironia é que o Direito, esse templo da racionalidade humana, se vê agora subjugado por uma racionalidade não humana, mas mais eficiente. Como escreveu Richard Susskind em “Tomorrow’s Lawyers” (Oxford University Press, 2017), “os advogados não serão substituídos por máquinas, mas por pessoas que saibam usar máquinas melhor do que eles”. Tellmann confirma, com um sorriso de quem assistiu ao funeral da toga.
O cliente, outrora figura de carne e osso, tornou‑se uma entidade estatística. Já não entra no escritório com um problema, mas com um dataset. Quer previsibilidade, não empatia; quer eficiência, não eloquência. O advogado que ainda cita Cícero é olhado como um excêntrico que não percebeu que o latim morreu antes da ética. Tellmann observa que os grandes escritórios de advocacia se transformaram em laboratórios de dados, onde o compliance é medido em gigabytes e a confiança se traduz em machine learning. O cliente moderno não procura justiça procura risk management. E o advogado, esse sacerdote do verbo, converteu‑se em técnico de manutenção de sistemas jurídicos automatizados.
As firmas de advocacia, outrora bastiões de prestígio e tradição, tornaram‑se fábricas de eficiência. O sócio sénior, que antes se orgulhava de ter lido Kant, agora orgulha‑se de ter subscrito um contrato com a OpenAI. O estagiário não carrega pastas, carrega datasets. Tellmann descreve esta metamorfose com uma ironia quase britânica: “O futuro da advocacia será determinado por quem souber programar melhor, não por quem souber argumentar melhor.” A frase poderia figurar num epitáfio jurídico. O autor cita Daniel Susskind, em “A World Without Work” (Allen Lane, 2020), para reforçar a ideia de que o trabalho intelectual está a ser desmantelado pela automação cognitiva. O advogado, outrora símbolo da elite pensante, é agora um funcionário do algoritmo; um intérprete de outputs e dashboards.
A Justiça, essa senhora de olhos vendados, parece ter trocado a venda por um visor digital. Os tribunais experimentam sistemas de decisão automatizada, e os juízes, outrora guardiões da equidade, tornam‑se supervisores de código. Tellmann alerta para o perigo da desumanização quando o Direito se torna cálculo e a moral se torna ruído. O algoritmo não distingue entre culpa e contexto; apenas entre padrões e probabilidades. Como advertiu Yuval Noah Harari em “Homo Deus” (Harvill Secker, 2016), “a inteligência artificial não compreende o sofrimento humano apenas o processa”. E é aqui que o sarcasmo se torna inevitável pois o sistema jurídico, que durante séculos se alimentou de retórica e de moral, agora alimenta‑se de dados. O juiz do futuro não julgará; validará.
Tellmann não é um profeta do apocalipse, mas um cronista do inevitável. O seu livro descreve uma advocacia que se reinventa à força, como um actor que aprende a representar para câmaras de vigilância. O advogado do futuro será híbrido; metade jurista, metade engenheiro, e inteiramente dependente de uma licença de software. A ironia é que, quanto mais o Direito se automatiza, mais se torna vulnerável àquilo que pretendia evitar que é o erro humano. Porque o algoritmo, por mais perfeito que pareça, é criado por humanos e estes, como se sabe, são especialistas em falhas morais. Tellmann cita Cathy O’Neil, autora de “Weapons of Math Destruction” (Crown, 2016), para lembrar que “os algoritmos são opiniões embutidas em código”. E quando essas opiniões decidem sentenças, o Direito deixa de ser ciência e torna‑se superstição tecnológica.
Há uma passagem particularmente mordaz em que Tellmann descreve o advogado contemporâneo como “um contador de histórias que ninguém quer ouvir”. O cliente quer resultados, não narrativas; quer gráficos, não metáforas. O sarcasmo do autor é refinado: “O advogado que ainda acredita na força da argumentação é como o poeta que ainda escreve sonetos sendo admirável, mas inútil.” A advocacia, outrora arte da persuasão, tornou‑se arte da previsão. O advogado não convence; calcula. E o cálculo, como se sabe, não tem alma.
Tellmann dedica um capítulo à ética, esse conceito que o algoritmo trata como exception error. A ética jurídica, diz ele, não desapareceu, foi terceirizada. As decisões morais são agora tomadas por comités de auditoria e sistemas de compliance. O autor cita Shoshana Zuboff, em “The Age of Surveillance Capitalism” (PublicAffairs, 2019), para ilustrar como o poder se deslocou do humano para o digital. “O que era confiança tornou‑se vigilância”, escreve Zuboff. Tellmann aplica a máxima ao Direito de o que era consciência tornou‑se protocolo. A ironia é que, ao tentar eliminar o erro humano, o sistema jurídico eliminou também a compaixão. O algoritmo não perdoa, apenas recalcula.
No mundo descrito por Tellmann, o cliente é um consumidor de justiça instantânea. Quer resultados rápidos, previsíveis e baratos. A advocacia, para sobreviver, adapta‑se ao modelo on‑demand. O autor observa que as plataformas jurídicas digitais oferecem contratos automáticos, mediações virtuais e até sentenças preditivas. O advogado, se quiser manter o emprego, terá de competir com o preço de uma subscrição mensal. Como escreveu Evgeny Morozov em “To Save Everything, Click Here” (PublicAffairs, 2013), “a tecnologia promete eficiência, mas entrega dependência”. Tellmann confirma que o cliente moderno é livre apenas para escolher o algoritmo que o julgará.
O Direito, outrora fundamento da civilização, tornou‑se produto de consumo. Há pacotes jurídicos, apps de litígio, e até chatbots que redigem petições. O advogado, que antes vendia sabedoria, agora vende tempo de processamento. Tellmann encerra o livro com uma reflexão quase melancólica: “O futuro do Direito dependerá da capacidade de o advogado se reinventar como intérprete da máquina.” Mas o sarcasmo é inevitável pois o intérprete da máquina é, por definição, dispensável.
No final, o leitor percebe que “Law in the Era of AI” não é um manual de adaptação, mas um epitáfio elegante. O autor não lamenta o fim da advocacia tradicional apenas o regista com a precisão de um notário. O tom é clínico, mas o subtexto é filosófico de que o Direito, ao abdicar da sua humanidade, abdica também da sua autoridade moral. Como escreveu Albert Camus em “Le Mythe de Sisyphe” (Gallimard, 1942), “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”. O advogado moderno, ao tentar ser máquina, confirma a sentença.
Bibliografia
- Tellmann, Bjarne P. – Law in the Era of AI: Clients, Firms, and the Future of the Legal Industry. Oxford University Press, 2024.
- Susskind, Richard – Tomorrow’s Lawyers. Oxford University Press, 2017.
- Susskind, Daniel – A World Without Work. Allen Lane, 2020.
- O’Neil, Cathy – Weapons of Math Destruction: How Big Data Increases Inequality and Threatens Democracy. Crown, 2016.
- Zuboff, Shoshana – The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power. PublicAffairs, 2019.
- Morozov, Evgeny – To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism. PublicAffairs, 2013.
- Harari, Yuval Noah – Homo Deus: A Brief History of Tomorrow. Harvill Secker, 2016.
- Camus, Albert – Le Mythe de Sisyphe. Gallimard, 1942.
- Tellmann, Bjarne P. – Law in the Era of AI: Clients, Firms, and the Future of the Legal Industry. Oxford University Press, 2024.
Jorge Rodrigues Simão 2026

