Há regimes que envelhecem com dignidade e outros que, como certos aristocratas decadentes retratados por Lampedusa em “O Leopardo”, insistem em maquilhar as rugas da História enquanto o tecto lhes cai sobre a cabeça. A República Islâmica do Irão parece pertencer a esta segunda categoria. Quase meio século após a Revolução de 1979, o sistema continua a apresentar-se ao mundo como uma criação política providencial, moralmente superior e historicamente inevitável. Porém, sob a ornamentação ideológica, o que emerge é uma estrutura cada vez mais incapaz de justificar a sua existência perante uma sociedade instruída, conectada, urbana e crescentemente céptica.
A ironia é particularmente cruel pois um regime criado em nome dos oprimidos acabou por produzir uma das mais sofisticadas máquinas de repressão do século XXI, transformando a promessa de libertação numa burocracia da vigilância. O economista e dissidente iraniano Amir Hossein Ganjbakhsh argumenta que o problema essencial reside na própria arquitectura institucional do sistema, fundada na doutrina do velayat-e faqih, conceito desenvolvido por Ruhollah Khomeini em “Hokumat-e Islami: Velayat-e Faqih”.
Esta teoria estabelece que um jurista religioso deve exercer autoridade suprema sobre o Estado. A ideia poderia talvez sobreviver num seminário teológico fechado ao mundo exterior; torna-se muito mais difícil de defender quando aplicada a uma população de milhões de cidadãos que aspiram a participar livremente na escolha dos seus governantes. O paradoxo é evidente. Por um lado, o regime organiza eleições. Por outro, reserva para uma autoridade religiosa não eleita o poder decisivo sobre as instituições. Em teoria, o povo governa. Na prática, governa até ao momento em que a sua vontade colide com aquela que já foi previamente determinada.
Não se trata de soberania popular; trata-se de soberania popular condicionada, supervisionada, corrigida e, quando necessário, anulada. Alexis de Tocqueville observou em “A Democracia na América” que as instituições moldam os costumes políticos de uma sociedade. No caso iraniano, as instituições parecem ter sido concebidas precisamente para neutralizar os impulsos democráticos que inevitavelmente surgem numa população moderna. O resultado é um sistema condenado a uma tensão permanente entre legitimidade popular e religiosa.
Durante anos, esta contradição pôde ser disfarçada através da mobilização revolucionária, do nacionalismo e da confrontação externa. No entanto, a História possui uma característica desagradável para os ideólogos de que raramente permanece imóvel. Novas gerações surgem, fazem perguntas inconvenientes e recusam aceitar respostas baseadas apenas na autoridade. O que há quarenta anos era apresentado como destino manifesta-se hoje, para muitos cidadãos, como obstáculo. A questão económica agrava ainda mais a erosão da legitimidade.
Daron Acemoglu e James Robinson, em “Why Nations Fail”, demonstram que instituições extractivas tendem a concentrar poder e riqueza, limitando simultaneamente inovação e prosperidade. O diagnóstico aplica-se com desconfortável precisão ao contexto iraniano. Apesar dos vastos recursos energéticos, de uma população altamente qualificada e de uma posição estratégica relevante, o país continua preso a ciclos recorrentes de estagnação, inflação e isolamento. Os defensores do regime atribuem frequentemente todas as dificuldades às sanções internacionais.
Embora estas sejam indiscutivelmente relevantes, tal explicação tornou-se uma espécie de analgésico político administrado para evitar o diagnóstico da doença real. Se cada fracasso económico pode ser atribuído exclusivamente a factores externos, desaparece qualquer incentivo para reconhecer erros internos. É uma estratégia intelectualmente conveniente, embora politicamente suicidária. O grande drama das autocracias modernas não consiste apenas na repressão dos adversários; consiste sobretudo na incapacidade de ouvir más notícias. Hannah Arendt, em “As Origens do Totalitarismo”, advertia que sistemas excessivamente fechados acabam por se tornar prisioneiros das próprias ficções.
Quando todos têm medo de dizer a verdade, a mentira deixa de ser uma ferramenta de propaganda para se transformar em método de governo. E quando a mentira governa, a realidade prepara inevitavelmente a sua vingança. Foi exactamente essa realidade que se manifestou nas sucessivas vagas de protesto que marcaram os últimos anos. Cada manifestação reprimida produziu novas camadas de ressentimento. Cada prisão política criou novos símbolos de resistência. Cada tentativa de impor silêncio acabou por amplificar as vozes dissidentes. O fenómeno não é novo. Václav Havel escreveu em “O Poder dos Sem Poder” que o maior temor dos sistemas autoritários reside na simples decisão das pessoas de viverem na verdade.
Esta observação mantém hoje uma actualidade impressionante. Nenhum aparato repressivo consegue governar indefinidamente uma população que perdeu o medo. A proposta de convergência entre figuras como Reza Pahlavi e Mir Hossein Mousavi ilustra precisamente a percepção crescente de que a fragmentação da oposição beneficia apenas a estrutura dominante. Independentemente das diferenças ideológicas que os separam, ambos representam correntes politicamente significativas numa eventual transição. Tal aproximação não significa unanimidade. Significa maturidade estratégica. Democracias não nascem da eliminação das divergências; nascem da capacidade de administrar divergências sem recorrer à violência.
O verdadeiro desafio para o futuro iraniano talvez não seja derrubar uma ordem política específica, mas construir um consenso mínimo capaz de garantir estabilidade após a mudança. Como advertia Karl Popper em “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos”, o problema central da política não consiste em escolher governantes perfeitos, mas em criar mecanismos que permitam remover maus governantes sem derramamento de sangue. Esta ideia, aparentemente simples, permanece revolucionária em contextos onde o poder se considera sagrado.
Entretanto, o regime continua a comportar-se como se a simples repetição dos seus slogans pudesse alterar a trajectória dos acontecimentos. Há algo de tragicómico nesta insistência. É semelhante ao comportamento de um capitão que, perante um icebergue visível no horizonte, decide reforçar a pintura do navio em vez de mudar o rumo. Os discursos tornam-se mais enfáticos à medida que a credibilidade diminui. As cerimónias tornam-se mais grandiosas à medida que a confiança pública se deteriora. A retórica torna-se mais agressiva à medida que o poder real se fragiliza.
A História está repleta destes momentos de auto-ilusão colectiva. Edward Gibbon, em “The History of the Decline and Fall of the Roman Empire”, descreveu como impérios frequentemente confundem aparência de estabilidade com estabilidade efectiva. A diferença entre as duas é enorme. A primeira depende da encenação. A segunda depende da legitimidade. E a legitimidade, ao contrário da coerção, não pode ser fabricada por decreto. O caso iraniano revela assim uma verdade universal frequentemente ignorada pelos detentores do poder de que nenhuma estrutura política consegue sobreviver indefinidamente quando exige aos cidadãos que suspendam permanentemente o seu espírito crítico.
As pessoas podem obedecer durante algum tempo. Podem adaptar-se durante outro tanto. Mas dificilmente renunciam para sempre à aspiração de decidir o seu próprio destino. O século XXI é particularmente impiedoso para sistemas assentes em monopólios de verdade. Num mundo hiperconectado, a informação atravessa fronteiras com uma velocidade que nenhum ministério consegue controlar. A censura transforma-se numa operação cada vez mais cara e cada vez menos eficaz. O resultado é uma erosão gradual da autoridade tradicional. Não porque os cidadãos se tornem automaticamente democratas exemplares, mas porque se tornam consumidores comparativos de realidades. Observam, avaliam, questionam e concluem. E quando concluem que os sacrifícios exigidos já não produzem benefícios credíveis, o contrato implícito entre governantes e governados começa a desintegrar-se.
O futuro do Irão permanece aberto. As transições políticas raramente seguem guiões previsíveis. Contudo, uma conclusão parece cada vez mais difícil de evitar de que sistemas construídos para impedir mudanças acabam frequentemente derrotados precisamente pela incapacidade de mudar. O regime iraniano enfrenta hoje não apenas uma oposição política, mas uma crise filosófica. Precisa de convencer milhões de cidadãos de que a autoridade religiosa concentrada continua a ser a melhor resposta para os desafios contemporâneos. A tarefa parece cada vez mais árdua. Quando um sistema necessita de gastar quantidades crescentes de energia para justificar a própria existência, talvez esteja involuntariamente a admitir que já perdeu a discussão essencial. E quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas político. Passa a ser histórico.
Bibliografia
- Acemoglu, Daron; Robinson, James A. (2012). Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty. Crown Publishers.
- Arendt, Hannah (1951). The Origins of Totalitarianism. Harcourt, Brace & Company.
- Gibbon, Edward (1776-1789). The History of the Decline and Fall of the Roman Empire. Strahan & Cadell.
- Havel, Václav (1978). The Power of the Powerless. M. E. Sharpe.
- Khomeini, Ruhollah (1970). Hokumat-e Islami: Velayat-e Faqih (Governo Islâmico).
- Popper, Karl (1945). The Open Society and Its Enemies. Routledge.
- Tocqueville, Alexis de (1835-1840). De la Démocratie en Amérique.
- Abrahamian, Ervand (2008). A History of Modern Iran. Cambridge University Press.
- Axworthy, Michael (2013). Revolutionary Iran: A History of the Islamic Republic. Oxford University Press.
- Milani, Abbas (2011). The Shah. Palgrave Macmillan.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
