Há épocas históricas que se distinguem pelas suas grandes descobertas e há outras que se celebrizam pelo esforço quase heróico que desenvolvem para ignorar tudo aquilo que já foi descoberto. A contemporaneidade parece determinada a conquistar um lugar de honra nesta segunda categoria. Existe um fenómeno que ultrapassa largamente a realidade americana e se converteu num sintoma global que é a crescente hostilidade de certos sectores políticos perante a ciência, como se a investigação científica fosse uma conspiração particularmente sofisticada destinada a contrariar preconceitos eleitorais.
O episódio é relativo às tentativas de redução drástica do financiamento da investigação, à suspensão de subsídios científicos e à interferência política em organismos de aconselhamento técnico, e que não constitui apenas uma disputa orçamental. Representa algo mais profundo, preocupante e infinitamente irónico que é o confronto entre a realidade observável e a obstinação ideológica. Como tantas vezes acontece, a realidade tem a desvantagem de não votar nem financiar campanhas, razão pela qual costuma partir para estas batalhas em clara inferioridade estratégica.
Durante séculos, a humanidade procurou libertar-se das superstições, dos dogmas e das crenças infundadas através da construção paciente do método científico. Depois de incontáveis gerações dedicadas à observação, à experimentação e à verificação, descobrimos uma solução engenhosa para compreender o mundo que é testar hipóteses antes de as transformar em certezas. Parecia uma ideia razoável. Contudo, o século XXI demonstrou que existe uma alternativa muito mais popular que é transformar certezas em hipóteses e rejeitar todos os testes que produzam resultados inconvenientes.
A ironia é magistral. Nunca houve tanto conhecimento disponível e nunca foi tão fácil encontrar quem desconfie dele. Nunca houve tantos dados e nunca prosperaram tão facilmente os profissionais da ignorância militante. Como observava Carl Sagan em “The Demon-Haunted World” (1995), “a ciência é mais do que um corpo de conhecimento; é uma forma de pensar”. O problema é que pensar continua a exigir esforço, enquanto acreditar exige apenas disponibilidade emocional. Entre o trabalho intelectual e o conforto das convicções pré-fabricadas, uma parte significativa do debate público parece ter feito a sua escolha.
O ataque à ciência raramente se apresenta como verdadeiro ataque. Surge sempre vestido com roupagens respeitáveis. Fala de eficiência, de racionalização, de prioridades nacionais ou de combate às elites. O truque é antigo. Ninguém declara guerra à evidência empírica. Limita-se a reduzir orçamentos, encerrar programas, substituir especialistas por militantes e transformar organismos técnicos em extensões do espectáculo político. O resultado é semelhante ao de um indivíduo que afirma respeitar profundamente a medicina enquanto destrói hospitais para reduzir despesas.
As palavras mantêm a aparência de sensatez; os actos encarregam-se de revelar a realidade. As imagens mostram precisamente essa tensão. Por um lado, instituições científicas que dependem de estabilidade, planeamento e financiamento de longo prazo. Por outro, uma cultura política cada vez mais fascinada pela gratificação imediata, pela polémica constante e pela substituição da competência pela lealdade ideológica. A ciência trabalha em décadas; a política trabalha frequentemente em ciclos eleitorais.
A primeira constrói conhecimento acumulativo; a segunda responde frequentemente às sondagens da semana. Quando estes dois tempos entram em conflito, a ciência costuma perder popularidade, ainda que normalmente acabe por vencer a discussão histórica. Como escreveu Thomas Kuhn em “The Structure of Scientific Revolutions” (1962), o progresso científico não ocorre de forma linear, mas através de mudanças profundas de paradigma. O que Kuhn talvez não tivesse antecipado era a possibilidade de um paradigma político segundo o qual a ignorância pudesse ser promovida como virtude cívica.
Existe um elemento particularmente cómico nesta hostilidade à investigação científica. Grande parte dos seus promotores beneficia diariamente dos resultados produzidos pelos mesmos investigadores que critica. Utilizam satélites, telecomunicações, medicamentos avançados, redes digitais, sistemas de navegação e tecnologias médicas desenvolvidas por laboratórios frequentemente acusados de desperdício financeiro ou elitismo intelectual. Criticam a ciência através de dispositivos concebidos pela ciência, difundem suspeitas sobre a tecnologia recorrendo a plataformas tecnológicas e descartam estudos científicos enquanto citam números produzidos por métodos científicos.
Se a incoerência produzisse energia, determinadas conferências de imprensa resolveriam instantaneamente os problemas energéticos do planeta. O caso torna-se ainda mais peculiar quando a investigação afectada diz respeito à saúde pública. A redução de programas de monitorização epidemiológica ou o enfraquecimento de instituições científicas não elimina doenças nem altera fenómenos biológicos. Os vírus, infelizmente, não acompanham debates parlamentares. As bactérias revelam uma preocupante falta de respeito pelas narrativas ideológicas.
A natureza permanece indiferente ao número de seguidores nas redes sociais. Como recordava Richard Feynman, em “The Meaning of It All” (1998), “a natureza não pode ser enganada”. Trata-se de uma limitação profundamente frustrante para quem acredita que os factos devem adaptar-se às preferências políticas do momento. Há também uma dimensão económica frequentemente ignorada. O financiamento científico não representa apenas despesa; constitui investimento produtivo. Universidades, centros de investigação e laboratórios geram inovação, emprego qualificado, desenvolvimento tecnológico e vantagens competitivas.
Países que desvalorizam a ciência acabam geralmente por importar, a elevado custo, as soluções criadas por aqueles que decidiram valorizá-la. É uma estratégia admiravelmente original de cortar na produção de conhecimento próprio para adquirir conhecimento alheio a preço de luxo. Poucos modelos de gestão conseguem combinar dependência tecnológica e orgulho nacional com tamanha elegância conceptual. A situação torna-se ainda mais absurda quando se observa a crescente complexidade dos desafios contemporâneos. Alterações climáticas, inteligência artificial, cibersegurança, transições energéticas, pandemias, resistência antimicrobiana e escassez de recursos exigem precisamente mais ciência, investigação e especialistas.
A resposta de certos sectores políticos consiste, porém, em tratar os especialistas como um obstáculo à simplicidade das narrativas. Afinal, soluções complexas são incómodas porque exigem explicações complexas. E nada ameaça mais uma frase de efeito do que um investigador munido de dados. Em “The Open Society and Its Enemies” (1945), Karl Popper defendia que o conhecimento progride através da crítica e da refutação. A ciência não exige obediência; exige escrutínio. É precisamente essa característica que a torna tão desconfortável para projectos políticos baseados em certezas absolutas. O cientista respeitável não afirma possuir a verdade definitiva; afirma apenas possuir a melhor explicação disponível até ao momento.
O ideólogo, pelo contrário, costuma iniciar qualquer debate convencido de que a verdade já lhe pertence. A diferença é subtil, mas produz consequências civilizacionais profundas. As sociedades que valorizam a investigação constroem mecanismos para corrigir erros. As sociedades que transformam crenças em dogmas organizam-se para os repetir indefinidamente. Talvez por isso os ataques à ciência sejam quase sempre acompanhados por uma retórica de ressentimento contra universidades, investigadores e instituições académicas. O especialista torna-se uma figura suspeita não porque esteja necessariamente errado, mas porque a sua existência recorda uma verdade desagradável pois o conhecimento exige trabalho.
Esta constatação colide frontalmente com uma cultura que recompensa opiniões instantâneas sobre assuntos que exigiriam décadas de estudo. Nunca foi tão fácil parecer informado sem o estar efectivamente. Nunca foi tão simples confundir visibilidade com competência. Nunca foi tão lucrativo vender convicções simplistas para problemas extraordinariamente complexos. O mais inquietante é que esta tendência não ameaça apenas a ciência; ameaça a própria democracia. Uma cidadania incapaz de distinguir evidência de propaganda torna-se vulnerável a todas as formas de manipulação.
Quando os factos passam a ser tratados como opiniões e as opiniões como factos, o espaço público transforma-se numa feira onde cada banca comercializa a sua versão privada da realidade. Nesse mercado, a verdade deixa de ser aquilo que pode ser demonstrado e passa a ser aquilo que pode ser repetido com maior intensidade. É uma regressão intelectual disfarçada de modernidade. E, no entanto, persiste uma esperança razoável. Apesar das pressões políticas, das campanhas de desinformação e da fragilidade das instituições, a ciência continua a produzir resultados. Continua a desenvolver vacinas, a melhorar tratamentos, a explorar o espaço, a criar novas tecnologias e a expandir as fronteiras do conhecimento humano.
A evidência possui uma qualidade particularmente irritante para os seus detractors e que tende a reaparecer. Pode ser ignorada durante algum tempo, caricaturada ou distorcida, mas raramente desaparece. O termómetro continua a medir temperaturas, independentemente das opiniões sobre meteorologia. O microscópio continua a revelar microrganismos, independentemente das preferências partidárias. A realidade mantém um compromisso obstinado consigo própria. E é precisamente por isso que os ataques à ciência acabam frequentemente por revelar mais sobre os seus autores do que sobre a própria ciência.
No fundo, a tragédia contemporânea não consiste na existência de ignorância. A ignorância é uma condição humana normal e universal. A verdadeira tragédia começa quando a ignorância deixa de ser reconhecida como limitação e passa a ser celebrada como princípio político. Nesse momento, a sociedade corre o risco de substituir bibliotecas por slogans, laboratórios por preconceitos e investigadores por agitadores. E quando uma civilização começa a desconfiar daqueles que procuram compreender o mundo, está frequentemente a anunciar que prefere ser confortada pelas ilusões a ser desafiada pelos factos.
Bibliografia
- Sagan, Carl. The Demon-Haunted World: Science as a Candle in the Dark. Random House, 1995.
- Kuhn, Thomas S. The Structure of Scientific Revolutions. University of Chicago Press, 1962.
- Popper, Karl. The Open Society and Its Enemies. Routledge, 1945.
- Feynman, Richard P. The Meaning of It All: Thoughts of a Citizen-Scientist. Perseus Books, 1998.
- Oreskes, Naomi; Conway, Erik M. Merchants of Doubt. Bloomsbury Press, 2010.
- Pinker, Steven. Enlightenment Now: The Case for Reason, Science, Humanism and Progress. Viking, 2018.
- Bronowski, Jacob. The Ascent of Man. Little, Brown and Company, 1973.
- Harari, Yuval Noah. Homo Deus: A Brief History of Tomorrow. Harvill Secker, 2015.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
