Durante décadas, a humanidade viveu sob uma curiosa forma de tranquilidade psiquiátrica colectiva com a convicção de que a possibilidade de destruição absoluta era precisamente aquilo que impediria a destruição total. A lógica parecia saída de uma reunião entre contabilistas deprimidos e filósofos especializados em paradoxos. Chamaram-lhe dissuasão nuclear. O princípio era simples pois se todos possuírem capacidade suficiente para transformar cidades inteiras em mapas arqueológicos, ninguém terá interesse em iniciar o espectáculo. A caixa de Pandora nuclear reflecte exactamente esse dilema contemporâneo.
O problema não reside apenas na existência de arsenais nucleares, mas no crescente número de Estados que começam a concluir que talvez a única apólice de seguro verdadeiramente respeitável seja possuir uma bomba própria. Afinal, a confiança entre nações tornou-se um produto mais raro do que a prudência nos debates televisivos. O mundo que emergiu após o fim da Guerra Fria prometia uma progressiva redução da dependência nuclear, mas essa promessa envelheceu mal. Tal como muitos programas políticos anunciados com pompa e circunstância, revelou-se mais um exercício de marketing estratégico do que um compromisso duradouro.
Hoje, perante conflitos regionais, tensões geopolíticas crescentes e incertezas sobre alianças históricas, vários países observam as potências nucleares e fazem uma pergunta tão simples quanto perturbadora de porque razão alguns Estados devem conservar instrumentos de destruição maciça enquanto outros são convidados a confiar na boa vontade alheia? A questão não é nova. Em “The Spread of Nuclear Weapons”, Scott Sagan e Kenneth Waltz protagonizaram um dos mais importantes debates intelectuais sobre a proliferação nuclear. Waltz defendia a célebre tese segundo a qual “mais pode ser melhor”, argumentando que novos Estados nucleares tenderiam a comportar-se de forma racional para evitar a própria destruição.
Já Sagan sustentava precisamente o contrário de que “mais será pior”, porque organizações humanas cometem erros, governos mudam, sistemas falham e acidentes acontecem. A história das relações internacionais oferece abundantes argumentos para ambos. O problema é que a racionalidade, tantas vezes apresentada como fundamento da dissuasão nuclear, parece cada vez mais escassa numa época em que impulsos, narrativas emocionais e cálculos eleitorais influenciam decisões estratégicas de alcance global. Thomas Schelling, em “Arms and Influence”, explicou que o verdadeiro poder não consiste apenas na capacidade de destruir, mas na capacidade de influenciar o comportamento do adversário através da ameaça credível dessa destruição.
O paradoxo continua extraordinariamente actual pois as armas nucleares são valiosas precisamente porque nunca deveriam ser utilizadas. Contudo, esta lógica contém uma armadilha intelectual. Quando um instrumento político depende do seu não uso para justificar a sua existência, qualquer erosão da confiança aumenta automaticamente a tentação de multiplicar esse mesmo instrumento. Assim nasce a caixa de Pandora estratégica. Cada novo país que pondera obter armas nucleares apresenta argumentos defensivos. Nenhum anuncia ambições apocalípticas. Nenhum se proclama aspirante ao caos. Todos invocam segurança, estabilidade, soberania e sobrevivência nacional. O fenómeno recorda uma rua residencial onde cada morador decide instalar sistemas de vigilância cada vez mais sofisticados porque desconfia dos vizinhos.
Em pouco tempo, ninguém se sente seguro, embora todos estejam mais armados. O século XXI transformou a segurança internacional num mercado de ansiedades. A retórica oficial continua a celebrar a paz, enquanto os orçamentos militares crescem com uma disciplina exemplar que raramente se observa nos sectores da educação, da ciência ou da saúde. O cidadão comum é frequentemente informado de que novos armamentos são indispensáveis para preservar a estabilidade. Curiosamente, a estabilidade parece necessitar de investimentos permanentes para evitar desaparecer, como um electrodoméstico defeituoso que consome cada vez mais energia mas continua sem funcionar adequadamente.
Nesse contexto, o debate sobre uma nova corrida nuclear deixou de ser uma especulação académica. Tornou-se uma hipótese concreta. O problema fundamental não está apenas nas armas existentes, mas na erosão gradual dos mecanismos institucionais que limitavam a sua expansão. Em “The Nuclear Revolution”, Kenneth Waltz argumentava que a posse nuclear podia induzir prudência entre os Estados. A realidade contemporânea, porém, sugere uma variável adicional que o século XXI tornou impossível ignorer que é a fragmentação informacional.
Nunca houve tanta informação disponível, mas também nunca existiu tanta capacidade para desinformar. A combinação entre armamento estratégico, nacionalismos digitais, campanhas de influência e polarização política cria condições particularmente perigosas. Uma decisão nuclear errada já não depende exclusivamente de radares defeituosos ou de interpretações militares equivocadas. Pode nascer de rumores, manipulações tecnológicas ou percepções distorcidas amplificadas em escala global. A ironia é quase literária. Depois de décadas a aperfeiçoar sistemas destinados a prevenir erros humanos, a humanidade descobriu novas formas de produzir erros em velocidade industrial.
A caixa de Pandora moderna não é apenas metálica, subterrânea ou militar. É também virtual, algorítmica e instantânea. Os defensores da proliferação argumentam frequentemente que as democracias são menos propensas a aventuras irracionais. A afirmação contém mérito, mas não elimina riscos. As democracias continuam a ser administradas por seres humanos, e a história demonstra que a inteligência colectiva é frequentemente sobrevalorizada quando confrontada com medo, patriotismo exacerbado ou pressão política. Como observou Barbara Tuchman em “The March of Folly”, os governos possuem uma extraordinária capacidade para persistir em políticas contrárias aos próprios interesses.
A existência de armamento nuclear não anula essa característica; apenas amplia as suas potenciais consequências. Enquanto isso, os cidadãos observam discussões estratégicas conduzidas por especialistas que falam de megatons, vectores, dissuasão alargada e equilíbrios regionais com a mesma serenidade com que um jardinheiro comenta a poda de roseiras. A linguagem técnica desempenha uma função quase terapêutica. Ao converter riscos existenciais em terminologia burocrática, torna-se mais fácil conviver com eles. Fala-se de “capacidades”, “posturas estratégicas” e “projecção de poder”, evitando recordar que o objecto da discussão continua a ser a capacidade de eliminar milhões de vidas em poucos minutos. Talvez seja essa a forma mais sofisticada de ironia geopolítica que é esconder o horror sob camadas sucessivas de vocabulário especializado.
Esta reflexão alerta para uma realidade desconfortável. Cada país que considera adquirir armas nucleares acredita estar a aumentar a sua segurança individual. Contudo, quando vários Estados adoptam simultaneamente esse raciocínio, a segurança colectiva diminui. Trata-se de um clássico dilema de acção colectiva. Todos procuram protecção; todos produzem insegurança. Todos alegam prudência e todos contribuem para o risco sistémico. O resultado final assemelha-se a uma competição entre passageiros que tentam melhorar a estabilidade de um barco correndo de um lado para o outro do convés.
O século XXI não necessita de novos arsenais para demonstrar a fragilidade da ordem internacional. Precisa apenas de observar os conflitos em curso, as rivalidades estratégicas emergentes e a deterioração da confiança diplomática. O mais preocupante é que a proliferação nuclear deixou de ser apresentada exclusivamente como último recurso. Em certos círculos, começa a ser discutida como opção racional de médio prazo. Eis a verdadeira abertura da caixa de Pandora que é a normalização da ideia de que a sobrevivência depende da capacidade de aniquilação.
Se a humanidade chegar a esse consenso, terá alcançado uma vitória táctica extraordinária e uma derrota civilizacional ainda maior. Afinal, uma civilização que mede a sua segurança pela eficácia dos seus instrumentos de extermínio talvez esteja apenas a demonstrar que confundiu poder com sabedoria. E a história ensina, com uma persistência quase cruel, que essas confusões raramente terminam bem. A tragédia potencial não reside apenas na possibilidade de uma guerra nuclear deliberada. Reside igualmente na acumulação gradual de probabilidades, erros de cálculo, crises mal interpretadas e decisões tomadas sob pressão. O risco nuclear moderno não é um relâmpago isolado; é uma tempestade estatística.
Enquanto os governos discutem doutrinas estratégicas, a pergunta essencial permanece sem resposta convincente: poderá a humanidade continuar indefinidamente a confiar que nenhuma falha humana ocorrerá num sistema construído precisamente por humanos? A resposta mais honesta é também a mais incómoda. Talvez a verdadeira caixa de Pandora nunca tenha sido aberta por cientistas, generais ou políticos. Talvez tenha sido aberta no momento em que a sobrevivência passou a depender da esperança de que todos permaneçam eternamente racionais. E apostar o destino da civilização na racionalidade permanente é uma demonstração de optimismo que a própria história, com o seu humor negro característico, dificilmente recomendaria.
Bibliografia
- Schelling, Thomas C. Arms and Influence. Yale University Press, 1966.
- Sagan, Scott D.; Waltz, Kenneth N. The Spread of Nuclear Weapons: An Enduring Debate. W. W. Norton & Company, 2012.
- Waltz, Kenneth N. The Nuclear Revolution: International Politics Before and After Hiroshima. American Enterprise Institute Press, 1981.
- Tuchman, Barbara W. The March of Folly: From Troy to Vietnam. Ballantine Books, 1984.
- Delpech, Thérèse. Nuclear Deterrence in the 21st Century: Lessons from the Cold War for a New Era of Strategic Piracy. RAND Corporation, 2012.
- Narang, Vipin; Sagan, Scott D. (eds.). The Fragile Balance of Terror: Deterrence in the New Nuclear Age. Cornell University Press, 2022.
- Grant, Thomas D. Nuclear Arms Control in Peril: Why the Nuclear Non-Proliferation Treaty Matters and How to Save It. Edward Elgar Publishing, 2021.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
