Há acontecimentos que pertencem à categoria dos acidentes e há outros que pertencem à categoria dos avisos ignorados. As enxurradas que devastaram a região fronteiriça entre o Nepal e o Tibete, deixando centenas de mortos e mais de mil desaparecidos, não pertencem ao domínio do imprevisto absoluto. Pelo contrário. São o capítulo mais recente de uma narrativa que a ciência escreve há décadas e que a política lê apenas quando as câmaras de televisão chegam ao local.

Nas encostas dos Himalaias, onde alguns dos mais impressionantes glaciares do planeta alimentam rios que sustentam milhões de vidas, uma massa colossal de água, gelo, lama e detritos desceu montanha abaixo com uma violência capaz de engolir edifícios em poucos segundos. As imagens são impressionantes. Mas talvez mais impressionante seja a surpreendente capacidade humana para continuar surpreendida.

Todos os anos, à medida que os termómetros sobem e os glaciares recuam, multiplicam-se os relatórios científicos, os alertas internacionais e as previsões sobre o aumento da frequência de eventos extremos. Ainda assim, quando uma catástrofe ocorre, o discurso dominante insiste em apresentá-la como uma fatalidade quase metafísica, uma espécie de explosão súbita da natureza, como se a Terra tivesse acordado mal-disposta.

Ora, a natureza não acordou mal-disposta. A natureza respondeu. Em “A Rebelião das Massas” (1930), José Ortega y Gasset observava que o homem moderno se habituara a usufruir dos benefícios da civilização sem compreender os mecanismos que os tornavam possíveis. Um século depois, poderíamos acrescentar que o homem contemporâneo se habituou a usufruir da estabilidade ambiental sem compreender os delicados equilíbrios que a sustentam. Ou, pior ainda, compreendendo-os perfeitamente, mas fingindo não compreender.

Os Himalaias são frequentemente descritos como eternos. A palavra surge em guias turísticos, livros de viagens e documentários. A ideia de eternidade possui uma enorme vantage pois tranquiliza. Contudo, os glaciares não conhecem poesia. Conhecem apenas temperatura. Quando esta sobe, eles recuam. Quando recuam, os sistemas hidrológicos alteram-se. Quando os sistemas hidrológicos se alteram, aumentam os riscos de avalanches, cheias repentinas, deslizamentos de terras e rupturas de lagos glaciares.

Não há qualquer mistério. Há física. Em “The Discovery of Global Warming (2003)”, o historiador da ciência Spencer Weart demonstra de forma detalhada como o conhecimento científico sobre o aquecimento global se consolidou ao longo de décadas. Não se trata de uma hipótese nascida na última moda ideológica. Trata-se de um corpo de conhecimento acumulado por milhares de investigadores em diferentes países, universidades e disciplinas.

Contudo, a relação das sociedades modernas com a evidência científica é frequentemente semelhante à relação de um adolescente com os conselhos dos pais pois reconhece-lhes racionalidade apenas depois de cometer o erro. A tragédia do Nepal e do Tibete possui ainda uma ironia particularmente cruel. Muitos dos desaparecidos encontravam-se numa peregrinação ao monte Kailash, um dos locais mais sagrados para milhões de hindus. Outros eram turistas, viajantes, aventureiros ou trabalhadores. Nacionalidades, culturas e religiões diferentes. A enxurrada não fez distinções.

François de La Rochefoucauld escreveu nas suas “Máximas” que o sol e a morte são duas coisas que não se podem olhar fixamente durante muito tempo. Poderíamos acrescentar uma Terceira  que é a vulnerabilidade humana. Porque, perante uma avalanche de gelo, lama e pedra, os passaportes tornam-se pedaços de papel e as fronteiras linhas imaginárias desenhadas sobre mapas indiferentes à geologia.

Enquanto as equipas de resgate procuram sobreviventes, especialistas alertam para a possibilidade de novos desastres. Os detritos acumulados poderão ter formado barragens naturais temporárias em alguns cursos de água. Se essas barreiras colapsarem, a água represada poderá descer os vales com força destrutiva semelhante ou superior à que já foi observada.

Há algo simbolicamente perfeito nesta imagem. A civilização contemporânea também construiu as suas barragens artificiais. Barragens de adiamento, de retórica, de promessas políticas e de conferências climáticas repletas de discursos inflamados e resultados modestos. Durante anos, acumulámos problemas a montante enquanto celebrávamos pequenos avanços a jusante.

A questão nunca foi saber se essas barragens iriam ceder. A questão era apenas quando. Em “O Princípio Responsabilidade” (1979), Hans Jonas advertia que o poder tecnológico adquirido pela humanidade exigia uma nova ética baseada nas consequências futuras das nossas decisões presentes. Jonas percebia aquilo que ainda hoje muitos dirigentes fingem não compreender de que a capacidade de alterar profundamente o planeta implica uma responsabilidade proporcional.

Contudo, a política moderna continua frequentemente apaixonada pelo curto prazo. Uma floresta demora décadas a crescer. Uma campanha eleitoral dura poucas semanas. Um glaciar necessita de séculos para se formar. Uma reunião ministerial dura uma manhã. O desequilíbrio temporal entre os problemas e as decisões talvez explique parte da dificuldade colectiva em agir.

Os Himalaias, porém, não esperam pelos calendários eleitorais. O gelo também não consulta sondagens. As leis da termodinâmica revelam-se escandalosamente indiferentes à popularidade de um governo. É precisamente essa indiferença que torna a situação tão desconfortável. Durante muito tempo, uma parte significativa da opinião pública habituou-se a imaginar as alterações climáticas como um fenómeno distante. Algo que afectaria gerações futuras, arquipélagos remotos ou espécies exóticas. Entretanto, os impactos começaram a surgir em toda a parte: ondas de calor mais severas, secas prolongadas, incêndios florestais extremos, eventos de precipitação intensa e fenómenos criosféricos cada vez mais imprevisíveis.

Em “Silent Spring” (1962), Rachel Carson demonstrou como as sociedades humanas possuem uma capacidade extraordinária para ignorar sinais de alerta quando estes ameaçam hábitos confortáveis. O livro centrava-se nos pesticidas, mas a observação continua válida. O problema raramente é a falta de informação. O problema é a abundância de desculpas.

E poucas desculpas são tão persistentes quanto a ilusão de que haverá sempre tempo. Mais tarde. Depois. No próximo orçamento. Na próxima cimeira. Na próxima legislatura e no próximo relatório. O futuro tornou-se o grande armazém onde a humanidade guarda as questões incómodas. Infelizmente, o futuro possui um hábito desagradável de transforma-se em presente.

Quando isso acontece, as abstracções convertem-se em estatísticas. Depois as estatísticas transformam-se em funerais. As imagens provenientes dos vales atingidos mostram estradas destruídas, edifícios soterrados, veículos esmagados, sobreviventes cobertos de lama e comunidades inteiras mergulhadas na perplexidade. São imagens que revelam um facto simples e desconfortável de que a natureza não negocia.

Durante séculos alimentámos uma narrativa de domínio. A tecnologia permitiu-nos atravessar oceanos, conquistar altitudes extremas, comunicar instantaneamente através de continentes e alterar ecossistemas inteiros. Gradualmente fomos confundindo capacidade com omnipotência. O poeta Percy Shelley deixou-nos em “Ozymandias” uma das mais brilhantes reflexões sobre a arrogância humana. A estátua quebrada do poderoso rei reduzida a ruínas no deserto recorda que o tempo possui sempre a última palavra.

Talvez os Himalaias estejam hoje a repetir a mesma lição em linguagem geológica. Não através de versos. Mas através de toneladas de água e gelo. Entretanto, as equipas de socorro continuam o seu trabalho. Procuram sobreviventes. Recuperam vítimas. Tentam restabelecer acessos e comunicações. A solidariedade internacional mobiliza fundos, meios logísticos e ajuda humanitária. Tudo isso é indispensável e digno do maior reconhecimento.

Mas seria intelectualmente desonesto tratar esta tragédia apenas como uma operação de emergência. Ela é também um espelho que reflecte as contradições da nossa época. Possuímos satélites capazes de observar glaciares ao detalhe. Dispomos de modelos climáticos sofisticados. Produzimos milhões de páginas de investigação científica. No entanto, continuamos frequentemente a comportar-nos como herdeiros pródigos convencidos de que os recursos naturais são infinitos e as consequências opcionais.

Muitos talvez tivessem  encontrado matéria abundante para a sua ironia. Talvez observassem que o cidadão moderno acompanha obsessivamente a cotação diária de activos financeiros invisíveis, mas ignora o estado dos glaciares que regulam o abastecimento de água de continentes inteiros. Talvez comentassem que nunca houve tanta informação disponível nem tamanha dificuldade em distinguir o essencial do acessório.

A verdade é que os Himalaias enviaram inúmeros avisos. Os cientistas repetiram-nos. Os glaciares confirmaram-nos. As cheias anteriores reforçaram-nos. Agora chegaram os desaparecidos, os mortos e a destruição para lhes dar uma forma impossível de ignorar. As montanhas falaram. A questão continua a ser , se estaremos finalmente dispostos a escutar?

Bibliografia

  • Carson, Rachel. Silent Spring. Boston: Houghton Mifflin, 1962.
  • Jonas, Hans. Das Prinzip Verantwortung (O Princípio Responsabilidade). Frankfurt am Main: Insel Verlag, 1979.
  • La Rochefoucauld, François. Réflexions ou Sentences et Maximes Morales. Paris, 1665.
  • Ortega y Gasset, José. La Rebelión de las Masas. Madrid: Revista de Occidente, 1930.
  • Shelley, Percy Bysshe. Ozymandias. Publicado em The Examiner, Londres, 1818.
  • Weart, Spencer R. The Discovery of Global Warming. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2003.
  • Bryson, Bill. A Short History of Nearly Everything. Londres: Doubleday, 2003.

  • Meta descrição: Uma reflexão mordaz e irónica sobre as enxurradas devastadoras nos Himalaias, a crise climática, a tragédia humana no Nepal e no Tibete e a persistente recusa da humanidade em escutar os avisos da ciência.
  • Meta termos: Nepal, Tibete, Himalaias, enxurradas, alterações climáticas, aquecimento global, glaciares, desastre natural, Ramalho Ortigão, cheias, montanhas, catástrofe, clima, avalanche glaciar, ICIMOD, Trishuli, Bhotekoshi, riscos ambientais, degelo, ajuda humanitária