Há cidades que se reinventam pela arquitectura, outras pela cultura, e outras ainda pela obstinação em sobreviver ao caos que elas próprias criam. Macau, essa pequena Babilónia de betão, cabos expostos e juntas de dilatação fatigadas, parece ter descoberto recentemente a nobre arte da fiscalização não como exercício preventivo, mas como ritual pós-traumático, espécie de missa de sétimo dia celebrada antes que o desastre aconteça.

A equipa governativa liderada pelo secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, decidiu finalmente olhar para o norte da península, onde os edifícios não envelhecem mas apodrecem. Ali, entre Iao Hon e o edifício Mei On, o governante encontrou aquilo que qualquer residente sabia desde o século passado que as instalações eléctricas tão frágeis que fariam Thomas Edison chorar de vergonha.

Como escreveu Émile Zola, “a verdade é que a miséria é uma força que corrói tudo”. E em Macau, a miséria das infra-estruturas corrói paredes, cabos, juntas, viadutos e, ocasionalmente, a paciência dos bombeiros.

Raymond Tam visitou sete edifícios, acompanhado pela CEM, essa entidade que, como o sol, só se nota quando falha. A nota oficial afirma que o secretário “determinou que seja realizada uma revisão abrangente das estruturas dos edifícios”. Determinou, veja-se bem que verbo forte, quase imperial, digno de decreto régio.

Mas o que encontrou? Cabos expostos como serpentes preguiçosas, quadros eléctricos que parecem ter sido instalados por um relojoeiro míope, e corredores onde a humidade faz concorrência às cataratas do Niágara.

A CEM, convocada como testemunha técnica, terá certamente abanado a cabeça com a gravidade de quem sabe que a electricidade é uma força caprichosa. Como dizia Nikola Tesla, “a electricidade é a fada mais poderosa que o homem já capturou”. Em Iao Hon, porém, essa fada parece mais uma bruxa mal-humorada prestes a lançar um curto-circuito.

Enquanto o secretário fiscalizava edifícios, outro drama urbano desenrolava-se na Avenida Horta e Costa. O viaduto, cansado de suportar décadas de trânsito e negligência, decidiu finalmente confessar o seu desgaste. As juntas de dilatação, essas articulações metálicas que deveriam permitir ao viaduto respirar, estavam tão fatigadas que o DSOP e o DSAT tiveram de decretar o encerramento da estrutura.

Entre os dias 15 e 18, o trânsito será desviado para a Avenida de Sidónio Pais e para a Rua da Fonte da Inveja nome apropriado, diga-se, para quem ficará preso no congestionamento. Serão utilizados “novos materiais” para reforçar a durabilidade das juntas, expressão que em Macau significa geralmente que se comprou algo mais caro na esperança de que dure mais do que uma monção.

Victor Hugo escreveu que “as cidades são livros que se lêem com os pés”. Em Macau, lêem-se com o volante, o travão e uma boa dose de paciência.

O Instituto para os Assuntos Municipais, sempre diligente na arte de fechar espaços públicos, anunciou que os Centros de Actividades de São Domingos e Três Candeeiros vão entrar em renovação. Pinturas, casas de banho novas, encerramentos faseados tudo muito organizado, como se a cidade estivesse num processo de rejuvenescimento cosmético.

No centro dos Três Candeeiros, o primeiro piso fechará entre 17 de Agosto e 5 de Setembro, afectando salas de recreação, computadores e pingue-pongue. O segundo piso fechará depois, como se a renovação fosse uma peça de teatro em dois actos.

No Centro de São Domingos, o auditório e a sala de actividades fecharão até Setembro, e as áreas públicas até Dezembro. Macau, cidade que nunca dorme, parece agora entrar num sono leve, interrompido apenas pelo barulho das obras.

A DSSCU anunciou a recuperação de um terreno na Rua do Patane, ocupado ilegalmente por portões metálicos, tapumes e veículos. O Governo, num raro momento de assertividade, decidiu abrir uma via e criar uma zona de lazer temporária.

O terreno, com 985 metros quadrados, estava ocupado como se fosse propriedade privada. Emitiu-se um aviso para desocupação, que naturalmente não foi cumprido porque em Macau, avisos são lidos como sugestões.

Charles Dickens, mestre das descrições urbanas, escreveu: “a cidade é um organismo vivo, cheio de cantos onde a lei hesita em entrar”. O Patane é um desses cantos.

Macau enfrenta temperaturas elevadas, e o Corpo de Bombeiros alerta para riscos de curto-circuito. Recomenda-se que os residentes não sobrecarreguem quadros eléctricos como conselho que, em muitos edifícios, é tão útil como recomendar que não se sobrecarregue um cavalo já exausto.

Os bombeiros têm enviado agentes aos bairros, numa espécie de missão pedagógica. Sessões de esclarecimento, vistoria de cabos, verificação de infra-estruturas tudo muito civilizado, como se a cidade estivesse a aprender boas maneiras eléctricas.

E aqui chegamos ao ponto mais delicado da crónica: a higiene urbana. Qual foi a última vez que os passeios da RAEM foram lavados? Quando ocorreu a última desratização? Perguntas simples, respostas complexas.

Macau, cidade de brilho nocturno e glamour turístico, tem zonas onde os passeios parecem ter sido lavados pela última vez durante a administração portuguesa. Quanto à desratização, os ratos parecem ter adquirido direitos tácitos de residência. Como escreveu George Orwell, “ver aquilo que está diante do nariz requer um esforço constante”. Em Macau, ver o estado dos passeios requer coragem.

A fiscalização é necessária, urgente e inevitável. Mas é também sintoma de uma cidade que reage em vez de prevenir. Edifícios degradados, viadutos cansados, centros fechados, terrenos ocupados, cabos perigosos, calor extremo tudo isto compõe o retrato de uma administração que corre atrás dos problemas como quem tenta apanhar um autocarro que já arrancou. A cidade precisa de mais do que fiscalizações; precisa de planeamento, coragem política e uma visão que não seja apenas reactiva. Como disse Hannah Arendt, “a responsabilidade é o preço da liberdade”. Macau, se quer ser livre do caos urbano, terá de pagar esse preço.

Bibliografia

Arendt, Hannah. The Human Condition. University of Chicago Press, 1958.

Dickens, Charles. Bleak House. Bradbury & Evans, 1853.

Hugo, Victor. Les Misérables. A. Lacroix, Verboeckhoven & Cie., 1862.

Orwell, George. Inside the Whale and Other Essays. Victor Gollancz Ltd., 1940.

Tesla, Nikola. My Inventions. Electrical Experimenter Magazine, 1919.

Zola, Émile. L’Assommoir. Charpentier, 1877.

Jorge Rodrigues Simão 2026