A pergunta é simples, quase ingénua, mas o seu enunciado contém uma ironia estrutural: Portugal depende eternamente de fundos europeus porque, ao longo de décadas, se habituou a confundir política pública com subsidiodependência, planeamento estratégico com preenchimento de formulários, e desenvolvimento económico com a arte milenar de “ir buscar dinheiro a Bruxelas”. É quase uma identidade nacional alternativa pois uns países têm petróleo, outros têm indústria pesada, outros têm tecnologia de ponta; Portugal tem fundos estruturais. E, como qualquer vício bem instalado, quanto mais se consome, mais difícil é imaginar a vida sem ele.

A dependência não nasceu por acaso. Foi cultivada com zelo, como quem rega uma planta exótica que só floresce quando recebe dinheiro alheio. Desde a adesão à então Comunidade Económica Europeia, Portugal descobriu que havia uma forma relativamente indolor de financiar estradas, rotundas, centros empresariais vazios, formações profissionais de utilidade duvidosa e uma panóplia de projectos que, sem o selo europeu, jamais veriam a luz do dia. Não porque fossem visionários, mas porque ninguém no país estaria disposto a pagar por eles. Bruxelas, porém, estava e isso bastou para transformar o país num laboratório de engenharia financeira subsidiada.

O problema é que, ao contrário do que se gosta de proclamar em discursos inflamados sobre “coesão”, “modernização” e “convergência”, Portugal nunca conseguiu transformar estes fundos em autonomia. Pelo contrário, quanto mais dinheiro recebeu, mais se convenceu de que o desenvolvimento é algo que se importa, não algo que se constrói. É a velha lógica do “manda vir mais um pacote”, aplicada à economia nacional.

A ilusão da modernização permanente

Durante décadas, repetiu-se a narrativa de que os fundos europeus eram o motor da modernização. E, de facto, modernizaram muita coisa sobretudo o discurso político, que passou a incluir expressões como “programação plurianual”, “quadro financeiro”, “execução orçamental” e outras pérolas tecnocráticas que dão a impressão de que o país sabe exactamente o que está a fazer. A realidade, porém, é mais prosaica pois Portugal modernizou-se na forma, mas não no conteúdo.

As estradas multiplicaram-se, mas a economia continuou a depender de sectores de baixo valor acrescentado. Os centros de investigação foram inaugurados com pompa, mas muitos acabaram por funcionar como vitrines de inovação sem impacto real. As empresas receberam incentivos para se tornarem mais competitivas, mas grande parte delas continuou a competir essencialmente com salários baixos. E, claro, a administração pública informatizou-se mas não ao ponto de deixar de exigir certidões que ela própria emite.

O país tornou-se um especialista em gastar dinheiro europeu, não em transformar estruturalmente a sua economia. É como um aluno que tira boas notas porque copia bem em que o resultado parece positivo, mas não há aprendizagem real.

A cultura da almofada financeira

A dependência dos fundos europeus criou uma espécie de almofada psicológica e política. Sempre que surge um problema estrutural como produtividade baixa, salários estagnados, serviços públicos em colapso, empresas incapazes de competir internacionalmente, a resposta é invariavelmente a mesma “virão fundos do próximo quadro comunitário”. É quase uma oração laica, um mantra nacional.

Esta almofada tem um efeito perverso pois desresponsabiliza. Se há dinheiro europeu para tudo, para que serve planear a longo prazo? Para que serve reformar o Estado? Para que serve apostar seriamente na educação, na ciência, na inovação e na indústria? Para que serve fazer escolhas difíceis quando se pode simplesmente esperar pelo próximo envelope financeiro?

A dependência tornou-se tão profunda que muitos sectores económicos nem imaginam funcionar sem incentivos. Há empresas que nascem, crescem e morrem dentro de ciclos de financiamento europeu, como se fossem organismos cuja biologia depende de Bruxelas. E há autarquias que tratam os fundos como parte do seu orçamento natural, não como um recurso extraordinário.

A política como gestão de fluxos europeus

A política portuguesa também se adaptou a esta realidade. Em vez de discutir modelos de desenvolvimento, discute-se a taxa de execução dos fundos. Em vez de debater prioridades nacionais, debatem-se avisos de candidatura. Em vez de avaliar resultados, avaliam-se metros quadrados construídos, quilómetros asfaltados e relatórios entregues.

A política transformou-se numa espécie de contabilidade avançada, onde o sucesso se mede pela capacidade de captar dinheiro externo. Os governos anunciam com orgulho que “Portugal é dos países que mais fundos executa”, como se isso fosse sinónimo de progresso. É como elogiar alguém por ser excelente a gastar o dinheiro dos outros.

E, claro, esta lógica cria uma relação simbiótica entre o Estado e a União Europeia pois Portugal precisa dos fundos para manter a ilusão de modernização; Bruxelas precisa de mostrar que a política de coesão funciona. É um casamento de conveniência, onde ambos fingem que tudo está a correr bem, mesmo quando os indicadores económicos insistem em mostrar o contrário.

A economia que nunca cresce o suficiente

A dependência dos fundos europeus também revela uma verdade incómoda; Portugal não consegue gerar riqueza suficiente para financiar o seu desenvolvimento. A produtividade continua teimosamente baixa, os salários permanecem estagnados, a inovação avança a passo de caracol e a estrutura económica mantém-se frágil, demasiado exposta a choques externos.

Os fundos europeus funcionam como transfusões periódicas que impedem o paciente de colapsar, mas não tratam a doença. E, como qualquer paciente que vive de transfusões, Portugal habituou-se a sobreviver sem nunca recuperar plenamente.

A economia portuguesa tornou-se uma espécie de híbrido estranho; suficientemente moderna para absorver fundos, mas não suficientemente robusta para dispensá-los. É um limbo confortável, mas estéril.

A burocracia como ecossistema

Outro factor que perpetua a dependência é a burocracia. Portugal desenvolveu uma indústria inteira dedicada à gestão de fundos como consultoras, gabinetes técnicos, entidades intermédias, departamentos especializados, plataformas digitais, auditores, avaliadores, verificadores, certificadores. É um ecossistema complexo, que emprega milhares de pessoas e que vive exclusivamente da existência de fundos europeus.

Se os fundos desaparecessem, grande parte desta máquina ficaria sem função. E, como qualquer ecossistema, luta pela sua sobrevivência. Quanto mais complexos forem os processos, mais indispensáveis se tornam os seus intermediários. E quanto mais indispensáveis forem, mais difícil é imaginar um país que funcione sem eles.

A dependência emocional

Há ainda uma dimensão psicológica nesta dependência. Portugal habituou-se a ver a Europa como uma espécie de entidade paternal que corrige os seus erros, financia os seus projectos e valida as suas escolhas. Esta relação quase afectiva impede o país de assumir plenamente a sua autonomia. É mais fácil pedir ajuda do que enfrentar a realidade.

A dependência tornou-se parte da identidade nacional, quase um traço cultural. Fala-se de fundos europeus com a mesma naturalidade com que se fala do clima, do futebol ou da gastronomia. São parte do quotidiano, uma presença constante, uma certeza num país onde quase nada é certo.

O futuro que nunca chega

A grande ironia é que os fundos europeus foram criados para promover a convergência económica. Mas, no caso português, acabaram por cristalizar a divergência. Em vez de aproximar Portugal dos países mais desenvolvidos, criaram uma ilusão de progresso que mascara fragilidades profundas.

A dependência perpetua-se porque o país nunca conseguiu ou nunca quis fazer o salto estrutural necessário para se libertar dela. E, enquanto isso não acontecer, continuará a viver de ciclos de financiamento, como um relógio que só funciona quando alguém lhe dá corda.

Conclusão: a eterna adolescência económica

Portugal depende eternamente de fundos europeus porque nunca completou a transição para a idade adulta económica. Continua preso a uma adolescência prolongada, onde a responsabilidade é sempre adiada e o futuro é sempre financiado por terceiros. É um país que se habituou a viver com mesadas generosas, mas que nunca aprendeu a gerar o seu rendimento. A dependência não é inevitável; é confortável. E, enquanto for confortável, dificilmente será superada.

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