Há quem diga que o século XXI começou verdadeiramente quando o silício aprendeu a pensar. Outros, mais prudentes, afirmam que foi quando o lucro aprendeu a disfarçar-se de algoritmo. Seja como for, a Hon Hai Precision Industry conhecida entre os mortais como Foxconn acaba de provar que a fé na Inteligência Artificial é mais rentável do que qualquer religião organizada.
O segundo trimestre trouxe-lhe um milagre contabilístico digno de canonização: 59.974 milhões de dólares taiwaneses de lucro, um aumento de 35% face ao mesmo período do ano anterior. A liturgia financeira celebra-se em Nova Taipé, onde os servidores de IA substituíram os santos e os processadores Xeon tornaram-se apóstolos da nova economia.
A empresa, outrora simples montadora de iPhones, converteu-se em sumo-sacerdote da nuvem essa entidade etérea que promete salvação digital e cobra em gigabytes. “A tecnologia é o novo templo da humanidade”, escreveu Yuval Noah Harari em Homo Deus (2016), e a Foxconn parece ter levado a profecia à letra, transformando cada rack de servidor num relicário de capital.
Entre Abril e Junho de 2026, 51% das vendas da Foxconn vieram de servidores e produtos na nuvem, ultrapassando os modestos 29% dos electrónicos de consumo. O que antes era um mercado de gadgets tornou-se um culto de máquinas que pensam ou fingem pensar enquanto os humanos se limitam a apertar parafusos e a contar dividendos.
O volume de negócios atingiu 2,52 biliões de dólares taiwaneses, um aumento de 41%. No primeiro semestre, o lucro acumulado foi de 109.893 milhões, crescendo 27%. A matemática, essa velha senhora que nunca mente, confirma que o delírio da IA é mais contagioso do que qualquer vírus.
Mas não nos iludamos pois por trás da cortina de números há suor humano, fábricas na China e no Vietname, e trabalhadores que, segundo The Guardian (2023), “vivem entre o código e o cansaço”. A modernização financeira tem o mesmo perfume de sempre que é o da fadiga industrial mascarada de inovação.
A Foxconn é agora o braço direito da Nvidia, fabricante dos cérebros digitais que alimentam a inteligência artificial. Juntas, montam servidores das plataformas GB200 e GB300, nomes que soam a versículos de um evangelho tecnológico.
Em Junho de 2026, a empresa anunciou uma aliança com a Intel, prometendo desenvolver infra-estruturas de IA baseadas nos processadores Xeon. A palavra “colaboração” é aqui sinónimo de “domínio partilhado” pois o império do hardware une-se ao império do software, e ambos rezam pela mesma cartilha que é a do lucro exponencial.
Como escreveu Shoshana Zuboff em The Age of Surveillance Capitalism (2019), “a tecnologia não serve o homem; serve o mercado que o observa”. A Foxconn, com 40% do mercado global de servidores de IA, observa-nos todos discretamente, através das máquinas que fabricamos para nos substituir.
Fundada em 1974, a Foxconn nasceu no tempo em que o transistor ainda era um símbolo de progresso. Hoje, é o símbolo da dependência global. A empresa expandiu-se para os Estados Unidos e México, não por amor à diversidade geográfica, mas por necessidade de agradar ao novo deus da eficiência fiscal.
O capitalismo contemporâneo tem um sentido de humor peculiar que quanto mais automatiza o trabalho, mais multiplica os lucros; quanto mais promete libertar o homem, mais o prende ao ciclo da produção. A Foxconn é o retrato perfeito dessa ironia como uma corporação que fabrica inteligência para máquinas e exaustão para humanos.
O filósofo Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço (2010), descreveu esta era como “um tempo em que o sujeito se explora a si mesmo acreditando ser livre”. Se Han tivesse visitado uma fábrica da Foxconn, teria acrescentado “E fá-lo com um sorriso corporativo e um crachá de acesso à nuvem”.
A Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) observa este teatro tecnológico com o mesmo fascínio com que um jogador observa a roleta. A China contemporânea, dividida entre o pragmatismo de Pequim e o cosmopolitismo de Taipé, vê na Foxconn o espelho do seu próprio dilema de crescer sem perder o controlo, inovar sem desafiar o dogma.
Macau, com a sua economia de serviços e turismo, assiste à ascensão da IA como quem contempla um novo tipo de jogo como um casino de algoritmos onde o jackpot é o processamento de dados. A integração global, tão proclamada nos discursos oficiais, é afinal uma integração de servidores, não de pessoas.
O Banco Mundial (Relatório de 2025) já alertava que “A automação asiática poderá gerar desigualdades estruturais se não for acompanhada por políticas redistributivas.” Mas quem se preocupa com redistribuição quando o lucro cresce 35%? A Foxconn prefere redistribuir apenas dividendos.
O lucro, esse velho artista, aprendeu a pintar com cores digitais. Os relatórios trimestrais da Foxconn são verdadeiras obras de arte financeira com gráficos ascendentes, percentagens luminosas, e uma paleta de optimismo que faria corar qualquer expressionista.
A estética do progresso é tão sedutora que ninguém pergunta quem segura o pincel. A empresa, com acções a subir 16,38% na Bolsa de Taipé, tornou-se o museu vivo da rentabilidade. Cada servidor vendido é um quadro novo na galeria do capital.
Mas há algo de tragicómico nesta exibição pois o mundo celebra a inteligência artificial como se fosse um renascimento, esquecendo que o verdadeiro renascimento foi o humano. A IA promete substituir o pensamento, mas ainda não aprendeu a sentir culpa e é precisamente isso que a torna perfeita para o mercado.
A Foxconn fabrica inteligência, mas não a possui. O paradoxo é delicioso de uma empresa que ensina máquinas a pensar sem nunca questionar o próprio pensamento. A sua filosofia é simples e se o algoritmo funciona, o homem é dispensável.
O sociólogo Richard Sennett, em The Culture of the New Capitalism (2006), advertia que “a eficiência técnica tende a corroer o sentido moral do trabalho”. A Foxconn, ao transformar o fabrico em cálculo, confirma a profecia. O operário tornou-se um pixel na planilha global.
E, no entanto, há algo de poético neste absurdo. A humanidade, cansada de pensar, delegou o raciocínio às máquinas. Agora, as máquinas pensam em como aumentar o lucro humano. É uma simbiose perfeitamente absurda.
As reformas fiscais e estruturais que acompanham esta ascensão tecnológica são o pano de fundo de uma peça que se repete há séculos de que o Estado ajusta-se, o mercado expande-se, e o cidadão observa, impotente, o espectáculo da eficiência.
A Foxconn, com o seu império de fábricas e centros de investigação, é o actor principal deste drama. A integração na Organização Mundial do Comércio (OMC) foi o primeiro acto; a modernização financeira, o segundo; e a inteligência artificial, o terceiro, mais lucrativo e inquietante.
Como escreveu Joseph Stiglitz em Globalization and Its Discontents (2002), “a globalização sem regulação é apenas uma forma sofisticada de exploração”. A Foxconn não explora; optimiza. O verbo é novo, mas o significado é o mesmo.
O futuro da Foxconn está escrito em linguagem binária. O grupo mantém “elevadas expectativas” para o negócio de servidores e produtos na nuvem, e continua “optimista” quanto aos dispositivos de consumo. O optimismo, neste contexto, é uma função matemática que cresce proporcionalmente ao número de processadores vendidos.
Mas há uma sombra por trás do brilho dos números. A dependência da IA cria uma economia vulnerável à inteligência que idolatra. Quando o algoritmo falhar, não haverá santo que salve o balanço trimestral.
O futuro, dizem os relatórios, é luminoso mas só para quem tem acesso à electricidade. A Foxconn, com o seu império de servidores, promete alimentar o mundo com inteligência artificial, mas esquece-se de que a inteligência, mesmo quando artificial, consome energia real. O planeta aquece, as fábricas fervem, e o lucro evapora-se em forma de vapor digital.
O Instituto de Energia de Taiwan (Relatório de 2025) alertou que “a expansão dos centros de dados poderá representar 8% do consumo eléctrico nacional até 2030”. A Foxconn, claro, respondeu com um sorriso corporativo e uma promessa de “eficiência verde”. O verde, neste contexto, é apenas a cor do dinheiro.
A empresa tornou-se o paradigma do capitalismo pós-humano de uma entidade que fabrica máquinas para pensar, mas não para sentir. O seu sucesso é medido em terabytes, não em ideias. E, paradoxalmente, quanto mais inteligente se torna a tecnologia, mais estúpida se torna a humanidade fascinada por ecrãs que a observam enquanto ela dorme.
A integração global, outrora símbolo de progresso, transformou-se num espectáculo de eficiência. A Foxconn é o actor principal, mas o guião é escrito por Wall Street. Cada trimestre é um novo acto, cada relatório uma nova cena, e o público como investidores e analistas aplaude sem perceber que o drama é sempre o mesmo de crescimento, optimismo, e uma nota de rodapé sobre “condições de trabalho”.
O Financial Times (edição de 10 de Julho de 2025) descreveu a Foxconn como “o coração pulsante da economia digital”. O coração, porém, bate ao ritmo dos processadores, não das pessoas. A empresa é o retrato perfeito da globalização sem alma, uma sinfonia de eficiência tocada por máquinas que nunca desafinam.
E, enquanto o mundo celebra o avanço da IA, os trabalhadores continuam a montar servidores para que outros possam sonhar com a automação. É o paradoxo da modernidade de que quanto mais inteligente é o sistema, mais invisível se torna o humano.
O lucro é uma filosofia e a Foxconn é o seu maior discípulo. A empresa não pensa em termos de ética, mas de escalabilidade. A moral é uma variável obsoleta, substituída por algoritmos de optimização.
O filósofo Peter Sloterdijk, em Regras para o Parque Humano (1999), escreveu que “a humanidade perdeu o hábito de se educar a si mesma”. A Foxconn, ao educar máquinas, confirma a tese de que o homem não se forma, apenas se formata.
O lucro de 59.974 milhões de dólares taiwaneses é, portanto, mais do que um número; é um manifesto. Um manifesto que proclama que o futuro pertence às máquinas, e que o humano é apenas um intermediário temporário, um elo biológico entre o transistor e o algoritmo.
A nuvem, essa entidade metafísica que promete armazenar tudo, tornou-se o novo Olimpo. A Foxconn é o seu arquitecto, construindo templos de dados onde os deuses são servidores e os fiéis são utilizadores.
Mas há algo de profundamente irónico neste culto digital. A nuvem, que deveria libertar-nos das limitações físicas, exige cada vez mais espaço, energia e vigilância. É uma utopia que pesa toneladas e consome megawatts.
O Relatório da OCDE sobre Economia Digital (2025) afirma que “a infra-estrutura da nuvem é o novo eixo da dependência global”. A Foxconn, com 40% do mercado mundial de servidores de IA, é o epicentro dessa dependência. O mundo inteiro reza para que os seus cabos não se partam.
Há uma melancolia subtil na perfeição das máquinas. Elas não erram, não descansam e não duvidam e é precisamente isso que as torna tristes. A Foxconn constrói máquinas que nunca se cansam, mas fábricas que nunca dormem.
O ensaísta George Steiner, em Grammars of Creation (2001), escreveu que “a criação humana nasce do erro e da imperfeição”. A Foxconn, ao eliminar o erro, elimina também a humanidade. O seu sucesso é o triunfo da precisão sobre o espírito.
E, no entanto, há algo de poético neste cansaço mecânico. As máquinas, ao pensar por nós, libertam-nos da responsabilidade de pensar. É uma libertação que se confunde com abdicação e o mercado agradece.
Taiwan, ilha de paradoxos, é o palco onde se encena o drama da modernidade asiática. A Foxconn, sediada em Nova Taipé, é o seu protagonista. Entre o orgulho tecnológico e a tensão geopolítica, o país vive o dilema de quem fabrica o futuro sem saber se o poderá controlar.
O Instituto Chung-Hua de Pesquisa Económica (2025) descreve a Foxconn como “o motor da competitividade taiwanesa”. Mas motores, como se sabe, aquecem. A corrida pela inteligência artificial é também uma corrida contra o tempo e contra o planeta.
Enquanto o mundo discute ética digital, Taiwan produz servidores. É o pragmatismo elevado à categoria de filosofia nacional.
No teatro da economia global, a Foxconn é simultaneamente protagonista e cenário. Representa o triunfo da técnica sobre o pensamento, da eficiência sobre a ética, e da inteligência artificial sobre a inteligência natural.
Mas há uma ironia que paira sobre este espectáculo de que quanto mais inteligente se torna a tecnologia, mais previsível se torna o comportamento humano. O mercado, esse velho dramaturgo, sabe como termina a peça com aplausos, dividendos e uma nota de rodapé sobre sustentabilidade.
O Relatório da Bloomberg Intelligence (2026) conclui que “a procura por servidores de IA continuará a crescer 40% ao ano até 2030”. O futuro, portanto, está assegurado pelo menos para quem vende o pensamento em gigabytes.
Se a ironia tivesse corpo, seria feita de alumínio e silício. A Foxconn é a encarnação dessa ironia, uma empresa que fabrica inteligência sem possuir consciência. O seu riso é digital, o seu humor é estatístico, e o seu coração é um processador Xeon.
O mundo aplaude, os investidores sorriem, e os filósofos suspiram. A humanidade, fascinada pela sua própria criação, esquece-se de que o criador também pode ser substituído.
Como escreveu Karl Marx em O Capital (1867): “O capital é trabalho morto que, como um vampiro, vive apenas sugando trabalho vivo.” A Foxconn, com os seus servidores de IA, aperfeiçoou o vampiro e agora ele pensa, calcula e distribui dividendos.
Bibliografia
- Harari, Yuval Noah. Homo Deus: A Brief History of Tomorrow. Vintage, 2016.
- Zuboff, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism. PublicAffairs, 2019.
- Han, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Relógio D’Água, 2010.
- Sennett, Richard. The Culture of the New Capitalism. Yale University Press, 2006.
- Stiglitz, Joseph E. Globalization and Its Discontents. W.W. Norton & Company, 2002.
- Sloterdijk, Peter. Regras para o Parque Humano. Relógio D’Água, 1999.
- Steiner, George. Grammars of Creation. Yale University Press, 2001.
- Krugman, Paul. The Return of Depression Economics and the Crisis of 2008. W.W. Norton & Company, 2009.
- Relatório da OCDE sobre Economia Digital, 2025.
- Relatório do Banco Mundial, 2025.
- Relatório da Bloomberg Intelligence, 2026.
- Financial Times, edição de 10 de Julho de 2025.
- Instituto Chung-Hua de Pesquisa Económica, Relatório Anual 2025.
- Instituto de Energia de Taiwan, Relatório 2025.
Jorge Rodrigues Simão 2026

