A República Democrática do Congo, esse vasto território onde a geografia parece ter sido desenhada por um cartógrafo em plena crise existencial, volta a oferecer ao mundo uma tragédia sanitária digna de figurar nos compêndios de desgraças humanas. A actual epidemia de Ébola, declarada a 15 de Maio, ceifou mais de 1.700 vidas, segundo dados governamentais anunciados a 04.08.2026, com a serenidade burocrática de quem comunica o estado do trânsito. Registaram‑se 3.802 casos, 1.707 mortes, e uma incerteza tão densa que poderia ser engarrafada e vendida como produto de exportação.
Jean Kaseya, director‑geral do Africa CDC, declarou em Búnia cidade que se tornou, involuntariamente, o epicentro da desgraça que quase 80% dos novos casos não resultam de rastreio de contactos, mas de transmissão comunitária. Em linguagem menos técnica, o vírus passeia‑se livremente, sem passaporte, sem visto, sem controlo fronteiriço, como um turista europeu em Agosto. Tedros Adhanom Ghebreyesus, da OMS, prepara‑se para visitar Kinshasa e Búnia, numa peregrinação institucional que, espera‑se, não se limite à habitual coreografia de fotografias, apertos de mão e declarações que se evaporam mais depressa do que o álcool das soluções desinfectantes.
O vírus responsável por esta epidemia é o Bundibugyo, para o qual não existem vacinas nem tratamentos aprovados. A ciência, que em tantas ocasiões se apresenta como a grande muralha da civilização, aqui surge como uma paliçada improvisada, feita de boa vontade e ensaios clínicos em curso. Dois desses ensaios decorrem na província de Ituri, enquanto outros dois, de vacinas distintas, avançam no Reino Unido e no Canadá. A globalização, afinal, também se aplica às tentativas de salvar vidas.
A lista de obstáculos à contenção da epidemia é tão extensa que mereceria um capítulo próprio num relatório das Nações Unidas desses que ninguém lê, mas todos citam. Atrasos no rastreio de contactos, dificuldades de acesso às áreas afectadas, desconfiança das comunidades, violência de grupos armados e até de alguns residents como um cocktail explosivo que transforma cada intervenção sanitária numa operação de risco.
A província de Ituri, remota e frequentemente esquecida, concentra quase 90% dos casos. Mas o vírus, esse viajante incansável, já se fez anunciar noutras cinco províncias, incluindo Kisangani, uma das maiores cidades do país. Uganda, vizinho diligente, declarou‑se livre do Ébola após a alta do último paciente em Junho, numa demonstração de que, por vezes, a ordem natural das coisas ainda permite finais felizes.
O paciente zero continua por identificar, o que não surpreende num território onde os deslocamentos causados pelo conflito armado e pela exploração mineira ilegal tornam o rastreio de pessoas tão difícil quanto encontrar um livro intacto numa biblioteca em chamas. A OMS acompanha mais de 17.000 potenciais contactos, quase todos observados diariamente façanha logística que mereceria aplauso, não fosse o facto de a epidemia continuar a expandir‑se como uma mancha de óleo num lago.
Em 03.08.2026, profissionais de saúde em Mongbwalu lançaram um ultimato sobre salários em atraso. Antes disso, os de Búnia entraram em greve devido à falta de pagamento e às condições perigosas de trabalho. A OMS afirma que mais de 100 profissionais foram infectados desde o início da epidemia, o que demonstra que, na RDCongo, até os heróis são sacrificados no altar da negligência estrutural.
A situação recorda a advertência de Paul Farmer, médico e antropólogo, que escreveu: “As epidemias revelam as falhas das sociedades, expondo as desigualdades que preferimos ignorar.” (Farmer, Infections and Inequalities, 1999). A RDCongo, infelizmente, parece ter transformado essas falhas em características permanentes.
A violência contra equipas de saúde, motivada por desinformação, medo ou pura hostilidade, confirma o diagnóstico de Hannah Arendt quando observou: “A violência aparece onde o poder está em risco.” (Arendt, On Violence, 1970). E na RDCongo, o poder seja ele político, militar ou comunitário vive eternamente em risco, como um equilibrista sem rede.
O Ébola Bundibugyo, esse assassino microscópico, circula com a desenvoltura de quem sabe que não será detido tão cedo. Não há vacina, não há tratamento aprovado, não há estabilidade política, não há confiança comunitária, não há recursos suficientes. Há, sim, uma sucessão de comunicados oficiais que tentam transformar o caos em narrativa coerente.
O director‑geral do Africa CDC afirma que não é claro quando a epidemia atingirá o seu pico. A incerteza, essa companheira fiel das crises africanas, instala‑se como uma sombra permanente. A cada novo caso, a cada nova morte, a cada nova fuga de residentes aterrorizados, o vírus reafirma a sua soberania.
O conflito armado, a exploração mineira ilegal, os deslocamentos massivos, a desconfiança das populações tudo contribui para que o Ébola se torne uma espécie de entidade omnipresente, uma força da natureza que se alimenta da fragilidade humana. Como escreveu Albert Camus em A Peste (1947): “O bacilo nunca morre nem desaparece.” A frase, que muitos consideram literária, assume aqui um carácter quase profético.
As visitas oficiais, as conferências de imprensa, os comunicados, as promessas de reforço de meios, os apelos à calma tudo isso compõe uma coreografia que se repete em cada crise sanitária africana. A OMS desloca‑se, o Africa CDC desloca‑se, os governos deslocam‑se, e no fim, quem permanece é o vírus.
A burocracia internacional, com o seu vocabulário técnico e a sua fleuma institucional, lembra a ironia de José Ortega y Gasset quando escreveu: “A civilização é, antes de mais, a vontade de convivência.” (Ortega y Gasset, La Rebelión de las Masas, 1930). Mas na RDCongo, a convivência é forçada, violenta, e frequentemente mortal.
O que se observa é uma sucessão de reacções tardias, medidas insuficientes, promessas que não se cumprem, e uma população que, habituada à adversidade, não distingue entre esperança e resignação.
A epidemia de Ébola na RDCongo não é apenas um fenómeno sanitário: é um espelho cruel das fragilidades políticas, sociais e económicas de um país que vive permanentemente à beira do abismo. O vírus Bundibugyo, sem vacina e sem tratamento, encontrou terreno fértil num território onde a desordem é regra e a estabilidade é excepção.
Mais de 1.700 mortos, milhares de infectados, profissionais de saúde em greve, violência contra equipas médicas, deslocamentos massivos, rastreio insuficiente, desconfiança comunitária, ausência de meios, ausência de estratégia, ausência de futuro. Eis o retrato de uma epidemia que, longe de ser apenas um problema de saúde pública, é a manifestação mais recente de uma tragédia estrutural.
Como escreveu Michel Foucault: “A doença é a linguagem da verdade.” (Foucault, Naissance de la Clinique, 1963). E a verdade que esta epidemia revela é dura, incómoda e profundamente sarcástica: na RDCongo, o Ébola não é apenas um virus; é um símbolo.
Um símbolo de tudo aquilo que, há décadas, se recusa a ser resolvido.
Bibliografia
Arendt, H. (1970). On Violence. Harcourt Brace. Camus, A. (1947).
La Peste. Gallimard. Farmer, P. (1999). Infections and Inequalities: The Modern Plagues. University of California Press.
Foucault, M. (1963). Naissance de la Clinique. Presses Universitaires de France.
Ortega y Gasset, J. (1930). La Rebelión de las Masas. Revista de Occidente.
Jorge Rodrigues Simão 2026

