Há quem diga que o futebol é o espelho da sociedade. Se assim for, o “catenaccio” essa arte suíço-italiana de defender até à exaustão é a metáfora perfeita para a Europa contemporânea. A União Europeia, outrora um projecto de expansão e de esperança, parece hoje um clube envelhecido, que joga para empatar, com medo de perder o pouco que ainda tem. O “catenaccio” europeu não se joga em relvados, mas em gabinetes de Bruxelas, onde o som das teclas substitui o grito das claques e o carimbo substitui o passe. A estratégia é clara de não arriscar, não investir e não abrir. Proteger o que existe, mesmo que o que existe seja apenas uma pilha de regulamentos e relatórios.
Como escreveu Tony Judt em Postwar: A History of Europe Since 1945 (2005), “a Europa tornou-se um museu de si própria, onde o progresso é medido pela conservação”. E é precisamente essa conservação que se transformou em religião uma liturgia burocrática que faz do papel o sacramento e do carimbo o sinal da graça administrativa.
O “catenaccio” nasceu do medo de ser derrotado, exposto e arriscar. A Europa institucional partilha esse mesmo medo. Em vez de atacar com inovação, prefere defender com regulamentação. Em vez de investir, prefere auditar. Em vez de criar, prefere fiscalizar. O resultado é uma economia que se move como um guarda-redes hesitante sempre pronta a mergulhar, mas raramente a sair da pequena área.
Jean Monnet, um dos pais fundadores da integração europeia, acreditava que “a Europa será forjada nas crises e será a soma das soluções encontradas para essas crises”. O problema é que, em 2026, as crises multiplicam-se e as soluções são arquivadas. O mercado único, esse sonho de livre circulação e concorrência, é hoje uma miragem regulatória. Cada Estado-membro defende o seu pequeno feudo económico, como um defesa central que recusa passar a bola. E quando se fala em investimento, a resposta é sempre a mesma “vamos criar um grupo de trabalho”. O grupo de trabalho é o equivalente burocrático ao passe para trás elegante, seguro, e absolutamente inútil.
A Europa não é apenas defensiva; é esteticamente defensiva. O prazer não está no resultado, mas no processo. O burocrata europeu não quer resolver; quer tramitar. O relatório é o seu romance, o parecer é o seu poema, e o carimbo é o seu ponto final.
Como observou Max Weber em Economy and Society (1922), “a burocracia é a forma mais racional de dominação”. Mas Weber não viveu para ver a sua criatura transformar-se num labirinto onde a racionalidade se confunde com a paralisia. Hoje, o burocrata europeu é o sacerdote de uma religião sem fé, onde o dogma é o procedimento e o milagre é o cumprimento do prazo.
A ironia é que esta liturgia é celebrada em nome da eficiência. Mas a eficiência europeia é como o Santo Graal de que todos falam dela, mas ninguém a viu. O tempo gasto a preencher formulários para obter fundos comunitários seria suficiente para reconstruir Roma duas vezes.
O mercado único europeu é o maior projecto inacabado da história económica moderna. Prometido como um espaço de livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas, tornou-se um labirinto jurídico onde cada corredor termina num aviso de “não aplicável neste Estado-membro”.
Mario Draghi, no seu relatório The Future of European Competitiveness (2024), alertava: “Sem investimento e um verdadeiro mercado único, a Europa perderá relevância global.” Mas o aviso foi recebido com a serenidade típica de quem confunde prudência com inércia. A resposta institucional foi um documento de 300 páginas, aprovado por unanimidade, que não alterou absolutamente nada.
A Europa é, assim, uma catedral em obras, majestosa, mas eternamente envolta em andaimes. Cada directiva é uma pedra, cada regulamento é um vitral, e cada reunião do Conselho é uma missa solene onde se reza pela competitividade perdida.
Investir é, para a Europa, um acto quase herético. O investimento implica risco, e o risco é o inimigo da estabilidade essa palavra que, nas instituições europeias, tem valor teológico. A Comissão prefere distribuir fundos como indulgências, premiando os virtuosos da conformidade e castigando os pecadores da inovação.
Joseph Schumpeter, em Capitalism, Socialism and Democracy (1942), definiu o capitalismo como “um processo de destruição criativa”. Mas na Europa, a destruição é vista como vandalismo e a criatividade como desvio. O resultado é uma economia que envelhece sem se renovar, uma juventude que emigra e uma elite que se entretém a discutir o formato das actas.
Se o “catenaccio” económico é defensivo, o diplomático é quase claustrofóbico. A Europa fala muito, mas diz pouco. Reúne-se, delibera, redige conclusões, mas raramente age. A sua política externa é uma sinfonia de comunicados harmoniosa, mas inaudível.
Henry Kissinger perguntava ironicamente: “A quem é que eu telefono se quiser falar com a Europa?” Em 2026, a resposta continua a ser: “Depende do assunto.” A Europa é uma equipa sem capitão, onde cada jogador defende a sua zona e ninguém arrisca o passe vertical.
O poder de negociação europeu é proporcional à sua capacidade de investimento. Sem músculo económico, a diplomacia é apenas retórica. E a retórica, por mais elegante que seja, não compra gás, não constrói chips, nem impede guerras.
O regulamento europeu é uma obra de arte. Não pela sua beleza, mas pela sua complexidade. É o barroco administrativo levado ao extremo como uma tapeçaria de excepções, notas de rodapé e anexos que desafiam a compreensão humana.
Umberto Eco, em Travels in Hyperreality (1986), descreveu a obsessão moderna pela simulação. A Europa vive nessa hiper-realidade burocrática, onde o cumprimento formal substitui a substância. O regulamento é cumprido, mas o objectivo é esquecido. A forma triunfa sobre o conteúdo, e o resultado é uma perfeição sem propósito.
A Europa enfrenta uma escolha de continuar a jogar para empatar ou arriscar o ataque. Mas o ataque exige coragem, e a coragem é uma virtude escassa em tempos de comités. O “catenaccio” europeu é confortável pois protege, adia e justifica. Mas também sufoca, envelhece e desmotiva.
Como escreveu Zygmunt Bauman em Liquid Modernity (2000), “a segurança é o preço da liberdade”. A Europa escolheu a segurança, e perdeu a liberdade de agir. O seu futuro depende de uma decisão simples e impossível como abandonar o medo do erro e aceitar o risco da mudança.
O “catenaccio” europeu não é apenas uma estratégia; é uma identidade. Defender-se tornou-se o modo de existir. Mas uma civilização que vive para se defender acaba por se esquecer de atacar e, portanto, de viver.
A Europa precisa de reaprender o jogo ofensivo de investir, inovar e competir. Precisa de trocar o carimbo pelo impulso, o relatório pela acção e o parecer pela decisão. Enquanto isso não acontecer, continuará a ser o clube que joga para não perder e que, por isso mesmo, nunca ganha.
O “catenaccio” europeu é, no fundo, uma forma de arte como uma estética da contenção e uma coreografia do medo. A Europa defende-se com elegância, como um maestro que dirige uma sinfonia de regulamentos, cada um afinado para garantir que nada muda. Mas essa elegância é também o seu epitáfio. A defesa perfeita é a morte do movimento, e o movimento é a essência da vida.
O continente que inventou a Renascença, que iluminou o mundo com ciência e filosofia, tornou-se um arquivista da sua glória. O seu futuro é escrito em actas, rubricado por comissões, e selado com carimbos. O “catenaccio” europeu é, portanto, mais do que uma estratégia; é uma confissão. Confissão de medo, de cansaço e de nostalgia por um tempo em que o risco era sinónimo de grandeza.
E assim, entre relatórios e resoluções, a Europa continua a jogar o seu jogo defensivo, esperando que o apito final nunca soe. Porque, no fundo, sabe que o empate é o seu único resultado possível.
Bibliografia
- Bauman, Z. (2000). Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press.
- Draghi, M. (2024). The Future of European Competitiveness. European Commission Report.
- Eco, U. (1986). Travels in Hyperreality. San Diego: Harcourt Brace Jovanovich.
- Judt, T. (2005). Postwar: A History of Europe Since 1945. London: Penguin Books.
- Kissinger, H. (1994). Diplomacy. New York: Simon & Schuster.
- Monnet, J. (1978). Memoirs. London: Collins.
- Schumpeter, J. A. (1942). Capitalism, Socialism and Democracy. New York: Harper & Brothers.
- Weber, M. (1922). Economy and Society. Berkeley: University of California Press.
Jorge Rodrigues Simão 2026

