O Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2025 apresenta‑se como um documento típico de administração ambiental madura, combinando descrição factual da situação ecológica com a exposição das principais linhas de acção governativa. Logo à partida, sobressai um mérito relevante que é a capacidade de sintetizar, num único texto, a evolução de vários domínios ambientais em 2025. A descida das concentrações médias anuais de diversos poluentes atmosféricos, a melhoria da qualidade do ambiente hídrico costeiro, o aumento da quantidade de resíduos recicláveis recolhidos e a diminuição das reclamações por ruído são indicadores que, tomados em conjunto, revelam um esforço consistente de gestão ambiental e permitem ao leitor perceber que há resultados mensuráveis associados às políticas em curso. Não se trata apenas de um inventário de problemas, mas de um registo de tendências, o que é essencial para qualquer avaliação séria do estado do ambiente.
Outro ponto forte reside na articulação, ainda que sobretudo descritiva, entre situação ambiental e instrumentos de política pública. O relatório inscreve os resultados de 2025 no quadro das Linhas de Acção Governativa e da estratégia de descarbonização, evidenciando medidas concretas como o plano de apoio financeiro ao abate de motociclos a gasolina e sua substituição por motociclos eléctricos, a melhoria das infra‑estruturas de carregamento e troca de baterias, a instalação de sistemas fotovoltaicos em equipamentos públicos, a expansão do uso de gás natural e a elaboração de instruções específicas para actividades de grande escala. A modernização das instalações de tratamento de águas residuais, a proibição de determinados produtos de plástico descartável e o impulso dado ao Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos reforçam a ideia de uma política ambiental que não se limita a enunciar princípios, mas que se traduz em intervenções infra‑estruturais e regulatórias. Este encadeamento entre medidas e resultados confere ao relatório uma certa densidade governativa em que o leitor consegue relacionar, ainda que de forma geral, as melhorias observadas com decisões políticas identificáveis.
No entanto, precisamente por se situar neste registo predominantemente institucional, o relatório revela fragilidades que se tornam evidentes quando se procura uma leitura mais exigente. A primeira diz respeito ao grau de problematização. Os dados são apresentados como sinais de progresso, mas raramente se abre espaço para discutir as zonas de sombra pois não se aprofunda, por exemplo, a persistência de fontes estruturais de poluição, os limites das infra‑estruturas existentes, os conflitos entre crescimento urbano, mobilidade motorizada e qualidade ambiental, ou as dificuldades de implementação de certas medidas. A pressão crescente sobre a gestão dos resíduos sólidos urbanos é mencionada, mas o texto não explora de forma crítica as causas dessa pressão, nem discute cenários alternativos de redução na origem, alteração de padrões de consumo ou responsabilização de produtores. Fica a sensação de que o relatório prefere manter um tom de balanço positivo, evitando entrar em terrenos mais controversos.
Uma segunda limitação prende‑se com a ausência de metas claras e de indicadores de desempenho associados às políticas descritas. O leitor é informado de que houve descidas nas concentrações de poluentes, melhorias na água costeira e aumento da reciclagem, mas não encontra, no mesmo movimento, uma referência a objectivos previamente fixados para 2025, nem a avaliação do grau de cumprimento desses objectivos. Sem metas quantificadas, a noção de “melhoria” permanece relativa pois não se sabe se os resultados obtidos correspondem ao que estava planeado, se ficam aquém do desejável ou se, pelo contrário, superam expectativas. Esta lacuna reduz a capacidade do relatório de funcionar como instrumento de responsabilização, tanto interna (entre serviços e governo) como externa (perante cidadãos e comunidade científica).
Também se nota uma certa timidez na forma como o relatório aborda a dimensão territorial e social dos fenómenos ambientais. Embora Macau disponha de sistemas de informação geográfica e de monitorização, o texto não explora de forma sistemática a distribuição espacial dos impactos, nem as eventuais desigualdades ambientais entre zonas da cidade. Do mesmo modo, a referência à participação pública e à criação de mais Centros Ambientais Alegria surge mais como registo de actividades do que como análise da sua eficácia. Não se avalia o alcance real dessas iniciativas, o perfil dos públicos envolvidos, a capacidade de transformar comportamentos ou de influenciar decisões. A educação e a participação aparecem, assim, como complemento simpático da política ambiental, mas não como eixo central de transformação.
Uma outra dimensão que permanece pouco desenvolvida é a ligação entre ambiente e saúde. O relatório destaca benefícios da redução de emissões de carbono e da melhoria da qualidade do ar e da água, mas não integra, de forma sistemática, indicadores de saúde pública que permitam perceber o impacto dessas melhorias na vida quotidiana da população como incidência de doenças respiratórias, perturbações associadas ao ruído, vulnerabilidades específicas de grupos mais expostos, entre outros. Esta ausência é tanto mais relevante quanto a agenda internacional tem vindo a reforçar a importância da saúde ambiental como critério de avaliação de políticas.
Por fim, importa referir que, embora o relatório mencione o estudo temático sobre a gestão de resíduos sólidos e a intenção de definir estratégias futuras de redução e reciclagem “de acordo com a situação real do território”, não se avança ainda para uma discussão mais prospectiva. O texto permanece ancorado no ano de referência, com breves alusões ao que está em preparação, mas sem desenvolver cenários, opções alternativas ou riscos associados à inação. Falta, em suma, uma dimensão de planeamento estratégico que permita ao leitor perceber não apenas onde está Macau em 2025, mas para onde pretende ir e com que instrumentos.
Em conjunto, estes elementos permitem uma leitura equilibrada pois o Relatório do Estado do Ambiente de Macau 2025 cumpre bem a função de registar resultados, tornar visíveis as principais medidas de política e afirmar a continuidade de uma agenda de descarbonização e de melhoria da qualidade ambiental. Contudo, permanece aquém do que poderia ser um verdadeiro relatório de avaliação, capaz de confrontar metas e resultados, de discutir abertamente problemas persistentes, de integrar dimensões sociais e de saúde, e de abrir o debate sobre opções de futuro. É, portanto, um documento útil para compreender o estado do ambiente e o esforço governativo, mas ainda insuficiente como instrumento crítico de governação ambiental.
Bibliografia
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